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Querida Amazónia e depois?

Em tempos de confinamento  e de mergulho na fragilidade da vida em que todos estamos, urge perguntar  pela Querida Amazónia e pelos Quatro Sonhos do Papa Francisco. 

Curiosamente, o sonho  é uma forma de olhar o futuro como realização do que ainda não se tem.  António Gedeão afirma-o de uma forma lapidar no seu poema Eles não sabem nem sonham que o sonho comanda a vida. Martin Luther King Jr. proclamou, em 28 de agosto de 1963, nos degraus do Lincoln Memorial, em Washington, o seu mais famoso discurso, intitulado Eu tenho um sonho.

Os quatro sonhos do papa Francisco, como todos os sonhos, “só podem ser interpretados autenticamente por ele”.  

São sonhos de um “caráter profundamente teológico-espiritual” no dizer de António Adelson Araújo, SJ (um dos apresentadores do documento Querida Amazónia, em Roma).

O sonho é sempre um olhar promissor sobre o futuro. Está na linha da utopia, do projeto não acontecido, mas com uma enorme carga geradora de vontades e energias.  A melancolia, pelo contrário, está voltada para o passado, enrola-se nas recordações do que já foi e anseia por ancorar-se na memória idílica de um tempo idealizado, na maioria das vezes.

Os sonhos de Francisco estão aí, desencadeando a reflexão e a criatividade

Estamos perante  uma bomba relógio na própria Igreja universal:

Sonho com comunidades cristãs capazes de se  devotar e encarnar de tal modo na Amazónia, que deem à Igreja rostos novos com traços amazónicos.

É a igreja da Amazónia que no seu peregrinar irá, com a força do Espírito, dando novas hipóteses de regeneração do tecido eclesial que começa a ter em conta a multiculturalidade, de uma Igreja que aprenderá a evangelizar enculturando-se e não colonizando, de uma Igreja que deverá regressar ao sonho dos que anseiam por um pouco mais de pão, de dignidade, de vida.

Este sonho foi magistralmente descrito por João Cabral de Mello Neto em Morte Vida Severina:

… esperei, devo dizer, que ao menos aumentaria na quartinha, a água pouca, dentro da cuia, a farinha, o algodãozinho da camisa, ao meu aluguel com a vida.

Uma igreja comprometida com a casa comum que tem na Amazónia a sua capacidade de respirar

As várias instância eclesiais  ligadas à Amazónia: CELAM (Conselho Episcopal Latino-americano), CLAR (Confederação Latino-americana de Religiosos) e Cáritas Latino Americana e Caribe estão, desde o primeiro momento, implicadas em todo o processo sinodal da Amazónia e têm a memória de grandes compromissos pela salvação da Amazónia e das suas gentes.

Talvez seja oportuno recordar a célebre pastoral  de D. Pedro Casaldáliga, em 10 de outubro de 1971, onde, fazendo uma análise profunda dos problemas da Amazónia, nos deixa perplexos porque, meio século depois, parece escandalosamente atual. Nessa pastoral podemos encontrar o compromisso com o povo da Amazónia.

São de D. Pedro estas palavras de explicação da sua recusa em usar os sinais de poder, optando pelas lógicas de serviço na Igreja:

Tua mitra será um chapéu de palha sertanejo; o sol e o luar; a chuva e o sereno; o olhar dos pobres com quem caminhas e o olhar glorioso de Cristo, o Senhor. Teu báculo será a verdade do Evangelho e a confiança do teu povo em ti. Teu anel será a fidelidade à Nova Aliança do Deus Libertador e ao povo desta terra. Não terás outro escudo senão a força da Esperança e a Liberdade dos filhos de Deus, nem usarás outra luva que o serviço do Amor.

É nesta semente de muitos profetas e mártires que se alimenta o futuro promissor da Igreja na Amazónia

Para levar por diante  os sonhos do Papa em relação à sua Querida Amazónia acaba de ser constituída uma plataforma que reunirá todo o esforço de recepção do Sínodo: o Organismo Episcopal Pan-amazónico. Este organismo estava previsto no nº 115 do documento final do Sínodo.

Será um organismo com um representante de cada uma das sete conferência episcopais da região, dois membros da presidência da REPAM (Cardeais Cláudio Hummes e Pedro Ricardo Barreto Jimeno), da CELAM (Cardeal Miguel Cabrejos), o presidente da CLAR, o Secretário executivo da REPAM, os representante do Vaticano (Cardeais Baldisseri, Oullet, Tagle e Czerny), os três representantes dos povos Amazónicos e dois especialistas (um teólogo da sinodalidade e um de direito canónico).

Espero que a Igreja não seja um organismo abstrato, mas envolvido com as pessoas e comunidades do território, quer sejam as comunidades eclesiais quer sejam as comunidades da população local, como as comunidades indígenas.

Que seja um organismo dinâmico, próximo ao povo, que caminha com o povo, que escute o povo, e com o povo decida as práticas de construir estes novos caminhos para a igreja da Amazónia e para uma ecologia integral, os sonhos de uma Igreja mais sinodal, missionária, misericordiosa, pobre com os pobres, em saída para as periferias. O Sínodo para a Amazónia foi histórico. Nenhum sínodo anterior foi tão sinodal e reformador como este.

Cardeal Hummes – presidência da REPAM

Num mundo a mãos com um vírus destruidor de sonhos e projetos abre-se um horizonte de esperança.


Dom Pedro Casaldáliga, o bispo-poeta

Dom Pedro Casaldáliga, o bispo-poeta fiel à Igreja dos pobres, natural de Balsareny, Barcelona, é um bispo católico catalão, radicado no Brasil, desde 1968.
Dom Pedro Casaldáliga, o bispo-poeta fiel à Igreja dos pobres, natural de Balsareny, Barcelona, é um bispo católico catalão, radicado no Brasil, desde 1968.

Atualmente com 92 anos, acometido da doença à qual chama de ‘irmão Parkinson’, é bispo emérito da Prelazia de São Félix.

Dom Pedro Casaldáliga é um referente da Igreja dos pobres – no Brasil e no mundo –, uma Igreja comprometida na defesa dos direitos dos camponeses, dos indígenas e dos quilombolas [descendentes dos escravos africanos], com a participação ativa das comunidades eclesiais de base; uma igreja onde os leigos são os protagonistas principais.

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