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Igrejas vazias um desafio para renascer

Reflexão a partir do texto de Tomáš Halík: O Sinal das Igrejas Vazias – Para um Cristianismo que volta a partir , Paulinas, Lisboa, 2020.

Agora que a emergência do corona vírus está a diminuir, agora que os “picos” começam a baixar e todos estamos com uma grande vontade de “regressar ao normal”, penso que chegou o momento de refletirmos, seriamente, sobre o que acabamos de viver e continuaremos ainda a viver durante muito tempo.

Não me refiro apenas à pandemia da COVID-19, mas sobretudo ao estado da nossa civilização, que este fenómeno global nos revela. Em termos bíblicos, poderíamos afirmar que tudo isto é um sinal dos tempos. O imparável processo de globalização atingiu o seu pico: a vulnerabilidade global de um mundo global tornou-se evidente.

Igrejas vazias: desgraça ou anúncio profético?

No ano passado, antes da Páscoa, a catedral de Notre-Dame, em Paris, incendiou-se; este ano, nos vários continentes, em centenas de milhares de igrejas, sinagogas, mesquitas e outros templos, neste momento não há celebrações religiosas. Os cristãos viveram a Páscoa confinados em casa, os muçulmanos experimentam agora a mesma dor no Ramadão.

No entanto, a desertificação das igrejas, sobretudo no Ocidente, já vinha de trás e se nada fosse feito, dentro de alguns anos ficariam desertas em boa parte do mundo. 

Se não fizermos uma séria tentativa para mostrar ao mundo um rosto completamente diferente do cristianismo, este tempo de edifícios eclesiais vazios poderá tornar-se, simbolicamente, o sinal de um futuro não demasiado distante.

Torna-se urgente uma nova reforma

Importa, talvez, aceitar a abstinência atual dos serviços religiosos e das atividades da Igreja como “sacramento de salvação”, como uma oportunidade para parar e para nos comprometermos numa reflexão profunda diante de Deus e com Deus.

É urgente e necessária uma reforma para voltar ao coração do Evangelho, para viajar até às profundezas, chegar ao âmago do nosso “sermos e tornarmo-nos cristãos”.

No dia anterior à sua eleição o cardeal Bergoglio (atual Papa Francisco) citou uma passagem do Apocalipse, na qual Jesus está à porta e bate. E acrescentou: “Hoje, Cristo está dentro da Igreja a bater à porta e quer sair”. Eis o sinal: Cristo, hoje, quer sair das igrejas.

Onde fica, hoje, a Galileia?

Na Páscoa deste ano, ao celebrar-se a Missa sem povo foi proclamada a passagem do Evangelho sobre o túmulo vazio, dentro de igrejas vazias. Mas, se o vazio das igrejas nos lembra o túmulo vazio, não podemos ignorar a voz que ressoou do alto: “Não está aqui. Ressuscitou. Vai à vossa frente a caminho da Galileia”. 

Onde fica, hoje, a Galileia? Onde podemos encontrar o Cristo vivo que vai à nossa frente?

Nos nossos dias, o número daqueles que se identificam plenamente com formas tradicionais de religião, mas também o daqueles que declaram um ateísmo dogmático, está em diminuição, enquanto, por outro lado, aumenta o número dos que andam à procura – buscadores –, dos apáticos e dos indiferentes.

Existem buscadores entre os crentes (aqueles para quem a fé não é apenas uma herança, uma tradição, um conjunto de normas, ritos e regras, mas antes um caminho) e entre os não-crentes (aqueles que rejeitam os conceitos religiosos propostos por aqueles que os rodeiam, mas, ao mesmo tempo, experimentam o desejo por algo que satisfaça a sua sede de significado).

Estou convencido de que a ‘Galileia de hoje’, onde devemos encontrar a Deus, é o mundo dos buscadores.

Como encontrar Cristo entre os Buscadores?

Se, hoje, como discípulos de Jesus, nos quisermos relacionar com os buscadores de Deus, há várias coisas que devemos primeiro abandonar.

Devemos abandonar muitas das nossas antigas ideias sobre Cristo. O Ressuscitado é radicalmente transformado pela experiência da morte. Como lemos nos Evangelhos, mesmo as pessoas mais próximas e queridas de Jesus não o reconheceram. O testemunho dos outros não é suficiente, o que aprendemos na catequese e na formação cristã não chega. Devemos insistir em querer tocar as suas feridas (como Tomé). E onde podemos encontrar as suas feridas, senão nas feridas do mundo e nas feridas da Igreja, as feridas do corpo que Ele assumiu?

No diálogo com os buscadores, podemos e devemos aprender uns com os outros e abandonar, de uma vez por todas, a ideia de proselitismo, aprendendo a ampliar radicalmente o horizonte da nossa visão da Igreja.

O Senhor já bateu ‘de dentro’ e saiu; o nosso trabalho é procurá-Lo e segui-Lo, pois Cristo já atravessou a porta que tínhamos fechada por medo dos outros.

Reconhecê-Lo-emos pelas suas feridas!

O que o último Concílio disse sobre a catolicidade e o ecumenismo precisa adquirir um conteúdo mais profundo e mais amplo. Chegou a hora de uma busca mais ousada de Deus “em todas as coisas”.

É claro que podemos pensar este tempo de igrejas vazias e silenciosas como uma medida temporária que em breve será esquecida, mas também podemos aceitá-lo  como kairós, um momento salvífico para partir em busca de uma nova identidade do cristianismo, num mundo que mudou radicalmente diante dos nossos olhos. 

Não busquemos o Vivente entre os mortos, no passado. Tenhamos a coragem e a tenacidade de O procurar e feliz aquele que não se escandaliza ao encontrá-Lo na pessoa do estrangeiro, do marginalizado, do pobre, do doente, do velho… Havemos de O reconhecer pelas suas feridas, pela sua voz, quando nos falar no íntimo pelo Seu Espírito que traz a paz e varre todo o medo.

Foto da capa: Fotomontagem a partir de Igreja abandonada no Norte de Chipre e interior da Basílica de São Pedro no Domingo de Ramos.

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