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De Fernando se fez António

Mudar de nome é um assunto sério e importante! Porque atesta que algo mudou. Isso acontece com frequência também connosco.

Quando, por exemplo, após um evento – um feito como campeão nalgum desporto, uma intervenção oportuna e decisiva, um desaire mais ou menos voluntário – para o melhor ou para o pior, nos é dada uma alcunha, um novo apelido ou alterado o nosso verdadeiro nome (Manelão, João Cagaças). É como se, em determinado momento, o nome, com o qual a família e os amigos nos chamaram até então, se descolasse de nós e nos abandonasse. Porque algo de novo está a chamar por nós, e não por falta de identidade ou traição às próprias raízes.

Se pensarmos bem, aconteceu o mesmo com o nosso batismo, quando, ao derramar a água sobre as nossas cabeças, o sacerdote nos impôs definitivamente um nome, tornando-nos cristãos para sempre. Ele garantiu-nos que, a partir de então, esse seria também o nome que Deus gravaria na palma das suas mãos.

A prática de mudar de nome tornar-se-ia habitual mais tarde, mas, no tempo de Fernando ainda não era normal que um religioso mudasse de nome quando entrava definitivamente numa Ordem. No entanto, Fernando entende que, além da estabilidade da vida no mosteiro e das ambições humanas e eclesiásticas, é bom deixar para trás também o próprio nome, que tinha sido registado no momento do batismo e que o tinha acompanhado, desde o lar familiar até ao mosteiro de São Vicente e, depois, de Santa Cruz.

Ao largar a veste dos Cónegos Regrantes de Santo Agostinho e assumir o traje franciscano, sinal e gesto já em si eloquente da mudança que está a acontecer na sua vida, Fernando manifesta concretamente o que provavelmente ainda estava um tanto confuso no seu coração e na sua cabeça. Dado que, naquela época, a veste ainda fazia o monge: a mudança fala de uma escolha – ou pelo menos de uma vontade – e de um projeto de vida concreto e alternativo.

Ao mudar de nome, marca um ponto sem retorno: a partir de agora Fernando deixa de existir, fica apenas António.

António, como o santo abade, o pai dos monges, que viveu no deserto egípcio no século IV, ao qual está dedicada a pequena igreja onde os frades menores estão sediados em Coimbra, entre os olivais, não longe do mosteiro de Santa Cruz. Um santo austero, leigo, temperado pelo ascetismo e pelas lutas contra o diabo, solitário, mas procurado pelo povo, um homem que tinha doado todos os seus bens aos pobres depois de escutar o Evangelho (sim, como Francisco de Assis, mas isso, Fernando-António ainda não sabia).

Um santo pop, representado nas igrejas, acompanhado pelo fiel porquinho, segurando firmemente o bastão com a alça em forma da letra “T”, por vezes também costurada na sua veste monástica (o nosso António não podia ainda nem sequer imaginar que esse “T” é o tau grego, a letra preferida de Francisco). Um novo nome para dizer “obrigado” ao passado e “sim!” ao futuro.

Muitas vezes na Bíblia, a imposição de um novo nome significa uma nova vida, uma nova missão, uma escolha de Deus para uma tarefa especial (cf. Gn 17: 4-5; Os 1,3,6; Mt 16, 18).

Por isso, o novo nome não é ainda tudo e isso António descobri-lo-á mais tarde. É apenas mais um começo: “Quem tem ouvidos ouça o que o Espírito diz às igrejas: ao que sair vencedor dar-lhe-ei a comer do maná escondido e dar-lhe-ei também uma pedra branca na qual estará gravado um novo nome que ninguém conhece, a não ser o que a recebe” (Ap 2,17).


Foto da Capa: De Fernando se fez António: vestição do hábito franciscano em Santo Antão dos Olivais. Ilustração de Luca Salvagno.

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