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Sentido e destino da palavra em tempo de doença

Texto escrito em tempo de clausura porque um vírus está infectando a humanidade, abrindo brechas definitivas nos muros das nossas certezas de homens-donos-do-mundo. Escrito em jeito de testemunho, como quem, tendo de pensar sobre a linguagem, procura uma frase que faça sentido nesta época que rompe com a globalização feliz e os seus pressupostos económicos e políticos.

“Um pensamento é uma frase impossível”.

Pierre Alfieri, Procurar uma frase, Vega, Lisboa, 1999, p. 39.

Podemos ter chegado ao fim. Verdadeiramente ao fim. A que espécie de fim? As seguranças do século dão lugar às inseguranças de uma época virtual, telegénica, líquida, no sentido que lhe dá Zygmunt Bauman. Do Estado Social à sustentabilidade dos serviços de saúde; da Escola Pública às profissões liberais, tudo parece agora estar condenado a formas novas de empregabilidade à distância ou privatização dos modos de produção. Em rede, fazendo teletrabalho, funcionando como rizoma invisível que dilui o contacto humano, o fim a que se chegou deriva do ponto de tecnologia avançada que, como em nenhum outro momento da História, desumanizou o humano. Isto é: tornou-o o homo tecnologicus que, em bom rigor, não vê na linguagem senão um bloqueio para a verdadeira comunicação – agora toda feita com base nos algoritmos. 

Todo o fim é um reinício, ousa alguém dizer. Mas será este nosso tempo um reiniciar do quê? As promessas que a globalização lançou no mundo, serão elas verbetes de um dicionário que, no futuro, será olhado pelos que, herdeiros do século XX, aí só poderão ver um mero artefacto museológico. Como artefacto, será por isso mesmo, digno de mera curiosidade ou, quando não, de autêntico repúdio. Será assim? 

Claro que nestas perguntas há um gozo retórico que advém de intuir que o vírus que agora se expande, como uma flor do mal abrindo as suas pétalas, pode ser combatido e vencido com a vacina apropriada saída de um qualquer centro de investigação chinês ou americano, europeu ou brasileiro.

Todavia, a retórica encerra aqui uma outra questão: a de que, no silêncio hostil de uma capital fechada em suas casas, com seus habitantes vendo, nas televisões e nas redes sociais o aumento dos contágios, a cura não será a panaceia para outros vírus insidiosos de que o vírus mutante que enfrentamos é o símbolo.

É, pois, um veneno (do latim virus) ou para usar uma metáfora instigante de Susan Sontag: toda a doença é o espelho dessa outra parte do humano que não queremos ver: a morte.

O vírus é o agente da doença, a face mesma da condição mortal humana. Sejam os vírus propriamente ditos – fruto do contacto do homem com outros bio-sistemas (a caça no século XIX, o contacto com vírus naturais em ambientes tropicais, desconhecidos ao organismo dos ocidentais, ou vice-versa, posto que os africanos e os índios foram expostos a vírus para os quais o homem branco caucasiano já tinha imunidade), ou fruto do crescimento das cidades e de novas políticas de relação entre os corpos; é ainda de vírus que devemos falar se quisermos pensar a linguagem da poesia como remédio antiviral. Sejam os vírus produzidos em laboratório para, em face da explosão demográfica, eliminar raças ou grupos sociais, ou vírus como o da formatação de gerações inteiras pelos media, visando o domínio absoluto sobre a liberdade não só dos corpos, mas do pensamento, é ainda de vírus que devemos falar.

O contágio mais evidente, e, porém, invisível que se operou nas sociedades ocidentais no último século, foi qual?

Quando, numa sociedade que despreza as artes e a poesia, a sensibilidade e o pensamento de que outro vírus deveremos falar senão do vírus do fascismo? Da imagem rigorosa que de Camus em A Peste ao ensaio de Rob Riemen intitulado O Eterno Retorno do Fascismo, não é com um vírus mutante que continuamente nos debatemos?

Talvez por isso Jorge de Sena nos lembre que “de morte natural nunca ninguém morreu”, sendo este  já um bom sintoma desse outro vírus, o da poesia, que, como vírus apontado à certeza da medicina e da sabedoria popular, vem revelar-nos o óbvio: que não é natural à condição espiritual do homem, a morte. Mas, paradoxalmente,  é o próprio vírus da morte o que a sociedade tecnocrata e tecnológica mais corteja. Senão vejamos.

Dos sistemas de ensino globais, ancorados numa organização militar dos programas curriculares, obrigando à formatação de gerações inteiras por via dum sólido mercado de livros escolares que invadem a infância e a adolescência com vista à padronização de respostas para os exames (todas iguais e com critérios de correção e cenários de resposta inflexíveis), à luta pela sobrevivência no competitivo mercado de trabalho, de que outro vírus senão o vírus da alienação podemos falar? 

De resto, a reboque do coronavírus, normalizando o teletrabalho, a alienação virá acelerar mais ainda os processos de sedimentação dum mercado global de novas dinâmicas sociais, todas elas minadas pelo vírus tecnológico, forma última que toma o mutante vírus do fascismo, inimigo histórico da poesia, do pensamento e das artes, de tudo, enfim, quanto representa a liberdade do homem.

Sintomas da doença da banalidade e da ditadura do lugar-comum

O vírus não menos insidioso da falsidade, entrando nas nossas casas através das redes sociais, é esse um dos rostos do fascismo, hoje patente para quem quiser ver na obediência cega à linguagem dos smatphones e do tablet, do Iphone e do Instagram, do Wahtsapp e do velhinho Facebook, um dos sintomas da doença da banalidade, da doença da ditadura do lugar-comum.

Coadjuvada por políticas de isolamento social, a manipulação do homem e da sua linguagem, isso pode estar em curso, já que um longo tempo de quarentena (meio ano?, um ano?) irá alimentar no inconsciente colectivo o medo como forma única de ser e estar no novo mundo. 

Com o depauperar das formas de relacionar gramáticas diversas, com o ódio natural às linguagens as mais díspares da unilíngua do teletrabalho e das redes sociais onde o novo humano se irá relacionar, a poesia resistirá como “doença da linguagem” em lugares ocultos.  Permitir-se-á a um engenheiro ou um informático que apreciem a poesia ou a pintura? Um ministro ou um gestor serão, num futuro próximo, sensíveis à luz da retórica da filosofia, à expressão do drama humano que brota de Shakespeare? Os alunos de hoje, que nascem para a escola e as universidades, que constantemente escolhem (ou são encaminhados para) cursos de gestão e de medicina, serão ainda, daqui a vinte anos, possíveis leitores de Unamuno?

A poesia e as artes, como “doenças da linguagem”, como vírus que funcionam como replicadores da imaginação e da vitalidade, isso é o que a sociedade viral da tecnocracia tem combatido.

Pois bem, é contra essas formas de servidão humana, agora num novo processo de reificação, que a poesia pode ser bem essa “doença da linguagem”, afinal tão necessária, para que as sociedades humanas, como corpos vivos, resistam às mais multifacetadas panaceias que o mutante vírus do fascismo procura inocular.

Contra a ideologia do uniforme e do pensamento “em rede” (presos na rede para sempre e para sempre escravizados pelo virtual, confinados ao espaço de domesticação que serão as nossas casas), nada mais revolucionário que esse dinamismo interior que sobrevive na poesia e na música, na filosofia e nas artes, fontes da energia libertadora. Essa energia vital que, como um vírus, circula no sangue dos que, contra o processo de decomposição do homem moderno, compreendem que é na linguagem das artes que esse homem decomposto se pode reconstruir. 

Erigir uma doença produtiva, uma forma vital de ser e estar, foi essa a solução da poesia moderna e ou das artes e da música. Quando, no início do século XX, se afirmou como lei única a espontaneidade criadora, não foram Pessoa e Breton, Eliot e Maiakovski, Cendrars ou Marinetti, Almada ou Picasso, Amadeu ou Braque, Stravinski ou Prokofiev, os fazedores de uma liberdade livre? Dessa liberdade iremos precisar depois de 2020. 

Talvez por isso também, grandes oradores como o Padre António Vieira ou Santo António (ou os oradores fundadores da nossa civilização: Jesus de Nazaré e Sócrates) tivessem, em si mesmos, como projeto humano essa virulência de uma palavra viva, de uma retórica da luz que, oposta à retórica das trevas, mais não era que a declaração de uma verdade humana difícil ou impossível de aceitar pelos poderes – de Caifás aos habitantes de Arimino, dos colonos do Maranhão aos novos colonos da tecnocracia atual, os donos da Internet e da economia viral.

Que declaração é essa que vem revelar a dimensão humana ao homem agrilhoado pelo ecrã feiticeiro da nossa era?

A declaração simples de que o homem é um ser de linguagem e, nessa medida, um ser que faz da palavra (da palavra poética, que é palavra crística, parábola por excelência), mola para a sua ação revolucionária, exigindo para os outros o que pede para si: um mundo justo, feito de diversidade, de harmoniosa relação entre todos e, sobretudo, de harmoniosa relação com a casa-comum a que chamamos Planeta Terra. Regresso ao início: um pensamento é uma frase impossível. Mas é de impossibilidades que o homem livre se faz.

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