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Livra-nos do medo

Quando Adão e Eva comeram do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal, deram-se conta que estavam “nus”, na sua relação com Deus, com os outros e com eles próprios. Quando Deus os interpelou, já o medo se tinha apoderado deles e, consequentemente, era preciso culpabilizar alguém (“A culpa é da China”, como diria Trump). A narração mítica do Génesis quer ajudar-nos a entender por que a história da humanidade é marcada pelo “sofrimento”, pelo”trabalho penoso” e pelo”egoísmo”, quando o sonho de Deus é que seja marcada pela “felicidade”, pelo “trabalho criativo” e pela “solidariedade”.

No tempo que estamos a viver emerge um medo particular, o “coronavirus”, que abrange todos os níveis da nossa existência e do nosso relacionamento pessoal, social, económico e político; e, como sempre, a reação primária é passar culpas e encontrar culpados.

“É absurdo dizer “parem de se preocupar” ou “não há motivo para entrar em pânico”, porque nunca há um bom motivo para entrar em pânico. O pânico – palavra que vem daquelas ovelhas que o deus Pan adorava assustar – está sempre ligado ao medo exagerado e incontrolável. Uma vez que o pânico assume o controle, é tarde demais para agir. Por outro lado, é importante falar do “medo razoável” (Entrevista ao filósofo francês Pierre Zaoui, por ÉlodieMaurot, La CroixInternational, 16-03-2020).

O jornalista Raul Gabriel escreve a este propósito no diário “Avvenire”:

O medo não gera solidariedade e não nos torna melhores. O que acontece por medo, na quase totalidade, é ditado por um interesse pessoal, verdadeiro ou pensado como tal. Sob a sua alçada prolifera o carrossel dos defeitos humanos, prontos a retomar a centralidade na nossa existência logo que o medo passe para uma lembrança passada. (…) Só a aquisição de uma profunda consciência interior pode contrariar os efeitos nefastos do medo, no que diz respeito ao relacionamento com o outro.

Não podemos controlar se iremos ficar doentes ou não. Podemos lavar as mãos (não esquecendo que há milhões de pessoas que não se podem dar a esse luxo) e devemos seguir as recomendações de higiene e segurança. Devemos preocupar-nos connosco e com os nossos, claro, mas também com os sistemas de saúde (que a maioria da população mundial não tem), com o modo como os mais pobres sobreviverão a esta crise e assim por diante…

Apesar disso, não podemos colocar o valor da vida acima de tudo, pois existem valores acima da vida sem os quais a vida deixa de ser verdadeiramente humana: a proximidade com os mais frágeis, o dever de acompanhar os doentes e não abandonar os idosos. Mais do que valores evangélicos, são deveres universais.

Esta crise põe a nu não apenas a fragilidade da nossa vida, mas também a fragilidade da democracia, da economia, da justiça, da liberdade, da solidariedade, da saúde, da educação…

Estamos no meio de um desastre e, como nos diz o filósofo Pierre Zaoui, as pessoas adoram um desastre, pois ajuda-nos a esquecer os próprios problemas, a preencher o nosso tédio, a ver que todos sofremos e, portanto, a esquecer o nosso próprio sofrimento. No entanto, este desastre não nos deve desviar a atenção para o facto de que existem outros desastres tão ou mais graves, como a guerra na Síria, o aquecimento global, a pobreza. “O perigo real não é tanto o fascínio pelo desastre, mas sim a incapacidade de priorizar os desastres”.

Nesta quaresma-quarentena somos chamados a tomar consciência da nossa fragilidade, do nosso pecado e a acolher o Espírito de sabedoria, que Deus nos concede através de Jesus, o Filho do Homem “manso e humilde de coração.
Então, a Páscoa acontece e os cristãos proclamam a esperança-certeza de que é possível vencer todos os vírus do mal, graças à nossa comunhão com Cristo, caminho, verdade e vida.

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