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A terra pertence ao Céu

Abro o Word no computador e começo, como habitualmente, por gravar o documento: 039_Os pés na terra_abril2020. Desta feita, o nome do documento permaneceu na minha mente em vez de ser apenas mais um movimento rápido dos dedos nas teclas e um clique do indicador no botão esquerdo do rato.

Os pés na terra. Quando pensei no nome a dar a este espaço, fi-lo como uma pequeníssima provocação (antes de tudo a mim mesma), como uma proposta que pudesse esticar a tensão entre “as coisas do alto”, as coisas de Deus, e aquilo que nos puxa para o prosaico, para a quotidianidade, porventura distante do céu. Fi-lo também a pensar que só esse poderia ser o meu contributo, que sei pouco da realidade quotidiana, mas menos ainda de desafios espirituais elevados (e quão importantes são!), convencida – sem me enganar – de que a revista Mensageiro de Santo António tinha já o espaço e as vozes mais avisadas nos temas do Espírito.

A ingenuidade, não sendo propriamente uma virtude, é uma palavra reconfortante quando nos avaliamos. Que ingenuidade pensar em separar a terra do céu!

É evidente que a terra pertence ao Céu e que o Altíssimo se encontra em experiências chãs do dia-a-dia, no arrumar a casa (abril, 2018), na carta a uma amiga (dezembro, 2017) ou na alegria do junho (junho, 2016), por exemplo.

Ao longo destes quatro anos, procurei escrever tanto sobre temas banais como sobre temas de excecionalidade e urgência. Tenho tentado trazer a estas linhas, que são lidas com paciente generosidade, algumas reflexões que possam ajudar-nos a fincar, com inteireza e consciência, os pés na terra.

Foto de Pedro Barros: Meia-praia, Lagos, 2008.
Foto de Pedro Barros: Meia-praia, Lagos, 2008.

Sentir os pés, sentindo a terra em que vivemos, em que nos erguemos, em que caminhamos, que partilhamos com o Outro.

As fotografias do meu amigo Pedro Barros (sobre cujo trabalho escrevi um pouco no artigo de julho de 2017) foram certamente uma inspiração para o título, para a ideia do que queria fazer nestas páginas.

Falo de uma série de fotografias dos pescadores da Meia-Praia, em Lagos, a puxar as redes de cerco para a areia, calças arregaçadas, pés descalços na beira-mar.

Nessas fotos a preto e branco (2008), como noutras da mesma arte Xávega, interpela-nos a força das pernas, o esforço dos rostos e o contraste luminoso dos cinzentos em que podemos ver o sol brilhar. O Pedro batizou a série com o nome “Pés na terra” e, embora inconscientemente na altura, hoje tenho a certeza de que este título ecoou na minha cabeça na hora de começar a escrever no Mensageiro de Santo António. Muitas vezes antes de começar a escrever penso nesses pés, nessa terra, e no trabalho desses homens. 

Também penso nos pés (e no corpo encolhido) da jovem refugiada deitada na terra molhada da fotografia que foi o mote do primeiro texto desta coluna, em abril de 2016, e que se chamou justamente “Os pés na terra”. 

Penso muitas vezes nos pés, na terra, e em como temos de ter a cabeça no ar, disposta a sonhar, o coração ao alto, os braços erguidos aos céus como o crente do poema “Desejos vãos”, de Florbela Espanca. Porque é evidente que a terra pertence ao Céu.

Que farei quando tudo arde?

E penso em tudo isto e noutros sobressaltos que, no dia em que escrevo, quase se resumem ao nome de um vírus e do que ele exige de nós. São tempos de perturbação, momentos de desnorte, ensaios perante o desconhecido, o habitual que se esvanece, o estado de exceção que se instaura. E uma oportunidade única de superação. Como indivíduos e como sociedade.

O último verso do poema Desarrezoado amor, dentro em meu peito, de Sá de Miranda (1481-1558), traz uma pergunta: “[…] Que farei quando tudo arde?” Uma pergunta que há quinhentos anos se repete, e que hoje me faz chamar a terra aos pés, para que eles não percam a virtude da verticalidade e para que sejam para nós sinal palpável e evidente de que a terra pertence ao Céu. 

No momento grave em que tudo arde lá fora, em que mãos amorosas amassam este número da revista para que possa ser pão, procuremos sentir os pés na terra, inspirar fundo, deixar-se tocar pelo Espírito da Páscoa que é renovação. 

E porventura começar um outro caminho.

Fotos de Pedro Barros: Meia-praia, Lagos, 2008.

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