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Querida Amazónia [Querido Mundo]

Com o título Querida Amazónia e com a data de 2 de fevereiro de 2020 − Festa da Apresentação do Senhor −, no sétimo ano do seu pontificado, Francisco dirige esta Exortação Apostólica Pós-Sinodal ao Povo de Deus e a todas as pessoas de boa vontade.

Logo no início o Papa explica o sentido desta Exortação. Julgo que o faz por estar bem ciente das expetativas que rodeavam a publicação deste documento. Por isso afirma com toda a clareza:

Ouvi as intervenções ao longo do Sínodo e li, com interesse, as contribuições dos Círculos Menores. Com esta Exortação, quero expressar as ressonâncias que provocou em mim este percurso de diálogo e discernimento. Aqui, não vou desenvolver todas as questões amplamente tratadas no Documento conclusivo; não pretendo substitui-lo nem repeti-lo. Desejo apenas oferecer um breve quadro de reflexão que encarne na realidade amazónica uma síntese de algumas grandes preocupações já manifestadas por mim em documentos anteriores, que ajude e oriente para uma recepção harmoniosa, criativa e frutuosa de todo o caminho sinodal. (nº 2)

E continua,

Ao mesmo tempo, quero apresentar de maneira oficial o citado Documento, que nos oferece as conclusões do Sínodo e no qual colaboraram muitas pessoas que conhecem melhor do que eu e do que a Cúria Romana a problemática da Amazónia, porque vivem lá, por ela sofrem e a amam apaixonadamente. Nesta Exortação, preferi não citar o Documento, convidando a lê-lo integralmente.(nº3)

E vai ainda mais longe,

Deus queira que toda a Igreja se deixe enriquecer e interpelar por este trabalho, que os pastores, os consagrados, as consagradas e os fiéis-leigos da Amazónia se empenhem na sua aplicação e que, de alguma forma, possa inspirar todas as pessoas de boa vontade. (nº4)

A partir do que aqui é dito parece-me legítimo poder concluir que estes dois textos devem ser lidos em conjunto, pelo que não sou capaz de perceber alguns dos debates que, entretanto, logo se fizeram ouvir, tentando indicar ganhadores e perdedores em todo este processo.

Após indicar o sentido da Exortação o papa Francisco partilha quatro grandes sonhos que todo o processo sinodal lhe inspirou:

Sonho com uma Amazónia que lute pelos direitos dos mais pobres, dos povos nativos, dos últimos, de modo que a sua voz seja ouvida e sua dignidade promovida.

Sonho com uma Amazónia que preserve a riqueza cultural que a carateriza e na qual brilha de maneira tão variada a beleza humana.

Sonho com uma Amazónia que guarde zelosamente a sedutora beleza natural que a adorna, a vida transbordante que enche os seus rios e as suas florestas.

Sonho com comunidades cristãs capazes de se devotar e encarnar de tal modo na Amazónia, que deem à Igreja rostos novos com traços amazónicos. (nº7)

Se fizermos o exercício de substituir a palavra Amazónia pela palavra mundo parece-me que, não só os sonhos continuam a ser perfeitamente inteligíveis, como em nada seremos infiéis ao pensamento do Papa. Na verdade, reconheço nesta exortação aqueles dois pilares que julgo serem os ‘motores’ de todo o seu pontificado, e que me atrevo a formular assim: uma Igreja renovada para cuidar da casa comum.

O último sonho, quando reescrito na linha do sugerido, parece-me indicar esse mesmo caminho: sonho com comunidades cristãs capazes de se devotar e encarnar de tal modo no mundo, que deem à Igreja rostos novos com os traços de cada lugar e de cada momento em que se vive.

É a dinâmica da encarnação que não pode deixar de existir em tudo o que queira assumir-se como verdadeiramente cristão.

É também por isso que me parece poder ser possível fazer o mesmo exercício de substituição no título, de tal modo que possamos perceber como é no mundo que o projeto de salvação tem de encarnar e acontecer. O compromisso das comunidades cristãs na sua edificação e transformação, tem, pois, de ser uma realidade que jamais pode faltar.


Agendas ocultas

Excerto de uma entrevista de Salvatore Cernuzio a Mauricio López, secretário executivo da REPAM (Rede Eclesial PanAmazónica), publicada no La Stampa, a 19 de fevereiro de 2020,
in Revista online IHU (Instituto Humanitas Unisinos), http://www.ihu.unisinos.br.

Com todo o respeito, mas parece-me que aqueles que ficaram desapontados com a exortação do Papa nada entenderam do processo sinodal, ou vivem completamente fora da realidade, longe dos rostos concretos daqueles que apoiaram esse processo. Vimos uma obsessão por parte dos conservadores e dos progressistas sobre o tema dos viri probati, bem como sobre aquele do diaconato feminino, que são, sim, questões importantes, mas não essenciais, para o sucesso do Sínodo. A partir do processo de escuta conduzido em nível territorial, a demanda que chegou ao Papa foi muito mais ampla, ou seja, ampliar as perspectivas da ministerialidade para sustentar a missão nesse território. Ou seja, a visão de uma Igreja mais sinodal que explora âmbitos ministeriais que não existiam ou que, se existiam, eram pouco desenvolvidos, a fim de responder às necessidades específicas do território que são tantas e urgentes. Reduzir tudo à abertura aos padres casados e às mulheres diáconas é uma maneira de distrair do que é realmente essencial.

O essencial está na ecologia integral, na urgência da crise climática, na mudança do modelo de desenvolvimento… Todos temas discutidos amplamente no plenário, mas anulados uma vez fora e agora com comentários à Querida Amazónia.

A novidade é o facto de que um Papa empurre em direção a uma ecologia integral que se traduza na defesa do território, nos direitos dos povos indígenas, em uma opção preferencial pela casa comum, em uma Igreja muito mais intercultural, dialogante e não colonizadora que reconhece seus erros, pede perdão e vai formar uma aliança com os povos para caminhar juntos, valorizando sua espiritualidade. O Papa Francisco fez com que a Amazónia se tornasse um lugar teológico. Isso abre caminho para que a mesma reflexão possa surgir em outros biomas do mundo e seja possível responder juntos aos desafios da missão da Igreja além das estruturas tradicionais. A periferia invade o centro, ilumina-o e ajuda-o a transformar-se. Essa periferia está claramente representada na Querida Amazônia.


Foto da capa: Participantes do Sínodo da Amazónia, na Missa celebrada pelo Papa Francisco, no Dia Mundial Missionário, Basílica de São Pedro, Cidade do Vaticano, 20 de outubro de 2019. EPA / ANGELO CARCONI

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