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Lisboa, a doença, o mundo

Artigo do escritor António Carlos Cortez, publicado no Facebook a 12 de fevereiro de 2020, aqui transcrito com a sua autorização.


É certo que iremos ultrapassar este momento. Mas tudo isto faz-me pensar na frase de Valery “a velocidade é a loucura”. A Europa e o mundo ocidental, bem como esta China que é de um capitalismo feroz mascarado de socialismo ainda vermelho, acelerou trocas comerciais, globalizou a circulação vertiginosa de produtos, pessoas, ideias. Se é sinal de dinamismo económico, se é imparável esta velocidade que globaliza vírus, como globaliza modas, e uma visão de mundo quantas vezes superficial, pejada de lugares-comuns (é ver o modo como se fala entre gerações mais novas) devo dizer que as imagens de praias cheias é um sintoma, entre outros, de que há um outro vírus grave a atingir este Ocidente hedonista, feito de democracias em crise moral e com instituições em processo de diluição: o vírus da indigência.

Não é um vírus novo. Holderlin viu há mais de cem anos o nosso tempo. A ausência de referências culturais, de líderes mundiais com consciência histórica, num século em que tudo se reduz à lógica do lucro e do espectáculo; século do fim da privacidade, de precariedade no trabalho, de guerras químicas, de populismos, de obsessão pela moral hipócrita que nos faz crer que temos de ser escravos das empresas para sermos funcionários exemplares; muito do que temos feito vai contra a natureza humana.

Ao lema da globalização “mais rápido, mais longe, mais alto” pergunto se não é melhor “mais lento, mais perto, mais baixo”. A Europa terá de ter memória histórica para não repetir esse século de monstros, o século passado – o nosso século ainda… 

A poesia, as artes, em tempo de indigência fazem sentido: são o lugar do não em tempo de uma humanidade que é já um não-lugar.

Aqui ficam 5 imagens motivadas por estes dias estranhos. 

STRANGE DAYS

1

unreal city lisboa
na instável circulação já não
sanguinea ninguém virá reclamar
esta cidade Nas ruas os corpos
invadidos não terão o mar
dos dias livres de outra idade

2

Agora começou um outro tempo
E mesmo que as bocas emudecidas
à fala voltem sua rede sonora
não deixará de haver a ameaça
de regressar mais tarde essa doença
como ígneo fogo queimar o Ocidente

3

Para o nosso tempo
um céu de chumbo
de ácido tétrico 

4

Resta viver O maior risco de resto
Havemos ainda de lembrar
como foi que tudo começou Alguém
talvez ninguém virá gritar
a velocidade é a loucura e foi
esse o vírus que no sangue das cidades
se misturou

5

Lobo de silêncio o mundo
Unreal city Aqui regressarei? 

Dum miradouro a luz de fogo desce
à árvore pulmonar no tempo cerce

ó moles hospitais sai da vossa boca
um grito que arrepia os nervos nus

Lisboa Paris Berlim são petersburgo
O mundo! Nada será igual depois do vírus

da febre que assola a oca civilização
no tempo escuro

Uma canção soará como um hino
I see the future baby and its murder

Que venha então a mão oculta
sob a nossa pele mostrar o rosto

revelar os sinais outrora inscritos
no mapa que restar da nossa época

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