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Cónegos Regrantes de Santo Agostinho

A Ordem dos Cónegos (Ordo Canonicus) nasceu da aplicação do ideal monástico à vida clerical: os cónegos eram clérigos (clericos) que viviam em comunidade, observando uma Regra sob a jurisdição do Bispo. A difusão desta nova forma de vida religiosa, diferente da monástica, começa a partir do século X e é o resultado do esforço da Igreja para responder às numerosas formas de indisciplina e imoralidade existentes no clero diocesano.

Com o tempo, a maioria destas comunidades canónicas adotou a Regra de Santo Agostinho, por isso, a começar pela Reforma Gregoriana (1050-1200), foram definidas duas categorias de cónegos: a secular, que vivia sob a dependência do bispo, mantendo cada membro as suas posses, e a regular, dos que seguiam uma Regra, renunciavam aos seus bens e professavam o voto de pobreza.

Sob o pontificado de Inocêncio II (1130-1143), as comunidades dos cónegos regulares adotaram definitivamente a Regra de Santo Agostinho. Desta forma, chegou-se a distinguir, na Igreja, o Ordo Canonicus, ligado à Regra de Santo Agostinho e o Ordo Monasticus, ligado à Regra de São Bento.

Os Cónegos Regulares, embora atribuíssem grande importância ao estudo, ao recolhimento, à oração, ao Ofício Divino e à observância dos conselhos evangélicos, diferenciavam-se dos monges no que diz respeito ao seu apostolado ministerial, assistencial e aberto à vida social. Inicialmente, esta característica fez aumentar significativamente o número dos seus membros.  No entanto, mais tarde, esta mesma característica constituiu o seu ponto fraco, fazendo cair a Ordem em situações de   decadência social, espiritual e moral. Não é de excluir que esta situação possa estar na origem das razões que motivaram Santo António a deixar a Ordem dos Cónegos e abraçar a Ordem religiosa nascente dos Frades Menores.

Mosteiro de São Vicente de Fora, em Lisboa

Mosteiro de Sâo Vicente de Fora, Lisboa. Foto: Reino Baptista, Wikimedia Commons.
Mosteiro de Sâo Vicente de Fora, Lisboa. Foto: Reino Baptista, Wikimedia Commons.

O mosteiro de São Vicente de Fora surge no lugar onde havia uma capela, dedicada a Nossa Senhora e ao mártir São Vicente, mandada erigir por voto do primeiro Rei de Portugal, D. Afonso Henriques, em 1147. Cerca de vinte anos depois, o Rei manda construir um Mosteiro, que confia à Ordem Regular de Santo Agostinho, certamente motivado pelo conhecimento e estima que tinha pelo Mosteiro da Santa Cruz, em Coimbra. O mosteiro de São Vicente de Fora teve sempre o apoio do Rei, que favoreceu a sua independência do poder episcopal, sendo, desde 1206, diretamente dependente da Santa Sé.

Quando, em 1173, o mosteiro acolheu as relíquias do mártir São Vicente, a igreja tornou-se um local de peregrinação muito procurado pelos fiéis, para os quais foram construídos um hospital e um abrigo. 

Em 1538, o mosteiro foi reformado e unido à Congregação do Mosteiro da Santa Cruz de Coimbra. Posteriormente, foram realizadas obras de remodelação dos edifícios, concluídas em 1627. No final do século XVI, o mosteiro tornou-se residência episcopal. Atualmente, o edifício é propriedade pública, estando a igreja aberta ao culto e o edifício conventual entregue aos serviços do Patriarcado de Lisboa.

O Bairro de Alfama, no qual o mosteiro está envolvido, constitui o coração da cidade de Lisboa. O santo padroeiro, São Vicente, está representado no brasão da cidade por dois corvos à proa e à popa da nau, lembrando a viagem das relíquias do santo, acompanhada por dois corvos que a protegeram e indicaram o caminho seguro até ao destino.

Desde o tempo de António até aos dias de hoje, muitas coisas mudaram na cidade onde  ele nasceu e viveu a infância e a adolescência, mas há coisas que permanecem: o sol, o azul do céu e o horizonte infinito que se alonga pelo mar, convidando a olhar mais além, a sonhar novos mundos e novos céus. Foi, talvez, aqui que o jovem António gravou no seu coração o desejo do infinito.

O mosteiro de Santa Cruz de Coimbra

Quem entra, hoje, na Igreja de Santa Cruz, em Coimbra, nota imediatamente que o edifício passou por muitas fases arquitetónicas e eclesiásticas.

Fundado em 1131 com o objetivo de renovar a vida da Igreja, o mosteiro recebe o apoio do Rei D. Afonso Henriques e é sabiamente orientado pelo seu primeiro Prior, São Teotónio, que fez dele um lugar de espiritualidade, cultura e ação social.  Isento da autoridade do bispo local e dotado de muitos meios, o mosteiro cumpriu a sua missão com dinamismo, especialmente através da escola conventual e das obras de assistência.

É neste período de maior vitalidade que o jovem Fernando chega ao mosteiro, vindo de Lisboa. As poucas notícias que é possível recolher sobre a sua vida neste mosteiro, traçam uma figura marcada por profunda piedade, espírito de oração, intenso estudo da Sagrada Escritura e espírito de serviço.

Concluídos os estudos teológicos, foi ordenado sacerdote na Sé de Coimbra, provavelmente em 1219. Durante este período, Fernando conheceu os primeiros frades franciscanos, que tinham vindo de Assis, e pode apreciar o seu carisma e a sua alegria evangélica. Quando os cinco frades destinados à missão em Marrocos passaram por aqui, Fernando deve ter ficado profundamente admirado; e quando, pouco tempo depois, os restos mortais deles chegaram ao mosteiro, recebidos com grande devoção, ele toma uma decisão: ocupar o lugar dos cinco frades e continuar a sua missão. Dito e feito.

Perante o espanto da comunidade canónica e o júbilo da pequena fraternidade franciscana, Fernando despe o manto canónico, veste o humilde traje franciscano e muda de nome em honra ao Abade padroeiro da pequena ermida, chamada “dos Olivais”, porque mergulhada no meio de oliveiras.

Na primeira biografia que foi escrita sobre Santo António, chamada Vida Primeira (ou Assidua), conta-se este pormenor na despedida de Fernando:

Um dos amigos cónegos, com coração amargurado, disse: “Vai, vai, que te tornarás santo!” Voltando-se para ele, o homem de Deus, António, respondeu com voz humilde: “Quando ouvires que me tornei Santo, louva comigo o Senhor!”.


Foto da capa: Claustros do Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra. Foto: MSA 2020.

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