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Com asas e com pantufas

O que lembramos e porque nos lembramos do que nos lembramos? O que acontece para que tempo depois dos acontecimentos, algumas memórias com vinte, trinta, quarenta ou mais anos sejam tão vívidas como as do dia anterior, e outras situações, ainda que consideradas importantes na linha do tempo vital, não tenham deixado qualquer vestígio na nossa recordação? 

Todo o processo de memória é um jogo, nem sempre evidente, entre recordar, esquecer e silenciar. A genealogia dos Estudos de Memória não é muito antiga, fixando-se o seu início de forma consensual nos trabalhos do sociólogo francês Maurice Halbwachs (1877-1945), seguido por Paul Ricoeur (1913-2005), Pierre Nora (n. 1933-), Aleida Assman (n. 1947-), entre outros.

Os Estudos de Memória têm sido considerados recentemente como uma das disciplinas boom das ciências humanas, sobretudo no que concerne à reflexão sobre a memória coletiva, com muitos novos contributos a aparecerem nestas duas primeiras décadas de 2000. Estudar a memória coletiva é debruçar-se também sobre dimensões da experiência individual; em ambos os casos o processo “chave” da memória é a seleção. 

O que lembramos e porque nos lembramos do que nos lembramos?

Embora não pense nestas questões de forma consciente, certamente ao leitor já aconteceu ver-se confrontado com a total ausência de recordação de um encontro familiar, por exemplo, que os seus parentes descrevem com pormenores; ou, pelo contrário, de estar a invocar perante um interlocutor incrédulo um acontecimento partilhado pelos dois, mas de que só o leitor se recorda.

Como se processa esta seleção do que deve ser esquecido ou lembrado? Algumas respostas são óbvias e relacionam-se, por exemplo, com a dimensão traumática de certos acontecimentos, ou então “apenas” com o facto de eles serem extraordinários; em todo o caso, nem sempre o critério é manifesto e a pergunta mantém-se: porque recordamos o que recordamos?

Cavalos coloridos com asas e helicópteros com pantufas

Entre muitas coisas, eu recordo-me de cavalos coloridos com asas e de helicópteros com pantufas, e não lhes ponho uma data nem os associo a um acontecimento específico, mas antes a duas palavras em que penso muitas vezes: liberdade e imaginação.

Nasci em 1975 e por vezes organizo memórias soltas da infância a partir de notícias que leio nos jornais dos anos 1970 e 1980 que por razões de investigação académica consulto frequentemente. Reencontro-me nessas páginas: nos penteados e roupas das fotografias, nos títulos das notícias, nos temas tratados que eram para os adultos, mas que, agora, recordo vagamente ter ouvido em família.

Um dos temas que encontramos nos jornais do pós-25 de abril é o tema da infância, considerado prioridade pelos governos, pelos partidos e pela sociedade civil (pelos próprios jornais). Na procura de melhor educação e de melhores cuidados de saúde, por exemplo, sobressai uma consciência do papel central da criança no futuro do país. O acesso à cultura está também nas páginas dos periódicos desses anos: a criança deveria ler para poder sonhar e crescer. Tantas peças (“breves”, notícias, entrevistas, crítica de livros) sobre a literatura infantil, os nossos escritores, as escolas, a ida ao teatro, a visita da turma à redação do jornal, os suplementos infantis dos jornais…

Cavalo colorido com asas, Ana Beatriz. Foto MSA 2020.
Cavalo colorido com asas, Ana Beatriz. Foto MSA 2020.

Imaginação e Liberdade

Lembro-me de insistir mais de uma vez: “Mamã, o que é a liberdade?”. A sério, não era uma pergunta filosófica, nem militante, nem com outras motivações senão a do espanto e da dúvida de ser criança nos anos 1980.

E a minha mãe respondia todas as vezes. Também me lembro de não estar convencida do desenho de um cavalo voador para apresentar à D.ª Virgínia e de, na dúvida: “Mamã, faz mal desenhar coisas que não são realidade?”. E a minha mãe falava de novo de liberdade, também de imaginação e até antevia que não me deveria importar se alguém fizesse pouco do desenho porque é muito importante não ter medo de sonhar o que nos apetece.

E é assim que, no meio das memórias concretas de infância que todos temos, guardo a de uma folha A3 com um cavalo azul e alado em cima da carteira castanha da sala da primária, e tenho sempre à mão as palavras imaginação e liberdade.

No processo de seleção memorialística, ficaram estas palavras e por elas (e por muitas coisas mais) estou agradecida à minha mãe: porque me fez rabiscar orgulhosamente cavalos coloridos com asas e deixou o meu irmão calçar pantufas a todos os helicópteros dos seus desenhos.

Ana Beatriz, a ilustradora. Foto MSA 2020
Ana Beatriz, a ilustradora. Foto MSA 2020

Foto da capa: Fotomontagem MSA 2020, com base na Ilustração da Ana Beatriz

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