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O Mediterrâneo fronteira de paz

O texto preparado para a Semana da Unidade dos Cristãos neste ano de 2020 é dos Atos dos Apóstolos 27, 18-28,10. Nele se relata o naufrágio do barco em que Paulo seguia. Após dias de angústia e tensão todos os passageiros puderam entrar salvos na Ilha de Malta. Aí foram acolhidos com “grande humanidade”.

Não podia ser mais ecuménica a escolha deste pedacinho da vida de Paulo que nos deixa a olhar para o Mare Nostrum como espaço de acolhimento e hospitalidade. 

Hoje, fortes tempestades cruzam este mar e para muitos não há final feliz. Estima-se que nos últimos sete anos tenham morrido no mediterrâneo mais de 10 000 emigrantes na sua tentativa de passagem para a outra margem.

Fronteira Mediterrânea da Paz, em Bari, Itália

De 19 a 23 de Fevereiro, realizar-se-á, em Bari, na Itália, um encontro dos bispos dos três continentes, Ásia, África e Europa, que fazem fronteira com o Mediterrâneo. Fronteira Mediterrânea da Paz é o título do Encontro de três dias que terminará com a Celebração da Eucaristia presidida pelo Papa Francisco.

O Cardeal Bassetti, Bispo de Perugi e Presidente da Conferência Episcopal Italiana recorda que o Mar evoca o testemunho dos mártires de ontem e de hoje. Mártires que “são o triunfo do amor sobre o ódio, da justiça sobre a iniquidade”. Recorda ainda que o Mediterrâneo “incorpora a visão profética de Giorgio La Pira que desde o final da década de 50 inspirou os Diálogos do Mediterrâneo” e antecipou o espírito ecuménico que soprou com força no Vaticano II.

La Pira com Paulo VI, 1973. Foto Fundação “Giorgio La Pira”.
La Pira com Paulo VI, 1973. Foto Fundação “Giorgio La Pira”.

Hoje temos a oportunidade de começar a pôr em prática essa visão a partir do próprio mar que la Pira chamou de “O grande Lago Tiberíades” compartilhado pelos povos da tríplice família abraâmica.

Longe estamos do Mare Nostrum do domínio imperial romano ou do desejo  de Mussolini de o transformar no mar do nacional socialismo quando a vitória se consumasse em toda a sua extensão. Mas para que seja “o nosso mar” tem que ser de todos. E só será de todos se for fronteira de paz. Não o será enquanto continuar a aprisionar nas suas águas milhares de vítimas  que clamam por justiça.

Profecia, crise e paz

Ao longo de 2 anos, a Conferência Episcopal italiana tem estado a preparar em linha sinodal esta importante reunião que terá três palavras orientadoras: profecia, crise e paz.

De profecia fala a memória de um lago plataforma de encontro e ligação entre povos, espaço de abertura e diálogo na família abraâmica. O mediterrâneo, enorme encruzilhada de povos, não pode deixar que as suas correntes superficiais e os seus ventos tempestuosos abalem as correntes profundas onde se construíram civilizações e se forjaram povos.

É um mar de sonho  para os pobres, vítimas do ódio e da vingança de países em guerras fratricidas, que o procuram como fronteira para uma vida digna, sonhando com uma vida mais humana no ser e no ter indispensável. O emigrante de hoje, diante do mar, pode clamar como o migrante sertanejo (retirante) da Morte e Vida Severina, de João Cabral de Melo Neto:

Nunca esperei muita coisa,
é preciso que eu repita…
esperei, devo dizer, 
que ao menos aumentaria 
na quartinha, a água pouca,
dentro da cuia, a farinha,
o algodãozinho da camisa…
E chegando, aprendo que, 
nessa viagem que eu fazia,
sem saber desde o Sertão,
meu próprio enterro eu seguia. 

A Crise do Mediterrâneo é sinal de uma crise global de desequilíbrio económico proveniente de uma “economia que mata” , que “aumenta desigualdades e alimenta divisões e ódios sociais”.

Talvez se um bispo morresse no mar…

Mas, como anota o Presidente da Conferência Episcopal Italiana, a Crise do Mediterrâneo “é uma crise internacional, extremamente séria e perigosa para a Europa e para o mundo inteiro: a falta de estabilidade na costa sul do Mediterrâneo também significa a instabilidade na costa norte”. É também uma crise de direitos humanos, especialmente “em campos e prisões, na Líbia, em campos de refugiados na Turquia e em ilhas gregas, como Lesbos”.

Para a conferência Episcopal “a igreja decidiu não se juntar ao coro dos profetas da destruição, para reconhecer que algo de novo pode e deve nascer na região do Mediterrâneo”. O Mediterrâneo tem que ser um local de encontro, de comunicação e não apenas uma fronteira. Tem que continuar a ser uma “extraordinária encruzilhada de povos e culturas”.

Esperamos que este encontro seja um sinal positivo de uma Igreja em saída para os mais perdidos da terra, de uma Igreja hospital de campanha onde se encontra abrigo. Mons. Agrelo, que foi Bispo de Tanger, perguntava se não deveria ele acompanhar os refugiados numa bateira de saída. Talvez, se um bispo morresse no mar, acordasse o mundo distraído!

Fecho com a prece do papa pela paz num encontro ecuménico, em Bari, em 2018:

Do curso do Nilo ao Vale do Jordão e mais além, passando pelo rio Orontes até ao Tigre e ao Eufrates, ressoe o grito do Salmo: Para ti, haja paz! Para os irmãos que sofrem e para os amigos de cada povo e credo, repetimos: Para ti, haja paz! Com o Salmista, imploramo-lo de modo particular para Jerusalém, cidade santa amada por Deus e ferida pelos homens, sobre a qual ainda chora o Senhor: Para ti, haja paz!


Foto da capa: Bari, beira mar. Foto Ra Boe | Commons.wikimedia.

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