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Maria pequena abelha

A Palavra de Deus

Pequena é a abelha, comparada com as aves,
mas o seu produto é o primeiro na doçura.

Sir 11,3

Diz-se, nas Ciências Naturais, 
que a abelha gera sem coito, porque nela há o poder gerador.
E a abelha boa é pequena, redonda, densa, apertada.
A abelha é mais limpa do que as outras aves ou animais, 
e, por isso, o mau cheiro mortifica-a  e o cheiro doce deleita-a.
Não afugenta nenhum animal 
e, quando voa, não se dirige a diversas flores,
e não abandona uma flor para ir para outra,
mas acrescenta duma e doutra o que for preciso, e volta à colmeia.
O seu alimento é o mel, porque vive daquilo que trabalha.
Constrói os favos onde habita a rainha;
começa a edificar sobre as paredes, pelo lado superior 
e vai descendo pouco a pouco até chegar ao fundo da colmeia.

Aristóteles

A palavra de Santo António

Assim, Nossa Senhora, Maria Santíssima, gerou, sem corrupção, o Filho de Deus, porque o “Espírito Santo veio sobre ela e a virtude do Altíssimo a cobriu”.

Esta boa abelha foi pequena pela humildade; redonda pela contemplação da gloria celeste, que carece de princípio e fim; densa de caridade (ela que trouxe no ventre durante nove meses a Caridade, não pôde carecer de caridade); apertada pela pobreza; mais pura do que as outras pela virgindade; e, por isso, o mau cheiro da luxuria, se é permitida a expressão, mortifica-a; porém, o doce cheiro da virgindade ou da castidade deleita-a.

Portanto, o que deseja agradar a Maria Santíssima, fuja da luxúria e procure ser casto.

Não afugenta nenhum animal, isto é, nenhum pecador, antes acolhe a todos os que nela se refugiam e, por isso, é chamada Mãe de misericórdia: é misericordiosa para com os miseráveis, é esperança para os desanimados. Tendo as numerosas virtudes brilhado de modo excelente em Maria Santíssima, a humildade superou-as todas.

Foi, contudo, pequena, humilde, a nossa abelha, que hoje ofereceu no templo a Deus Pai o favo, o Verbo Encarnado, Deus e homem. No favo há mel e cera; no Menino Jesus, a divindade e a humanidade. 

Festa da Purificação de Maria Virgem Santíssima

Aprofundemos

A “Palavra de Deus”, neste comentário, compreende duas partes: um versículo do Ben Sira, 11,3 e uma citação tirada da História dos Animais e da Geração dos Animais, de Aristóteles. Para transmitir um ensinamento de fé e moral, António utiliza e atribui, portanto, a mesma autoridade a dois textos muito diferentes, por origem, a Bíblia e as Ciências Naturais; com carácter, religioso, o primeiro, profano, o segundo. Como explicar essa maneira de proceder? Não há perigo de confusão entre o sagrado e o profano, entre o divino e o humano?

O modo de proceder de António explica-se por duas razões. A primeira é que as Ciências Naturais de Aristóteles, traduzidas recentemente do grego, eram proibidas nas universidades de Paris e Oxford (Inglaterra), mas utilizadas livremente em Toulouse e Montpellier, onde António tinha passado algum tempo antes de compor os seus sermões. A segunda é que para António “uma obra do Senhor, uma criação, bem considerada, leva ao exame da consideração do seu Criador”, ensina-nos a reconhecer nas criaturas e, antes de mais na Virgem Maria, um sinal da beleza e da bondade de Deus.

O resto vem por si só: as qualidades da abelha, pequena ave, referem-se às qualidades da mais humilde das criaturas: a Virgem Maria. Como não tirar desta magnífica comparação do trabalho de uma abelha, uma profunda admiração por Maria, totalmente dedicada à contemplação de Deus, cheia de amor, feliz com apenas o indispensável, transparente pela sua virgindade, perfumada pela sua castidade?

E que melhor oferta ao Senhor do que um coração como o dela, inflamado pelo amor a Deus e cheio de misericórdia pelo próximo?


Foto da capa: Abelha visitando flor de cera. Foto MSA, 2018.

2 comentários em “Maria pequena abelha”

    • Santo António tem, de facto, alegorias com a natureza para explicar os mistérios de Deus que são de uma sabedoria extraordinária.
      Gratos pelo comentário.

Os comentários estão encerrado.

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