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Chama-se… terra!

Artigo de Gilberto Borghi e Chiara Gatti, Messaggero di Sant’Antonio

A história de Clara, 17 anos, uma vida passada entre instituições de apoio à família e pais adotivos. A sua dor, a sua raiva e aquele “sagrado” tão presente no profundo da sua vida.

A história de Clara, 17 anos, e o volumoso dossiê em cima da mesa das assistentes sociais que a seguem há anos, chega aos bancos de uma escola secundária de um instituto profissional de província, como um drama que se vai desenrolando aos poucos. Abandonada pela mãe aos 2 anos de idade, o pai, muitas vezes bêbado, Clara arrastava-se entre uma instituição e uma família adoptiva, em situações, muitas vezes, deficitárias para receber o afeto de que precisava.

Encontramo-la, no corredor da escola, os jeans rasgados e cheia de piercings, junto à porta da casa de banho, sozinha, mais pensativa do que triste. Quando o professor de Religião e Moral, o único com quem ela conseguia falar, lhe perguntou o que estava a fazer, responde candidamente: “Estou a rezar, professor!”.

O professor refugia-se numa piada para disfarçar a surpresa ou por medo de cair no ridículo. Mas Clara insiste:

O professor brinca, mas a sério, estou mesmo a rezar… E faço isso com frequência. Não digo palavras, nem as orações do costume. Recolho-me, sozinha, e escuto dentro de mim uma sensação estranha, como se sentisse uma presença boa que me mantém de pé.

De repente, compreende-se que a conversa merece ser transferida, por meio de um delicado convite, para fora dos olhares indiscretos de companheiros arrogantes.

Então Clara consegue abrir-se ainda mais:

Desde criança que, de vez em quando, sinto esta presença dentro de mim e, acredite, foi a esta sensação que me agarrei em todos os meus disparates e em todas as minhas dores. Minha avó contava-me como rezava a Nossa Senhora e como, muitas vezes, as coisas que pedia aconteciam. Então, eu tentei também… Mas as coisas que peço nem sempre se tornam realidade. Nem sei se estou a contar isso para mim mesma, mas sinto que existe algo e que, quando o escuto, sinto-me melhor por dentro.

Nas aulas, ouviu falar sobre o Amor, mas ela diz que não acredita nesse amor, porque muitos e muitas vezes, a traíram. Pelo contrário, acredita no que ela sente por dentro, porque é uma coisa que ninguém lhe pode tirar.

“E como se chama esta coisa?”, pergunta o professor. Resposta da Clara: “Chama-se terra!”.

Foto: Alicia Petresc | Unsplash.
Foto: Alicia Petresc | Unsplash.

A campainha toca, abruptamente, o professor tem que ir para outra aula e ela levanta-se para se juntar aos colegas da sala, após uma rápida despedida, talvez envergonhada, porque, a dizer a verdade, não houve tempo para aprofundar tais palavras, carregadas de significado.

No entanto, as palavras de Clara pairam e permanecem como pequenas nuvens suspensas entre os armários da sala de professores, que contêm trabalhos de casa corrigidos, registos e avaliações sobre a conduta e as habilitações conseguidas por cada aluno e avaliações sobre a maturidade demonstrada por cada aluno e a sua capacidade de relacionamento e de socialização no contexto da turma.

Como soam ocas essas palavras da escola martelando na cabeça do professor, enquanto sobe as escadas para o segundo andar! Pelo contrário, as palavras de Clara são tão leves quanto o som de um piano do qual as notas deslizam suavemente: “Aquela coisa estranha que eu sinto e que, desde pequena, me segura de pé e me faz sentir melhor… chama-se terra!”.

Terra, assim dito como uma sentença, um resumo, ou, talvez, uma absolvição dada aos adultos que são incapazes de entender, ou aos teólogos que falam de “sentido religioso”. Clara começa pela terra; Clara que antes rezava durante o intervalo no corredor de um instituto profissional; Clara que conseguiu criar a sua própria cela interior para rezar à sua maneira, ouvindo o seu corpo, sentindo os pés ancorados no profundo da terra. E, agora, o professor, chegado aos últimos degraus quase sem fôlego, pergunta-se que sabe ele do Céu, daquele Céu onde acreditamos que Deus mora.

Clara não sabe se isso seja Deus, nem se põe o problema, mas sabe onde apoiar-se para ter uma base de partida; ela já operou uma distinção na sua vida: entendeu o que realmente pode encher o seu coração e não tem pressa de o classificar: está no seu sentir sólido o “chão” da sua cela interior, que lhe permite dialogar com a sua muita dor acumulada.

Aprendeu a não esquecer o peso do corpo que pisa a terra, que, desde pequena, aceitou como “companheira” para superar os precipícios da vida.

Fará suas escolhas mais tarde: decidirá se e em quem deve depositar a sua confiança; se e a quem confiar o seu coração para aprender, ela também, a cuidar de alguém. Por agora lançou alicerces num desejo ainda intacto, a que ela chama de “aquela coisa” e que é simplesmente o instinto da vida rumo à beleza e à integridade, rumo ao reconhecimento do Outro/outro como alguém digno de toda a consideração.

Porque não começar pelos pés e pelo chão que todos pisamos?


Foto da capa: Foto: Bogdan Glisik | Unsplash.

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