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Apostar no próprio desejo

Paolo Marino Cattorini, Messaggero di Sant’Antonio

É o que faz o pequeno Alexandre, o protagonista de Fanny e Alexandre, filme de Ingmar Bergman, de 1982.

O Natal explode com alegria na casa sumptuosa da família Ekdahl, na Suécia, em 1907. O clima frio e de neve é perfumado pelas cores vivas das flores exibidas no mercado, pela alegria das crianças que brincam, pelas luminárias das ruas e pelos trenós e sinos. A família Ekdahl prepara-se para a festa com a meticulosidade nórdica tradicional, com a atmosfera afetuosa e envolvente dos presentes por abrir e dos tapetes vermelhos confortáveis, com abraços entre as novas e velhas gerações, com uma paixão irreprimível pelas brincadeiras, jogos, teatro, as muitas velas acesas, as comidas cozinhadas e servidas pelos inúmeros criados, que protegem as virtudes e os vícios, os sonhos e os medos de uma família burguesa viva e animada.

O filme começa com a sequência dedicada a Alexandre (Bertil Guve), um garoto elegantemente vestido de marinheiro. O seu rosto alegre, astuto e curioso é como se saísse de um teatro de cordel. Como fundo, as notas musicais de Britten e Schumann. A família tem uma paixão antiga pelo teatro e o jogo favorito de Alexandre é animar as imagens das primeiras tabuletas iluminadas, as lanternas mágicas que antecederam a chegada do cinema. Alexandre vive sonhos fantásticos, que a arte lhe revela. Explora o mundo dos adultos com entusiasmo, entra nas alcovas, abre portas secretas, atua como anjo na apresentação pública (advertindo José para fugir de Herodes: crianças como ele estão ameaçadas!), dá voz às narrativas de contos de fadas, que fascinam os irmãos e os primos mais novos. A avó Helena (Gun Wallgren), ex-actriz, mulher amável e autoritária, descobre-o debaixo de uma mesa e convida-o para jogar às cartas com ela. É tempo de presentes, canções, almoços deliciosos, vigílias sagradas, bebidas generosas, contactos licenciosos, danças desenfreadas, conversas maliciosas.

Pulsa em Alexandre (o alter ego do realizador Bergman e a própria personificação do cinema, que nasceu no final do século XIX), uma fantasia extravagante, indomável, tenaz. Uma fantasia que move os seus desejos, o eleva acima das sombras e dos medos, e o transporta além do luto e das fragilidades. Mesmo além do luto do seu querido pai Óscar (Allan Edwall), diretor de teatro, que está doente há muito tempo. Alexandre acredita no impossível e essa fé coloca-lo-á em conflito com a rigidez puritana de seu padrasto, o bispo protestante Vergerus (Jan Malmsjo), que se casa com Emília (Ewa Fröling), a bela mãe de Alexandre. Todavia, a utopia do cinema quebrará as cadeias, queimará os maus na fogueira, armará intrigas e planos de libertação. Poder do imaginário! Tudo é revelado aos olhos visionários de Alexandre, que fala com fantasmas, sonha com estátuas em movimento, constrói o seu mundo interior feito de brincadeira, disciplina, amor, como na liturgia teatral.

Antes que as duras provações da vida ameacem a vida e a liberdade da criança, Alexandre aposta no seu próprio desejo: a morte não leva a melhor, se alguém cuidar de ti. Como diz o Cântico dos Cânticos: “Forte como a morte é o amor, implacável como o abismo é a paixão” (Ct 8,6).

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