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Apontar os horizontes do Reino

A mensagem a que me quero referir pode até parecer que já vem tarde e que já não é tão oportuna quanto devia. No entanto, a sua releitura leva-me a pensar que nunca a devemos perder do horizonte da nossa reflexão e ação.

Refiro-me à mensagem do Papa Francisco A paz como caminho de esperança, diálogo, reconciliação e conversão ecológica. Ela tem assinatura de 8 de dezembro e celebra pela 53ª vez o dia 1 de janeiro como o Dia Mundial da Paz. São datas de facto já passadas, mas o que foi assinado em dezembro e celebrado em janeiro, não são apenas datas no calendário, que, uma vez virada a folha, já fazem parte do passado. O que se celebra não quer apenas enriquecer o património da memória com mais uma mensagem para depois ser, porventura, estudada. O que se celebra é uma dinâmica, um rio vivo que quer banhar e fecundar as margens do presente e do futuro. Isso fica bem claro logo no início desta mensagem:

A paz é um bem precioso, objeto da nossa esperança; por ela aspira toda a humanidade. Depor esperança na paz é um comportamento humano que alberga uma tal tensão existencial, que o momento presente, às vezes até custoso, “pode ser vivido e aceite, se levar a uma meta e se pudermos estar seguros dessa meta, se esta meta for tão grande que justifique a canseira do caminho”. Assim, a esperança é a virtude que nos coloca a caminho, dá asas para continuar, mesmo quando os obstáculos parecem intransponíveis.

A esperança da paz é verdadeiramente virtude e força que nos coloca a caminhar, mesmo quando as coisas à nossa volta parecem teimosamente querer apontar noutra direção, promovendo o medo e semeando a desconfiança entre os povos e as pessoas.

Na verdade, “a paz e a estabilidade internacional são incompatíveis com qualquer tentativa de as construir sobre o medo de mútua destruição ou sobre uma ameaça de aniquilação total.” E isto porque, a paz e a estabilidade internacional “são possíveis só a partir duma ética global de solidariedade e cooperação ao serviço dum futuro moldado pela interdependência e a corresponsabilidade na família humana inteira de hoje e de amanhã”.

Para isso é necessário percorrer o caminho da escuta baseado na memória, na solidariedade e na fraternidade. Memória da dor, do sofrimento e da destruição que todas as guerras e conflitos sempre provocam. Esquecer isto é correr o enorme perigo de pensar que a guerra possa alguma vez ser a melhor solução. A morte, a violência, a destruição do planeta e de seres humanos, jamais poderá ser a melhor solução para o que quer que seja. A direção tem de ser outra e tem de passar pela “reconciliação na comunhão fraterna”, abandonando o desejo de dominar os outros e aprendendo a olhar-se mutuamente como pessoas, como filhos de Deus, como irmãos. Como diz o Papa:

O outro nunca há de ser circunscrito àquilo que pôde ter dito ou feito, mas deve ser considerado pela promessa que traz em si mesmo. Somente escolhendo a senda do respeito é que será possível romper a espiral da vingança e empreender o caminho da esperança.

A paz é também caminho de conversão ecológica, que nos leva a uma nova perspetiva sobre a vida e que deve ser entendida

como uma transformação das relações que mantemos com as nossas irmãs e irmãos, com os outros seres vivos, com a criação na sua riquíssima variedade, com o Criador que é origem de toda a vida. Para o cristão, uma tal conversão exige “deixar emergir, nas relações com o mundo que o rodeia, todas as consequências do encontro com Jesus”.

Claro que este caminho requer paciência e confiança, não podendo, pois, ficar reduzido à celebração de um dia, ainda que seja muito importante assinalar isso num dia. A paz também se obtém na medida em que se espera e quer todos os dias.

No tempo em que estamos a viver, não são necessários, como explicitamente refere a mensagem, palavras vazias. O que é necessário, pelo contrário, “são testemunhas convictas abertas ao diálogo, sem exclusões, nem manipulações”.

E aqui temos de reconhecer, também, que nem sempre, mesmo recentemente, o testemunho da comunidade cristã tem sido tão positivo quanto deveria.

De facto, como diz o Papa: “só se pode chegar verdadeiramente à paz quando houver um convicto diálogo de homens e mulheres que buscam a verdade para além das ideologias e das diferentes opiniões”.

Os desafios que a comunidade humana tem pela frente são certamente difíceis e exigentes, mas não há como não os enfrentar, sob pena de pormos em risco o nosso futuro coletivo.

Os cristãos e as suas comunidades têm a este nível uma missão a desempenhar, apontando os horizontes do Reino que Deus quer para toda a humanidade.

Francisco encontra-se com representantes da rede Scholas Ocurrentes, em Maputo, Moçambique, 5 de setembro de 2019. Scholas Ocurrentes é uma organização, nascida em Buenos Aires por iniciativa do então Arcebispo Jorge Bergoglio, hoje Papa Francisco, que une estudantes de todo o mundo ao redor de um programa educativo baseado na arte, no desporto e na tecnologia. O objetivo é promover a integração social e a cultura do encontro e da inclusão nas escolas. EPA | Vatican Media.
Francisco encontra-se com representantes da rede Scholas Ocurrentes, em Maputo, Moçambique, 5 de setembro de 2019. Scholas Ocurrentes é uma organização, nascida em Buenos Aires por iniciativa do então Arcebispo Jorge Bergoglio, hoje Papa Francisco, que une estudantes de todo o mundo ao redor de um programa educativo baseado na arte, no desporto e na tecnologia. O objetivo é promover a integração social e a cultura do encontro e da inclusão nas escolas. EPA | Vatican Media.

Foto da capa: O presidente de Moçambique, Filipe Nyusi (Esq) e o líder da Renamo, Ossufo Momade (Dta) assinam um acordo para cessar as hostilidades, Maputo, Moçambique, 06 de agosto 2019. Foto EPA / José António.

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