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A Nuvem

Poeta meu, obedece!
Estou pronto, Senhor.
Toma bem nota, pois decidi escrever um poema.
Encho-me de alegria, Senhor, pois é bem próprio de ti exprimires-te em poesia.
Não, não vou escrever poema algum.
Tu és sábio, Senhor. Na verdade, que poema te exprimiria bem?

Com a reedição de A Nuvem (a que se juntou, à obra original, os livros Sinais e Pequeno Livro Azul) o poeta vimaranense Carlos Poças Falcão, partindo da sua experiência pessoal, convida-nos a olhar o Mistério. A poesia – trabalho a que o poeta aspira a ser único e unificante da sua vida, como um servo que obedece na escuta – contempla os sinais quotidianos com os quais o Senhor da história se faz presente na vida de um mundo que não discerne nem escuta. “Mesmo nas cidades mais ignorantes / é possível e é belo ritmar o coração / dar-lhe essa certeza de se achar em casa”. A poesia torna-se oração dialogada, ao estilo dos profetas bíblicos que, a partir de uma história marcada pelas trevas, interrogam e escutam a resposta do Senhor. Mesmo a experiência vital de um confinamento hospitalar a uma cama – que guia o Pequeno Livro Azul – transforma-se num escrutinar dos gestos e presenças que revelam o Mistério, sem o reduzir ou anular em falsas e absolutas verdades. É aqui que a poesia, na escrita do poeta que se expõe e se abre ao leitor, ensina como falar de um outro modo de Deus, um modo prenhe de desejo e respeito pelo espaço aberto que a linguagem permite. Urge-nos aprender essa arte.

Só podemos ver os sinais que desde sempre nos foram destinados. E assim aprendo que o trabalho é pessoal, que as respostas crescem dentro de cada um (…) procurando no que cada um procura, encontrando no que cada um encontra. Mas é preciso cuidar do alimento, confirmar a atenção.


A NUVEM
Autor: Carlos Poças Falcão
Edição: Opera Omnia
Páginas: 128

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