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Tommaso: A difícil arte de amar (também com o corpo)

Por mais estranho que nos pareça, nestes tempos de tanta informação e liberdade, afinal, não é nada óbvio que saibamos comunicar, que o casal saiba e seja capaz de comunicar de forma construtiva e criadora. Pelas mais variadas razões, são sempre demais os mal-entendidos, os não ditos e os entreditos. Por isso, escreveu alguém que ‘o casal é o lugar onde começamos a fazer mal uns aos outros’ (Vasco Câmara, ípsilon, Público, 6 de Dezembro), quando está precisamente chamado a ser ‘o lugar mais feliz’ e mais partilhado.

Vem isto a propósito do último filme de Abel Ferrara, um cineasta de filmes fortes e profundos que sempre retratam ‘homens que uivam de dor, porque se sabem criaturas em extinção’ (idem); “feitos de imenso pecado, muito sentido de culpa e agónica vontade de redenção e eram habitados por criaturas que apreciam filhos do demónio ansiando por entrever o rosto de Deus” (Jorge Leitão Ramos, Expresso, Revista, 7 de Dezembro). 

Este chama-se Tommaso e faz o retrato de um cineasta de Nova Iorque, auto-exilado em Roma, onde vive com uma mulher moldava, muito mais nova que ele, e uma filha de ambos, de dois anos. Tommaso, intensamente interpretado por Willem Dafoe, carrega uma história de dependências e vive constantemente assaltado e atormentado pelos seus medos e fantasmas. E o filme vai acompanhando a sua ‘vida normal’ de cineasta a trabalhar num novo filme, de estrangeiro a aprender italiano, de adicto que frequenta as sessões dos Alcoólicos Anónimos, de marido insatisfeito e pai cuidadoso.

Tommaso, de Abel Ferrara, Drama, M/12, ITA/EUA/GB/GRE, 2019
Tommaso, de Abel Ferrara, Drama, M/12, ITA/EUA/GB/GRE, 2019

Como sempre, há muitas maneiras de olhar um filme. Eu creio que uma possibilidade interessante é precisamente essa da intimidade e das suas dificuldades. Como diz a Tommaso um dos seus companheiros das sessões, numa perspectiva bem masculina, pode ser que a sua mulher esteja a usar a filha, que dorme no meio deles na cama, precisamente como uma barreira para essa intimidade conjugal para ele tão importante. Um outro momento significativo é quando ele está em casa, a trabalhar e à espera que mãe e filha cheguem para comer, e ‘elas’ pura e simplesmente arranjam qualquer coisa e começam a comer sozinhas. E ele fica danado e exaltado com esse ‘desrespeito’. Claro que, do lado dele – e ele não reparará nisso – também há sinais de desejo de controlo e desatenções, mas ele vive bastante centrado em si mesmo.

São coisas que parecem muito pequenas, mas que, acumuladas, vão armadilhando e dinamitando a vida do casal, da família, até à ‘explosão final, quando ele, aparentemente ‘esquecido’ delas, vai tomar um café e as deixa ‘penduradas’ na rua. Não, as relações nunca são fáceis e demasiado facilmente ‘fazemos reféns ou somos reféns’, como partilha uma das alcoólicas anónimas. Continua sempre difícil o ‘diálogo conjugal’.

Tommaso, que não é um filme ‘fácil’ com uma história linear e tem mesmo algumas cenas talvez excessivas entre a realidade e a imaginação – nem sempre se sabe em que plano estamos – leva-nos ao interior de uma família e põe diante de nós esse difícil equilíbrio de uma vida em família. Tempo Comum é, aliás, outro filme, português, (que ainda não vi) que aborda também algumas destas questões.

As famílias, nomeadamente os ‘Casais Novos’, precisam mesmo que também a Igreja se faça próxima e consiga que eles compreendam que podem ser acompanhados no seu caminho. São muitas as dificuldades e os desafios. 

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