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O início da viagem

Iniciamos este mês uma viagem que nos levará a seguir os passos de Antonio desde Coimbra, onde decidiu mudar de vida vestindo o burel franciscano (1220), até ao encontro com São Francisco, em Assis (1221).

Queremos interpelar António e tê-lo por companheiro no caminho da nossa vida.

Estamos no ano do Senhor de 1220, na cidade de Coimbra, no centro-norte de Portugal. Provavelmente, o verão ainda não terá dado lugar ao outono.

A vida regular e pacífica do mosteiro agostiniano de Santa Cruz, marcada pela oração e pelo estudo da Bíblia, está prestes a ser perturbada por um acontecimento extraordinário…

Um monge como eles, um certo Fernando, de boa família e grande inteligência, comunica que deixaria a Ordem para ingressar na nova fraternidade dos Frades Menores. A 16 de janeiro, os restos mortais de alguns destes frades, que tinham passado por Coimbra poucos meses antes, eram trazidos de volta de Marrocos, onde haviam sofrido o martírio. O acontecimento tocou profundamente a sensibilidade de todos, abalando as consciências e despertando a fé de muitos.

Fernando é um jovem à procura, que não tem dúvidas sobre o que fazer com a sua vida, no que se refere ao essencial, mas cujos detalhes ainda não estão claros para ele. A introdução e o índice do livro da sua vida já estão em grande parte escritos, mas como prosseguir? É verdade, os primeiros capítulos – para permanecer na metáfora literária – já estão esboçados: Fernando tinha deixado o lar e a família em Lisboa, para ingressar muito jovem numa outra família, a dos Cónegos Regrantes de Santo Agostinho, no mosteiro de S. Vicente de Fora. Passado pouco tempo, esta “mudança” não resultou suficiente para a sua busca, pois era necessário colocar mais distância entre si e o mundo que deixara.

Afinal não basta escolher uma só vez? Será preciso continuar sempre a fazer novas escolhas?

Eis, então, a mudança para Coimbra. Fernando põe-se a caminho. O mosteiro de Santa Cruz parece ser uma escolha acertada, pelo menos por um certo tempo. Até ao calendário nos levar ao dia fatídico do qual falámos algumas linhas atrás.

O caminho parece chamar o nosso Fernando. Alguém, à frente dele, tinha-se posto em movimento. Não foi apenas o choque do martírio dos primeiros franciscanos mortos por causa da fé, nas terras dos mouros. Isso não teria sido suficiente. Fernando conhecia bem o outro grupo de frades menores, que se tinham instalado nos arredores de Coimbra, no monte dos olivais, ao redor da pequena ermida dedicada a Santo António Abade. A nova mudança de Fernando é para estar com eles, vestindo como eles o simples burel, descalço, partilhando as suas vidas. Perante o espanto geral daqueles que não entendiam como é possível trocar o claustro, a biblioteca, a igreja da abadia, a segurança e o conforto, pela irmã pobreza.

E foi assim que nasceu para todos nós … Santo António! Mas, será ainda longo o caminho que, a partir daqui, António terá de percorrer até ser chamado o Santo “de Lisboa, de Pádua e de todo o mundo”. Antes de chegar lá, o Senhor fá-lo-á fazer e desfazer as malas muitas vezes!

Ao fazer memória deste centenário que recorda os 800 anos da passagem de António dos Cónegos Regrantes de Santo Agostinho para os franciscanos, queremos segui-lo passo a passo no seu itinerário: físico, quantas vezes a pé, de Portugal até à Sicília, passando por Marrocos, para finalmente chegar a Assis, em maio de 1221.

Nos passos de António - o início da viagem, ilustração de Luca Salvagno
Nos passos de António – o início da viagem, ilustração de Luca Salvagno

Queremos interpelá-lo e deixar que nos acompanhe pelas estradas quantas vezes tortuosas das nossas vidas. Por esse motivo, dedicaremos várias páginas da nossa revista àquilo que o caminho de Santo António poderá sugerir, especialmente aos nossos jovens. Percorreremos as etapas da vida do Santo que, na altura, ainda não fazia milagres, mas já colocava toda a sua humanidade em jogo para responder ao chamamento do Senhor. Um chamamento a uma vida plena e realizada no amor.

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