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Jubileu 2020 de Santo António e dos Mártires de Marrocos

No dia 17 de dezembro de 2019, D. Virgílio, bispo de Coimbra, apresentou a Nota Pastoral do Jubileu 2020, em conferência de imprensa, que decorreu no Museu Machado de Castro.

Trata-se de um marco muito importante para uma vivência frutuosa deste jubileu. Publicamos aqui grande parte da mesma, poderá, no entanto, ver o texto integral no PDF.

Abertura da Porta Santa marca o início do Jubileu 2020 dos Mártires de Marrocos e de Santo António

NOTA PASTORAL

Entre 12 de janeiro de 2020 e 17 de janeiro de 2021 celebramos, em Coimbra, o Ano Santo de Santo António de Lisboa e dos Mártires de Marrocos. Assinalamos festivamente a chegada das relíquias dos cinco frades franciscanos, enviados por S. Francisco de Assis para o Norte de África; a ordenação de Santo António e a sua passagem do Mosteiro de Santa Cruz para o Convento de Santo António dos Olivais.

Coimbra não podia ficar indiferente a esta efeméride nem a esta figura, que se orgulha de contar entre os seus vultos do passado.

O Papa Francisco concede-nos a graça de celebrar este Jubileu. Esperamos que o Ano Santo constitua uma forte motivação para revigorarmos a fé em que Santo António acreditou; entusiasmarmo-nos para o anúncio do Evangelho que ele proclamou; agirmos para edificar a Igreja que ele amou e trabalharmos para fundamentar, em alicerces firmes, a sociedade que influenciou, com a sua vida e a sua doutrina.

[…]

Imagem de Santo António, Sé Nova, Coimbra
Imagem de Santo António, Sé Nova, Coimbra

SANTO ANTÓNIO, DE PORTUGAL, DA IGREJA E DO MUNDO

Santo António é uma figura incontornável da história da Igreja, da história de Portugal e da história de Coimbra. Em Lisboa nasceu para a vida e para a fé; em Coimbra tornou-se franciscano e sacerdote; em Pádua fez-se a figura universal que conquistou o mundo pelas suas palavras e obras, a ponto de ser declarado Santo e Doutor da Igreja.

Ele não precisa do nosso reconhecimento, pois já o teve ao mais alto nível; também não precisa dos nossos louvores, porque se dedicou totalmente a glorificar a Deus e a encaminhá-los para Cristo. Nós, sim, precisamos de reencontrar na sua pessoa, nas suas palavras e no seu testemunho de vida a inspiração para o tempo presente da Igreja e da sociedade, sempre à procura de novas vias de realização, ancoradas em fundamentos sólidos e perenes.

ALGUNS DESAFIOS DO JUBILEU

Um ano jubilar é sempre um ano de graça para os cristãos que se dispõem a fazer caminho, no seguimento das inspirações próprias das figuras ou circunstâncias que o motivam. Além do júbilo e da ação de graças de toda a comunidade diocesana pela figura de Santo António, que foi cristão entre nós, foi discípulo de Cristo na nossa terra e deixou atrás de si um rasto de santidade que nos entusiasma, queremos ajudar cada pessoa a fazer o seu caminho único de encontro pessoal com Cristo, Único Salvador, e com a Sua Igreja.

Ano jubilar é tempo de recomeçar para os que, porventura, andam afastados de Deus; de fortalecimento no caminho da conversão para os que se sentem desalentados na fé; de renovação da alegria de acolher o Evangelho para quem se sente a viver do espírito do mundo; de enraizamento em Cristo para os que ficaram sem fundamentos sólidos para a sua vida e ação, nos vários campos da atividade humana ou social em que se movem.

O nosso tempo, que foi perdendo de forma acentuada o sentido da fé em Deus, que se tornou muito indiferente à centralidade de Jesus Cristo e em que o sentido de pertença à Igreja está muito diluído, precisa de recomeçar.

Tendo em conta o passado, com tudo o que fez parte dele, coisas boas e más, precisamos de um tempo novo, de ideais mobilizadores da comunidade cristã, de radicalidade na resposta ao Deus que se nos oferece continuamente como fonte de esperança e possibilidade de futuro.

O DESAFIO DA EVANGELIZAÇÃO

Santo António distinguiu-se por ser um apaixonado pela evangelização, num tempo em que os desafios ao cristianismo eram muito grandes: Portugal e a Europa enfrentavam agora uma alternativa religiosa e cultural que punha em causa a fé cristã e o Evangelho. Imbuído pela mensagem de Jesus, que tomara o seu coração e a sua vida, sentiu que não podia ficar tranquilo no silêncio do mosteiro, mas tinha de dar tudo, expondo-se inclusivamente à possibilidade de perder a vida por causa do Evangelho e da humanidade a quem ele havia de chegar.

A chegada a Coimbra das relíquias dos Mártires de Marrocos, em vez de provocarem nele o medo de dar a vida, incentivaram-no a fazer dessa oferta o seu ideal mais alto. Queria, assim, responder ao mandato de Jesus dirigido aos Apóstolos e Discípulos:

“Ide, pois, fazei discípulos de todos os povos, batizando-os em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, ensinando-os a cumprir tudo quanto vos tenho mandado. E sabei que Eu estarei sempre convosco até ao fim dos tempos” (Mt 28, 19-20).

A ação evangelizadora de Santo António não consistiu em lutar contra ninguém, mas em propor com energia a mensagem de Cristo que já o havia conquistado a si mesmo e se tornara a fonte primeira da sua alegria, a esperança fundada da salvação de toda a humanidade.

Numa sociedade religiosa do passado ou numa sociedade secularizada do presente, persiste a urgência de evangelizar. Acresce a dificuldade de estarmos num mundo fechado ao transcendente e aparentemente satisfeito com a idolatria de si mesmo, mas que se vê submergido por toda a espécie de sinais de morte, que põem em causa a vida humana e os equilíbrios da natureza, ou as razões para crer, esperar e amar. Mais do que nunca, sente-se a necessidade de evangelizar o interior do ser humano, as suas conquistas científicas e técnicas, as relações sociais, económicas e políticas, e até a própria religiosidade cristã vivida no espaço eclesial.

O DESAFIO DA ESPIRITUALIDADE

A espiritualidade alicerçada na Regra de Santo Agostinho e depois nas fontes franciscanas caldearam o interior de Santo António, o homem e o cristão, que veneramos oito séculos depois. Cultivou o conhecimento, a sabedoria e os demais dons do Espírito Santo com todo o interesse, pois precisava deles para a sua vida cristã e para ajudar os outros, no caminho da fidelidade ao mesmo Espírito que a ele mesmo conduzia.

Mais uma vez, as relíquias dos Mártires de Marrocos tê-lo-ão ensinado a enraizar a vida no Espírito e a conhecer o que significa a radicalidade evangélica. Diante daqueles que deram a vida por Cristo e pelo seu Evangelho, as palavras da Escritura soaram muito alto dentro de si: “Quem não tomar a sua cruz para me seguir, não é digno de mim. Aquele que conservar a vida para si, há de perdê-la; aquele que perder a sua vida por causa de mim, há de salvá-la” (Mt 10, 39).

A passagem para a Ordem Franciscana, ainda nos seus alvores, é sinal deste apelo à vivência da radicalidade evangélica de Jesus, o Mestre, tão bem interpretada e literalmente acolhida por S. Francisco de Assis.

O DESAFIO DA RENOVAÇÃO CULTURAL

O percurso formativo inicial de Santo António, ainda em Lisboa, tanto na Catedral como no Mosteiro de S. Vicente de Fora, e a formação complementar na Sagrada Escritura, na Teologia e nas Ciências Sagradas que obteve no Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra foram-lhe dando os fundamentos necessários para um enraizamento cristão, cultural e espiritual, que perduraram harmoniosamente por toda a vida.

Ao declarar-se Santo António como Doutor da Igreja não se pretendeu simplesmente elogiar uma pessoa que se dedicou ao estudo, ao conhecimento e à investigação num período distante da história da Igreja. Esse acontecimento valorizou também os caminhos da cultura como caminhos da humanidade, dotada de inteligência, liberdade, vontade e capacidade de penetrar nos mistérios da condição humana.

Santo António, discípulo fiel de S. Francisco de Assis, terá aprendido do seu mestre a arte da busca da verdade alicerçada no encontro entre a fé e a razão, no diálogo com os que pensam de modo diferente e no respeito por todos e cada um.

A paz está dependente de muitos fatores, e entre eles conta-se certamente o diálogo cultural e religioso, que assenta no respeito pelo princípio da dignidade da pessoa humana, com os consequentes direitos e deveres, e nos valores fundamentais, como são a vida, a paz, a verdade, a liberdade, a justiça, a solidariedade e a caridade.

O DESAFIO DA VOCAÇÃO CRISTÃ E DAS VOCAÇÕES NA IGREJA

Santo António abraçou a sua vocação cristã desde muito cedo, de tal modo que já enquanto jovem tinha o desejo de servir a Deus e a Sua Igreja. A vida consagrada apareceu-lhe como a forma específica de viver a sua condição de cristão, de modo que fez o percurso de consagrado, que o levou à ordenação sacerdotal, por volta de 1220. O jubileu assinala também o oitavo centenário da ordenação, acontecimento que marcou toda a sua vida daí em diante.

A vocação cristã e as vocações específicas foram sempre um tema muito importante na vida da Igreja, pois apesar de todos os batizados constituírem um só corpo em Cristo, cada um recebe os dons específicos e o chamamento próprio para seguir o Senhor. Além do chamamento à vida e à santidade, que é vocação comum a todos, o Concílio Vaticano II recordou-nos que há uma vocação específica de cada um: “todos os fiéis, seja qual for a sua condição ou estado, são chamados pelo Senhor à perfeição do Pai, cada um por seu caminho” (Lumen gentium, 11).

Celebramos o Jubileu da ordenação sacerdotal de Santo António, num contexto muito concreto que deverá ajudar-nos a relançar, de forma nova e interpelante, a missão da evangelização dos jovens. Estamos no período pós-sínodo sobre os jovens e na recepção da Exortação Apostólica Cristo Vive; começamos a preparar a Jornada Mundial da Juventude 2022, de Lisboa; e como Igreja Diocesana, com base no dinamismo da sinodalidade, vamos definir o Plano Pastoral para o triénio de 2021-2024. Em tudo isto estaremos centrados nos jovens, na sua formação na fé e no seu discernimento vocacional.

O DESAFIO DA RENOVAÇÃO DA PIEDADE POPULAR ANTONIANA

Todos os anos são inúmeras as festas religiosas celebradas em honra de Santo António, não havendo quase igreja ou capela que não assinale a 13 de junho ou noutra data próxima a sua figura.

Acontece que também a devoção e a piedade popular antonianas precisam de forte renovação, para que não se reduzam a rituais ou festas vazias de sentido espiritual e pastoral, mas sejam momentos aptos para gerar o crescimento da fé, do amor a Deus e de santificação dos fiéis.

Entre nós essas festividades estão marcadas por uma feliz motivação religiosa, mas frequentemente muito diluída, no meio de outras motivações de caráter bairrista ou, simplesmente, voltadas para o já em si mesmo salutar convívio humano, solidário e lúdico.

Se tudo o que se faz em Igreja deve ter um marcado significado evangelizador, também as manifestações de piedade popular antonianas devem revestir-se desse caráter. A festa deve levar à evangelização; a liturgia deve levar à comunhão com Deus e com a Igreja; o convívio deve ajudar a aprofundar os valores testemunhados pelo patrono; a alegria do encontro deve proporcionar a experiência espiritual própria dos crentes; e as manifestações culturais devem estar ao serviço da difusão dos valores humanos e cristãos que deram forma à sua pessoa e à sua vida.

Não há melhor forma de honrar os que nos precederam na fé do que dar continuidade ao projeto de vida que os animou, no seguimento de Cristo, no caminho de santidade e no amor aos irmãos.

Mártires de Marrocos

CONCLUSÃO

Agradecemos ao Santo Padre, o Papa Francisco, que nos concede o dom deste Jubileu, manifestamos a nossa filial comunhão em Cristo, e agradecemos a estima que por nós manifestou com este gesto de pai e sinal visível da unidade do Povo de Deus a que pertencemos, também nós, a Diocese de Coimbra. Asseguramos ao Papa Francisco a nossa oração pela sua pessoa, pelas suas intenções e pelas intenções da Igreja Universal.

Como pastor desta Igreja Diocesana de Coimbra e em união com o Sucessor de Pedro, invoco para todos as bênçãos e graças de Deus neste Ano Jubilar.

Que Santo António interceda por nós!

Coimbra, 14 de dezembro de 2019

Virgílio do Nascimento Antunes, Bispo de Coimbra

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