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Vitalina Varela: uma Via Sacra de redenção

Estamos diante de um ‘filme colossal’, também e sobretudo porque nos obriga a repensar o que é isso do cinema, o que é a capacidade de fazer um filme diferente. Basta uma certa disponibilidade interior, não ter pressa e manter os olhos bem abertos. E aquela capacidade rara para ‘escutar o silêncio’: das palavras, dos gestos, da luz e das sombras, dos olhares. O filme é uma aparição.

Há, como sempre, muitas maneiras de entrar no filme que ‘começa’, aliás, de uma maneira absolutamente inesquecível. Eu, até por causa da entrevista lida no suplemento ípsilon, do Público (1 de Novembro), convido a olhar o filme a partir da imagem poderosa dos postes de electricidade que, filmados daquela maneira se assemelham a uma cruz bem levantada no alto. É a própria Vitalina – ainda não disse que o filme põe diante de nós a história verdadeira de uma mulher cabo-verdiana que chega a Portugal três dias depois de o seu marido ter morrido e ter sido enterrado, e que vai habitar a casa onde ele morava, no bairro da Cova da Moura, com todas as dificuldades que vai enfrentar – que diz:

Tinha a cruz de Cristo nos ombros e não me podia mexer. Quando caiu, fiquei livre. … Este filme é para todas as mulheres que sofrem. Eu sofri com muita coisa. Se as mulheres vêem que eu sofri, um dia também vão ficar livres.
Ninguém vive sem sofrer. O sofrimento às vezes traz alegria, outras vezes traz tristeza. Às vezes a pessoa perde a força e a coragem mas quando está a sofrer a pessoa ganha coragem para vencer aquele sofrimento e continuar para a frente. Sofri muito mas quando Deus viu que eu não conseguia aguentar mais Ele cortou aquele sofrimento.

Vitalina Varela, de Pedro Costa, Drama, M/12, Portugal, 2019.
Vitalina Varela, de Pedro Costa, Drama, M/12, Portugal, 2019.

Não é de estranhar esta referência religiosa tão clara e tão presente – até pela figura do padre, desiludido e derrotado, e da capela do bairro onde já ninguém vai. Vitalina – que resiste e não desiste da fé, foi catequista em Cabo Verde quando tinha apenas sete ou oito anos – define-se ‘católica, apostólica, romana’ e fala da religião como algo essencial. E lê a sua vida a partir daí. É dessa confiança que lhe vem toda a sua força. E Vitalina é uma mulher poderosíssima.

António Guerreiro, na sua crónica no ípsilon de 15 de Novembro, vai buscar a referência dos ‘imperdoáveis’, de Cristina Campo, para dizer que “Vitalina é um ser extremo, indecifrável, inesperado, destrutivo.” Porque “o imperdoável é de certa maneira um estranho ao contexto, um dissidente em relação ao jogo de forças.” E diz ainda esta frase lapidar: “perante ela, o filme coloca-se em condição de escuta e garante que ela seja escutada.”

Não é um filme fácil nem consolador, é bem exigente e inquietador. Mas seria imperdoável não se deixar iluminar por este filme onde predomina a escuridão, a noite, a tristeza, os espectros, as ruínas, o vazio. E onde a luz, quando surge é magnífica. “A esperança dos pobres jamais se frustrará”, lembrava o papa Francisco para o 3º Dia Mundial dos Pobres, celebrado, este ano, a 17 de Novembro.

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