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Natal, a sublime germinação de um tempo novo

O 25 de Dezembro não terá correspondido à data da vinda de Jesus ao mundo. Ela foi escolhida simbolicamente porque correspondia aos velhos ritos que festejavam o solstício de Inverno. Celebrava-se então o fim das longas noites, com a esperança de que o sol voltasse de novo a aquecer e a fecundar a terra.

O cerne do Natal reside na expectativa de uma fecundidade maior. Não se fixando na exterioridade comercial, com a sua profusão de múltiplas iluminações, nós os cristãos celebramos as festas natalícias com a luz que brilha no mais profundo de nós mesmos: acolhendo o Jesus menino que, como exprimiu Lutero, “chorou no seu berço e mamou nos peitos da sua mãe”. Foi desta maneira que o filho de Deus assumiu a finitude da nossa condição, para a fecundar com o sémen da eternidade.

As narrativas da infância de Jesus contam a nossa época, com as suas vicissitudes, perplexidades, sofrimentos e interrogações

Apenas dois dos quatro evangelhos falam do nascimento de Jesus. Isso mostra que será possível evocar a revelação de Deus sem fazer essa referência. Poderemos falar do Evangelho sem falar do Natal, mas as narrativas da infância de Mateus e de Lucas são preciosas para medir todo o alcance da Incarnação de Deus. Esses textos põem-nos diante dos meandros de realidades humanas muito concretas: uma gravidez duvidosa, um noivo que venceu a sua desconfiança, depois de ter suspeitado da infidelidade da noiva, um nascimento em condições muito precárias, uma família obrigada a deslocar-se da sua terra, um massacre de crianças, uma fuga para o estrangeiro, à procura de asilo.

Quando lemos as narrativas da infância de Jesus, vemos que não nos falam de uma história longínqua. Elas contam a nossa época, com as suas vicissitudes, perplexidades, sofrimentos e interrogações. O Natal relembra a presença de Deus nos dramas de todos os tempos. Nesta época histórica de grandes dúvidas e de profundas inquietações quanto ao futuro, precisamos de robustecer a escuta dessa presença divina, a sussurrar-nos que nada está perdido, apesar do cinismo daqueles que defendem que este mundo não tem conserto.

A escritora Clarice Lispector lembra-nos que a “pura alegria de viver” está em assumir que “a salvação é pelo risco, sem o qual a vida não vale a pena!”. E o poeta Pessoa confessa no seu heterónimo Alberto Caeiro: “Não sou nada. À parte isto, trago em mim todos os sonhos do mundo”.

Os desconcertos do mundo desafiam-nos a colaborar na obra de salvação do mundo

Este ato de confiança é, contudo, uma aposta arriscada, pois só os ingénuos é que podem ignorar os desconsertos do mundo.

Os anjos anunciaram aos pastores o nascimento de Jesus, proclamando “paz na terra”, mas, se refizermos a história da humanidade, verificamos que apenas duzentos e trinta e quatro dos três mil e quatrocentos anos de que há registos, terão sido anos de paz.

Sabemos que nos nossos dias, além das guerras em tantas partes do planeta, muitos outros males persistem no mundo, alguns dos quais abundantemente referidos nos últimos tempos. Temos, por exemplo, boas razões para estar preocupados com as falsas informações disseminadas pelas redes sociais, que estão a fragilizar as nossas democracias. O mesmo se pode dizer, quando constatamos a falência das cimeiras sobre o clima, apesar da evidência dos desequilíbrios que ameaçam o nosso planeta. O real de agora, muito mais incerto do que imaginávamos no passado, em vez de nos deixar esmagados ou paralisados, desafia-nos a resistir à tentação de desencorajamento e a juntar-nos àqueles que persistem em colaborar na obra de salvação do mundo.

A Esperança, que não é apanágio exclusivo dos cristãos, pois o Espírito sopra onde quer, mobiliza-nos para ir ao encontro daqueles que não desistem, como nos pede o Papa Francisco, ao apontar-nos este caminho realista: “Nem sempre podemos fazer grandes coisas, mas podemos fazer pequenas coisas com muito amor”.

Embora sem esquecer, com aguda lucidez, os males do nosso tempo, o Papa sempre lembra as razões para cultivar a Esperança no futuro. São dele estas palavras: “O mundo apresenta-nos motivos de tristeza, mas também muitos motivos de alegria, como sejam as sementes de vida, verdade e amor, muitas vezes silenciosas, que as pessoas de boa vontade cultivam em todos os cantos do planeta, assim construindo o Reino de Deus”.

A emergência crescente da sensibilidade ecologista e a persistência dos movimentos de defesa dos direitos humanos mostram que continua a haver quem não aceite enclausurar-se num mundo sem horizontes, apesar de evidências que apontam em sentido contrário.

Gostaríamos de conhecer o futuro com clareza, mas os seus sinais são insuficientes e incertos

Samira Nimr num campo de refugiados da Palestina com os seus dois filhos. O marido está preso em Israel. Foto 2017, EPA / Alaa Badareh.

O que nos confessa Clarice Lispector é um convite a desconfiar das nossas certezas absolutas: “Vivo de esboços não acabados e vacilantes. Mas equilibro-me como posso, entre mim e eu, entre mim e os homens, entre mim e o Deus”. De facto, perdemos a capacidade de discernir, quando pretendemos que todas as coisas sejam apreendidas como definitivas. No domínio do discernimento, nunca há respostas feitas. O excesso de luz, além de encandear a visão, pode até provocar a cegueira. O profeta Elias esperava uma tonitruante aparição da presença divina, mas o poder do eterno escolheu manifestar-se apenas por um leve murmúrio de vento (1Rs 19, 11-12).

Dizia-nos o Papa Francisco numa das suas passadas mensagens natalícias: “Tu és a noite de Natal quando recebes no silêncio dessa noite o Salvador do mundo, sem ruídos nem grandes celebrações”.

Celebremos este Natal com a alegria interior de acreditar que Deus fez a eternidade entrar na nossa história humana, disseminando nela a sublime germinação de um tempo novo.

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