A viagem que mudou o mundo

Quando, no dia 19 de Novembro de 1519, largou de S. Lucar de Barrameda, no Guadalquivir, é muito provável que Magalhães não tenha imaginado o desfecho da sua viagem, mormente a chegada de um dos seus navios ao porto de partida, circum-navegando o globo terrestre.

Embora grande parte do avanço civilizacional se vá processando por pequenos passos, normalmente por tentativa e erro, é devido à intuição extraordinária de alguns seres humanos que a humanidade consegue dar saltos gigantescos inimagináveis pelo comum dos mortais.

Foi assim com Ptolomeu, no século II d.C., que na sua célebre Geographia, reúne em oito volumes todo o conhecimento geográfico greco-romano. Não podendo ainda apresentar referência ao que hoje conhecemos como o continente americano, estes conhecimentos dão já uma ideia muito aproximada da configuração da Terra. Na verdade, esta noção de que só existem quatro continentes vai ser corrigida treze séculos mais tarde, de forma pragmática, na sequência da viagem de Colombo, em 1492.

Embora Aristarco de Samos (séc. II a.C.) já tenha colocado a hipótese de a terra girar em torno do sol, foi a ciência ptolemaica que constituiu os fundamentos que permitiram a Copérnico, no século XVI, desenvolver a sua teoria do heliocentrismo. Contraditando a então vigente teoria geocêntrica que considerava a Terra como o centro do Universo, a teoria de Copérnico é considerada como uma das mais importantes hipóteses científicas de todos os tempos, tendo, de algum modo, constituído o ponto de partida para o estudo e desenvolvimento da astronomia.
Ainda no século XVI, apesar de já se saber que existia uma massa continental entre o Atlântico e um outro mar, não havia, contudo, certezas sobre a existência de uma passagem que os ligasse. Magalhães acreditava nessa hipótese e estava convencido que, encontrada essa passagem, as ilhas das especiarias (Molucas) estariam a um ou dois dias de navegação. Na verdade, a travessia do Pacífico até às Molucas levou mais de dois meses, como aliás o tinha advertido o cosmógrafo San Martin.

A viagem de circum-navegação concretizou-se quando, a 6 de setembro de 1522, Juan Sebastian Elcano, ao comando da Victoria, se fez ao porto de Sanlúcar de Barrameda, de onde partira quase três anos antes. Dos duzentos e trinta e sete homens que tinham partido apenas dezoito regressaram, ou seja, chegou apenas o dízimo. Elcano foi recompensado com uma pensão anual e um brasão e, para além disso, foi-lhe oferecido um globo com uma fita com o lema Primus circumdedisti me.

Esta viagem teve três consequências fundamentais:

  • A descoberta de uma passagem entre o Atlântico e o mar que futuramente se passaria a chamar de Pacífico;
  • A descoberta de um oceano cujas dimensões eram ignoradas;
  • A comprovação da esfericidade da Terra.

A viagem que Fernão de Magalhães planeia, propõe e executa ao serviço de Carlos V é inquestionavelmente um grande feito, resultado de uma vontade indómita, de um grande espírito de sacrifício e de uma capacidade de liderança fora do vulgar. Ainda que, para além da descoberta de novas rotas de comércio e da conquista de novos territórios para a coroa espanhola, Magalhães fosse também mobilizado pelo enriquecimento e glória pessoal, não podemos deixar de admirar o Homem, o Militar e o Marinheiro, que, ao protagonizar este projeto, mudou definitivamente a forma de perceber o mundo.

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