A esperança dos pobres jamais se frustará

Não deixa de ser significativo que a Mensagem do Papa para o III Dia Mundial dos Pobres, tenha a data de 13 de junho de 2019, dia de Santo António, e por título as palavras do salmista A esperança dos pobres jamais se frustrará (Sal 9, 19).

No período da redação do Salmo, assistia-se a um grande desenvolvimento económico, que acabou também – como acontece frequentemente – por gerar fortes desequilíbrios sociais. A desigualdade gerou um grupo considerável de indigentes, cuja condição parecia ainda mais dramática quando comparada com a riqueza alcançada por poucos privilegiados.

Entre a situação do pobre no tempo do salmista e a situação atual as semelhanças são flagrantes:

Passam os séculos, mas permanece imutável a condição de ricos e pobres, como se a experiência da história não ensinasse nada. Assim, as palavras do salmo não dizem respeito ao passado, mas ao nosso presente submetido ao juízo de Deus.

Francisco fala “das muitas formas de novas escravidões a que estão submetidos milhões de homens, mulheres, jovens e crianças”. Famílias obrigadas a deixar a sua terra; crianças exploradas brutalmente; jovens em busca de um emprego digno; pessoas humilhadas reduzidas à condição de objetos descartáveis, vítimas da violência, prostituição, droga; milhões de migrantes vítimas de interesses ocultos, a quem se nega a solidariedade e a igualdade.

E tantas pessoas que vagueiam pelas ruas, à procura de alimento e de afeto, “tendo-se tornado eles próprios parte de uma lixeira humana, são tratados como lixo, sem que isto provoque qualquer sentido de culpa em quantos são cúmplices deste escândalo”.

O Papa recorda que Jesus não teve medo de Se identificar com os pobres, de igual modo a Igreja ao aproximar-se dos pobres, “descobre que é um povo, espalhado entre muitas nações, que tem a vocação de fazer com que ninguém se sinta estrangeiro nem excluído, porque a todos envolve num caminho comum de salvação. A condição dos pobres obriga a não se afastar do Corpo do Senhor que sofre neles. Antes, pelo contrário, somos chamados a tocar a sua carne para nos comprometermos em primeira pessoa num serviço que é autêntica evangelização”.

Os pobres são pessoas a quem devemos encontrar: são jovens e idosos sozinhos que se hão de convidar a entrar em casa para partilhar a refeição; homens, mulheres e crianças que esperam uma palavra amiga. Os pobres salvam-nos, porque nos permitem encontrar o rosto de Jesus Cristo.

O Papa Francisco quer que se fale dos pobres como pessoas e não como números, sobretudo quando utilizamos os números, ou estatísticas, “para nos vangloriarmos de obras e projetos”.

É bom lembrar que a palavra caridade, quantas vezes associada a gestos de assistencialismo que, parecem, esquecer a justiça e os direitos da pessoa humana, vem do grego charis (lê-se karis), e significa amor gratuito, entrega total a Deus e ao outro. São Paulo escreveu o belíssimo hino da caridade (1 Cor 13), que podemos considerar a “magna carta” para os casais, para as comunidades cristãs e de consagrados e para todas as instituições de promoção social.

Falar dos pobres não é fácil nem, tampouco, colocar-se ao lado deles. Pelo contrário, é muito fácil cair numa série de estereótipos que servem, apenas, para “catalogar e arrumar” a questão.

O Papa Francisco, ao proclamar o Dia Mundial dos Pobres, estava bem consciente desta dificuldade, por isso, quis simplesmente que os pobres se sentassem às nossas “mesas”: a do Altar, onde nós podemos encontrar o Deus que se fez pobre, e a das nossas refeições, onde podemos mais facilmente abrir o nosso coração uns aos outros. Nenhuma palestra, nenhum sermão, nenhum pregão; simplesmente um convite, um acolhimento, uma partilha fraterna.

Não faltam, ao nosso lado, pessoas que precisam de um sorriso, de uma palavra, de um momento de escuta. Por vezes, basta pouco para restabelecer a esperança em quem anda desanimado ou angustiado.


17.nov.2019 – Dia Mundial dos Pobres. Síntese do Editorial das Folhas Paroquias Conchas (Paróquias de Santa Clara, São Maximiliano Kolbe e Santa Beatriz, Lisboa) e Pica-Pau (Paróquia de Santo António dos Olivais, Coimbra).

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