Parasitas: uma surpresa permanente, como uma boneca russa

O filme Parasitas, do realizador coreano Bong Joon-ho, ganhou a Palma de Ouro, em Cannes. Por si só, poderia não significar muito. Mas se acrescentarmos que sucede ao filme Shoplifters (Uma Família de Pequenos Ladrões) e que os dois quase partem da mesma ideia, talvez já mereça atenção. Do mesmo modo que em Shoplifters se partia de uma família japonesa pobre a tentar sobreviver, também em Parasitas temos uma família sul-coreana com muitas dificuldades económicas e que vai tentar subir na vida: do subterrâneo onde vivem à mansão onde vive a família rica. Entre o cómico e o trágico, é de ricos e pobres que se trata; ou da luta de classes, como alguns escreveram. Talvez mais ainda da luta implacável que os pobres travam entre si, porque – parece – não há lugar para todos e alguém tem de safar-se, custe o que custar, seja à custa de quem for.

Vale a pena ler algumas frases do próprio realizador, bem elucidativas do seu objetivo e contexto:

Gisaengchung -  Parasitas, do realizador coreano Bong Joon-ho. Drama, M/14, Coreia do Sul, 2019. Palma de Ouro no Festival de Cannes.
Parasitas, do Bong Joon-ho.
Drama, M/14, Coreia do Sul, 2019.

Ao contar uma história sobre a desigualdade entre ricos e pobres, só podia fazê-lo no âmbito de um núcleo familiar. A riqueza é herdada e a pobreza também. Os ricos passam o dinheiro à família ao longo de gerações e os pobres mantêm-se pobres, e fica tudo em família…
Há uma crescente desigualdade de riqueza, uma crescente polarização dos extremos. E isso entristece-me. Mas ainda me entristece mais que as pessoas se resignem e achem que não há solução possível.
Queria mostrar de maneira muito clara, mas também muito emocionante, o abismo que existe entre quem tem dinheiro e quem não tem dinheiro. Claro que pode ser desconfortável, mas não tenho problema nenhum com isso. Era inevitável.
Toda a gente é boa e má ao mesmo tempo. O que queria mostrar, de maneira muito cruel e vívida, é que mesmo aqueles que não têm o poder não se ajudam uns aos outros, mas antes se atacam uns aos outros.

in publico.pt/culturaipsilon, de 27 de setembro de 2019

Muitas vezes e de muitos modos, temos olhado para esta realidade dos pobres e também nós ficamos como que impotentes: não conseguimos quebrar o ciclo da pobreza, não conseguimos que a solidariedade ganhe o primeiro lugar. Basta fazer parte de uma Conferência Vicentina ou assistir a uma ‘sopa dos pobres’.

Por isso, este acaba por ser um filme violento no retrato impiedoso que faz da sociedade sul-coreana, mas que é demasiado semelhante em todas as latitudes. De repente, as coisas precipitam-se e tornam-se incontroláveis. E, de facto, não é uma questão de haver maus e bons, é não haver lugar para todos à mesa. Mas não haverá mesmo?

Faleceu há poucos dias alguém que não se cansou de dizer que era possível, para além de urgente, alterar a realidade da pobreza e dos pobres: Manuela Silva. É preciso continuar a acreditar. Conforme foi pedido pelo realizador, não se pode contar o filme. Tem mesmo de se ir ver. Há quem diga que é um dos melhores filmes do ano.


Gisaengchung Parasitas, do realizador coreano Bong Joon-ho.
Drama, M/14, Coreia do Sul, 2019.
Palma de Ouro no Festival de Cannes.

1 comentário em “Parasitas: uma surpresa permanente, como uma boneca russa”

  1. Jesus disse que haverá sempre pobres, quando a mulher derramou perfumes caros e o discípulo Pedro a censurou por ter gasto o dinheiro a comprar perfumes para oferecer a Jesus em vez de ter dado o dinheiro aos pobres. Se Jesus é o Filho de Deus e o disse, como podemos pensar que pobres não existirão sempre?

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