Papa Francisco ao encontro dos cristãos e culturas do Oriente

O Papa Francisco realizará a sua 32ª viagem de 19 a 26 de novembro. Viagem missionária à Tailândia e ao Japão, países do Oriente, de maioria budista e xintoísta, onde os cristãos são uma pequena minoria.

Dois lemas presidirão e estes encontros: Para a Tailândia, Discípulos de Cristo, discípulos missionários e, para o Japão, Proteger a vida.

Discípulos de Cristo, discípulos missionários, evoca um aniversário importante: em 2019, decorrem os 350 anos da instituição do vicariato apostólico de Siam, erigido em 1669. Os primeiros missionários que se estabeleceram na Tailândia foram dois dominicanos portugueses, em 1567. Hoje há cerca de 300 mil católicos, 0,46% da população.

A viagem do Papa foi precedida pela presença do cardeal Filoni, Prefeito da Congregação para a Evangelização dos Povos, em maio deste ano. A ideia de missão e da presença da Igreja foi o mote da visita.

O entusiasmo e alegria dos cristãos é, sem dúvida, um bom prenúncio de que a presença do Papa será uma grande alegria para os cristãos que vivem num ambiente de outras espiritualidades e mesmo de alguma dificuldade, sobretudo da parte da comunidade muçulmana (4%), e apreensão ante uma possível legislação de proteção à experiência budista.

Sabedoria e misericórdia

Jovens monges budistas tailandeses usam um barco na estrada local inundada perto do templo Samiennaree em Bangkok, Tailândia, 03 de novembro de 2011. EPA / NARONG SANGNAK
Jovens monges budistas tailandeses usam um barco na estrada local inundada perto do templo Samiennaree em Bangkok, Tailândia, 03 de novembro de 2011. EPA / NARONG SANGNAK

Sendo a sabedoria e a misericórdia palavras-chave na experiência budista, o Papa Francisco poderá alargar a expectativa ecuménica, sobretudo se olharmos que na sua visita, para além dos encontros protocolares com as autoridades e das celebrações, estará também um encontro com o patriarca supremo dos budistas no templo de Wat Ratchabophit Sathit Maha Simaram.

Num país onde ocorre um processo de secularização rápida (convém não esquecer que a Tailândia espera receber este ano 41 milhões de turistas), sobretudo das novas gerações, o Papa irá dar um impulso à experiência do alegre anúncio da Boa Nova.

De notar que a igreja vive uma experiência de serviço às diferentes comunidades, tendo um especial empenho na ajuda e recolhas das crianças infetadas com HIV e que normalmente são rejeitadas pelas famílias (um dos problemas resultantes do intenso tráfico de homens e mulheres para a prostituição e para o chamando turismo sexual). Os diversos centros de acolhimento são formas de mostrar como o evangelho se torna anúncio.

Uma nota interessante: Alguém pergunta se a razão por que fazem isso é para que as pessoas se tornem cristãs. A resposta do responsável foi muito simples: a razão por que procedemos assim é porque são nossos irmãos; o ser ou não cristão é um problema pessoal em que cada um é que decide.

Depois da visita à Tailândia o papa estará no Japão nos dias 23 a 27 de novembro

Campos de chá japoneses perto do Monte Fuji, na província de Shizuoka, Japão. EPA / EVERETT KENNEDY BROWN. Maio de 2007.
Campos de chá japoneses perto do Monte Fuji, na província de Shizuoka, Japão. EPA / EVERETT KENNEDY BROWN. Maio de 2007.

A presença cristã no Japão remonta à experiência missionária portuguesa, sendo São Francisco Xavier o primeiro a visitá-lo e a apaixonar-se por esse povo.

Depois, jesuítas e franciscanos aproveitaram as conturbadas experiências politicas para rapidamente espalhar o cristianismo em diversos locais.

A chegada de novos poderes iniciou, no entanto, uma implacável perseguição aos cristãos (quem não recorda o Silêncio, de Shusaku Endo, e a espantosa versão cinematográfica de Scorsese?). São dele estas palavras:

O Japão é um pântano porque absorve toda a sorte de ideologias, transformando-as em si mesmo e distorcendo-as no processo de o fazer… Se esse cristianismo fosse menos incorrigivelmente ocidental, as coisas poderiam ter sido diferentes.

Bomba atómica de plutónio: explosão em Nagasaki, a 9 de agosto de 1945. Mais de 80 000 pessoas foram mortas, a maioria civis.
Bomba atómica de plutónio: explosão em Nagasaki, a 9 de agosto de 1945. Mais de 80 000 pessoas foram mortas, a maioria civis.

O papa visitará Nagasáqui onde recordará um Japão mártir, não só do nuclear… mas, também, a memória dos 26 mártires do Japão representando uma multidão de mártires no auge das perseguições.

Em Nagasáqui (onde celebrará) iremos acolher o grito de alma do Papa Francisco que provavelmente nos surpreenderá com a sua forma e o seu jeito de proclamar o desafio à vida diante dos perigos que constantemente a espreitam e a violentam.

A sua mensagem está já, de uma maneira plástica, presente na imagem escolhida para esta viagem: três chamas com cores diferentes; a vermelha recorda os mártires, fundamento da igreja japonesa; a azul representa a bem-aventurada Virgem Maria, que abraça toda a humanidade como seus filhos; e a verde evoca quer a natureza do Japão, quer a missão de proclamar o evangelho da esperança. Um círculo vermelho, como o sol, envolve toda a vida e simboliza o amor. O papa é representado de maneira estilizada com a mão que abençoa o “t” da palavra “proteção” em forma de cruz. É esta forma plástica que agora será preenchida de palavras e gestos no anúncio da Boa Nova do Reino.

A comunidade cristã representa apenas 1% da população. Tem atrás de si muito sofrimento e também os sinais de perseverança de um grande grupo de cristãos que, em tempo de perseguição, continuaram a reunir-se de uma forma oculta, os chamados kakure kirishitan.

Não podem deixar de se ter presentes, eles que configuram este chamado Milagre do Oriente. Depois das ferozes perseguições em que os cristãos eram obrigados ao fumie, a calcar uma imagem de Cristo ou de Nossa Senhora − e em Nagasáqui todos tiveram que o fazer − os crentes com os seus responsáveis foram mantendo a fé cristã. Batizavam os seus filhos, pediam perdão a Deus pelos seus pecados e aguardavam a chegada de padres para poder receber a absolvição. Diante da perseguição a todos os sinais de presença cristã eles foram esculpindo imagens de Nossa Senhora com a aparência de figuras budistas.

Quando, em 1865, se reabriram as portas aos missionários e aos padres franceses, em Nagasáqui, que erigiram a igreja de Oura, apareceu um grupo de japoneses que se identificou como acreditando o mesmo. Apesar da gravidade da perseguição, conseguiram manter a fé e uma comunidade de 10 000 féis celebrou a Sexta Feira Santa desse ano.

Aguardemos e participemos desde já com as nossas preces.

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