O planeta Terra, os pobres e o documento de Francisco (2)

Quando se percebeu que o carvão era uma grande fonte de energia, começou a Revolução Industrial.

A relação do homem com o seu trabalho foi profundamente afetada e o maquinismo introduziu nas estruturas tradicionais mudanças e não-saberes impensáveis.

Mas, mais ainda: a concentração geográfico-humana de quantos abandonaram o campo e correram à mina ou à fábrica originou também a conjunção do fenómeno urbano com a atividade industrial.

Banlieue (arredor, cercania ou subúrbio) e periferia encaixaram a cidade. Brunin escreveu, ainda no século passado, que

os banlieues são agora a gramática do humano; uma Igreja que se coloque à distância do que se vive quotidianamente nas cités populares condena-se à exterioridade e a uma incapacidade missionária. Não se compreende que a Igreja abandone os lugares onde o humano está ameaçado.

BRUNIN, Jean-Luc, L´Églige des banlieues, Paris, Les éditions ouvrières, 1998

O homem urbano

E, já nos finais do séc. XX, nasceu o homo urbanus (homem urbano) ou a urbanidade (da palavra latina urbs), um processo transformador de costumes, de crenças, de comportamentos, numa palavra, chegou uma nova civilização: os habitantes, quais sejam, têm de ser tratadas como sujeitos e a diversidade de culturas e de religiões tornou-se uma realidade no dia a dia.

O homem urbano criou a civilização urbana, um processo transformador de costumes, numa palavra, a civilização urbana gerou o homem urbano e com ele um processo transformador de costumes, de crenças, de comportamentos… Chegou uma nova civilização.

“Não tenhas medo, continua e não te cales! Eu estou contigo e ninguém te porá as mãos e fará mal. Nesta cidade há muitos que farão parte do meu povo”, disse já o Senhor a Paulo em Corinto, quando na cidade muitos “coríntios, depois de o escutarem, abraçaram a fé e receberam o Batismo” (Act 18,8-10).

Bolonha – uma Igreja dos pobres

Giacomo Lercaro, o cardeal das periferias e da reforma litúrgica (1891-1968).
Giacomo Lercaro, o cardeal das periferias e da reforma litúrgica (1891-1968).

A Igreja, normalmente chega tarde, mas chega. Se é possível dizê-lo assim, chegou a este mundo novo de um modo especial com Giacomo Lercaro (1891-1968), arcebispo de Bolonha, cidade localizada numa colina chamada Alto de Bolonha, primeiro etrusca, já existia no ano 510 aC, mas depois, no II ano aC, era já romana. Ali nasceu a universidade mais antiga da Europa.

Bolonha nasceu pequena cidade, amuralhada, num alto defensivo, e começou a crescer. Rapidamente saltou os muros, e logo lhe nasceu à volta um arrabalde. Sempre a crescer, durante e depois do século XIX, sobretudo, Bolonha tornou-se um mundo de território e de população. De pobreza, nem se fale!

Mas o arcebispo de Bolonha, Lercaro, já cardeal e membro do Conselho de Presidência do Concílio Vaticano II — o primeiro a falar da necessidade de uma “Igreja dos Pobres” e que teve a coragem de transformar o seu palácio episcopal num orfanato − Lercaro, dizia, preocupou-se também com a necessidade de, num mundo que crescia imenso, ser necessário levantar espaços sagrados (igrejas, capelas, ermidas…) de linguagem arquitetónica contemporânea, nos subúrbios da cidade. Para tal, cria um Escritório Novas Igrejas e o Centro de Estudos para a arquitetura sagrada. Foi nesta altura que os subúrbios da cidade passaram a periferia.

Será que Lisboa e Porto copiaram?

Em Lisboa, num

tempo de proposta renovadora, ou de génese de nova arquitetura religiosa (entre 1950 e 1965), mas em conflito com a persistência neo-tradicional: um tempo de consolidação e divulgação dessa proposta moderna, … no sentido de renovar e inovar o panorama da arte religiosa, … inovadora proposta global para a arquitetura religiosa. … A arquitetura religiosa tornar-se-ia então uma das vanguardas da arquitetura em Portugal… foi possível afirmar e consolidar uma verdadeiramente nova arquitetura religiosa. … Há que fazer realçar o papel das periferias urbanas, ou dos subúrbios da cidade capital.

FERNANDES, José Manuel, Igrejas do século XX. Arquitecturas na região de Lisboa, 2014

E na periferia da cidade do Porto, onde se podem contar 19 igrejas e capelas:

um intenso surto de construções, … porque se tornavam exíguas as igrejas e desagradadas as comunidades, não só foram criadas novas paróquias, como se edificaram novas igrejas e levantaram diversos centros paroquiais.

FERNANDES, António Teixeira, Para a História da Diocese do Porto, 2002

A Igreja saía para chegar aos arredores, à terra dos pobres…

Os subúrbios são agora a gramática do humano

Estas são palavras de Jean-Luc Brunin, presbítero atento às realidades sociais em crise. Começou por viver nos quartiers (bairros) populares de Roubaix, cidade situada na fronteira da França com a Bélgica, convidando os crentes e a Igreja de França a solidarizarem-se com os trabalhadores voluntários de humanização que já ali trabalhavam.

No ano 2000, foi ordenado bispo e nomeado auxiliar de Lille. Em 2004, bispo de Ajaccio, e arcebispo de Le Havre, no ano de 2011.

Jean-Luc Brunin, bispo de Le Havre, na Mensagem ao Conselho das Igrejas Cristãs de França, Corinne SIMON/CIRIC, 2015.
Jean-Luc Brunin, bispo de Le Havre, na Mensagem ao Conselho das Igrejas Cristãs de França, Corinne SIMON/CIRIC, 2015.

Não se compreende que a Igreja deixe à distância os lugares onde se vive no quotidiano e/ou pouco se compreende que a Igreja abandone esses lugares onde está ameaçado o humano e a ligação social se deteriora. Isto é: por fidelidade ao Evangelho ela − a Igreja − não pode negar-se a buscar, juntamente com outros homens de boa vontade, os caminhos do possível, rumo a um futuro humano e fraterno no coração da sociabilidade.

BRUNIN, Jean-Luc, L´Églige des banlieues, Paris, Les éditions ouvrières, 1998, p. 15

Dando um salto, vejamos uma reflexão El Dios de la periferia, de Teresa Ruiz Ceberio, uma Religiosa das Irmãs Auxiliadoras:

Jesus de Nazaré chama-nos a reconhecê-lo e acompanhá-lo nas periferias existenciais. Quantos crucificados encontramos pelo caminho!

A Igreja tem de sair de “si própria” para ir até às periferias, não apenas geográficas mas também existenciais.

Todos os cardeais, nas reuniões preparatórias do conclave que deve escolher o Papa, intervêem, mas as intervenções são normalmente secretas.

Aconteceu que a do Cardeal Jorge Bergoglio, depois Papa Francisco, foi revelada.

Palavras de Jorge Bergoglio no Conclave, onde seria eleito Papa:

  1. A Igreja é chamada a sair de si própria para ir até às periferias, não apenas geográficas, mas também das periferias existenciais.
  2. Quando a Igreja não sai de si própria para evangelizar, torna-se auto-referencial e fica doente..
  3. A Igreja, quando é auto-referencial, sem se dar conta, crê que tem luz própria. Ela deixa de ser o mysterium lunae, e dá lugar a esse mal tão grave que é a mundanidade espiritual (segundo Lubac [Henri de Lubac, cardeal jesuíta francês], o pior mal que pode acontecer à Igreja). Simplificando, há duas imagens da Igreja: a Igreja evangelizadora que sai de si própria, ou a Igreja mundana que vive em si própria, de si própria e para si própria.
  4. Jesus Cristo ajude a Igreja a sair de si própria para as periferias existenciais.

Eleito em Março de 2013, nesse mesmo ano, em 4 de Dezembro, publicou uma Exortação Apostólica com o título A alegria do Evangelho.

Naquele “ide” de Jesus (Mt 28,19-20) estão presentes os cenários e os desafios sempre novos da missão evangelizadora da Igreja e, hoje, todos somos chamados a esta nova saída missionária.

Cada cristão e cada comunidade há-de discernir qual é o caminho que o Senhor lhe pede, mas todos somos convidados a aceitar esta chamada: sair da própria comodidade e ter a coragem de alcançar todas as periferias que precisam da luz do Evangelho. Referindo-se “a todas as periferias que precisam da luz do Evangelho” − diz assim Francisco:

Sair da própria comodidade e ter a coragem de as alcançar todas;
Sair de si mesmo, de caminhar e de semear de novo, sempre mais além;
Que hoje a Igreja saia para anunciar o Evangelho a todos, em todos os lugares, em todas as ocasiões, sem demora, sem repugnâncias e sem medo.
Ir ao encontro, procurar os afastados e chegar às encruzilhadas dos caminhos para convidar os excluídos.
Que todas as comunidades se esforcem para avançar no caminho de uma conversão pastoral e missionária, que não se podem deixar as coisas como estão.

A alegria do Evangelho, 20-25

Epílogo

Complexo industrial, saída dos trabalhadores, Bolonha, Itália, início séc. XX. https://www.guerrainfame.it/casaralta.
Complexo industrial, saída dos trabalhadores, Bolonha, Itália, início séc. XX. https://www.guerrainfame.it/casaralta.

Começámos com a palavra metáfora, saímos de Bolonha e da 1ª Revolução Industrial e chegámos à “miséria imerecida”, apontada a dedo por Leão XIII, nos finais do século XIX.

Parámos aí um pouco, é verdade, mas o século XX foi muito rico. O Vaticano II pôde dizer, com verdade, que “a Igreja abraça com amor todos os afligidos pela enfermidade humana” (LG 1.8). E muitos foram os “santos”. Lercaro foi um deles. E todos correram ao Evangelho.

E a Igreja continua a chegar à periferia.

É salutar que nos recordemos dos primeiros cristãos… Há quem se console, dizendo que hoje é mais difícil; temos, porém, de reconhecer que o contexto do Império Romano não era favorável ao anúncio do Evangelho, nem à luta pela justiça, nem à defesa da dignidade humana. Em cada momento da história, estão presentes a fraqueza humana, a busca doentia de si mesmo, a comodidade egoísta e, enfim, a concupiscência que nos ameaça a todos… Em vez disso, aprendamos com os Santos que nos precederam e enfrentaram as dificuldades próprias do seu tempo.

Papa Francisco no final da Exortação A alegria do Evangelho, nº 263

Arlindo de Magalhães, Bem hajas!

Professor na Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa (Teologia Pastoral e Teologia e História das Religiões, entre outras) e presbítero da Comunidade Cristã da Serra do Pilar.

Os seus interesses alargam-se até às temáticas da História da Espiritualidade, dos Cultos e dos Santos, à Literatura e à Poesia, à Música e ao Cinema; em suma, às linguagens pelas quais perpassa a percepção possível das “coisas de Deus” (Fé) nas “coisas dos homens” (História, Liturgia, Caridade).

Com este Especial conclui-se a colaboração regular e assídua do Pe. Arlindo de Magalhães com o Mensageiro de Santo António. Desde janeiro de 1985, já lá vão 35 anos, foi um dos pilares da nossa revista. Páginas e páginas cheias de sabedoria e acutilância, de um dos colaboradores mais queridos e mais lidos dos nossos leitores.

Quem não se lembra dos seus Fragmentos da Memória ou os Especiais sobre tantos e diversos temas, como Os primórdios da Fé, Rio Alva, Dioceses de Portugal… um trabalho notável de investigação histórica e etnográfica, entrelaçando passado, presente e futuro, mostrando a riqueza do nosso património e a beleza da nossa paisagem.

Fica aqui expressa uma gratidão imensa pelo seu legado de valor incalculável. Será uma perda difícil de colmatar. Apesar desta despedida, a porta continua aberta e oxalá nos possa ainda brindar com mais alguns fragmentos do seu imenso saber.

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