Cristãos divididos?

Dia 06 de setembro de 1922: dezoito sobreviventes da circum-navegação da Terra desembarcam em Sanlúcar de Barrameda e, de vela na mão, vão, em romaria, ao santuário de Nossa Senhora agradecer a proteção do céu.

Pouco ou nada sabiam, supomos, do que acontecera na Europa durante os três anos da longa viagem.

Martinho Lutero fora excomungado e, na Dieta de Worms (1521), condenado como um fora-da-lei. Dentro de uma conjuntura política favorável, as três grandes palavras de ordem proclamadas pela Reforma Luterana, Deus, a Escritura e a graça, foram a mensagem acolhida por muitas pessoas que esperavam uma Igreja merecedora de confiança.

O papa Francisco, durante a viagem de retorno da Arménia, em entrevista, assim se expressou:

Acredito que as intenções de Lutero não tenham sido erradas, era um reformador, talvez alguns métodos não foram corretos, mas naquele tempo, vemos que a Igreja não era propriamente um modelo a imitar… E por isso ele protestou, era inteligente e deu um passo adiante justificando por que o fazia.

Lutero deu ênfase à doutrina da justificação mediante a fé na vida do crente; o reformador Calvino também acreditava nisto, mas para ele em primeiro lugar está a absoluta soberania e a glória de Deus, que determina para os homens a salvação ou a condenação. O justo juízo de Deus é algo inatingível pela nossa razão; por isso, a nós compete uma atitude de submissão.

Igreja Ortodoxa

A Reforma Protestante quebrou a unidade da Igreja ocidental. Antes disso, no entanto, já houvera um “Grande Cisma”.

A mudança da capital imperial de Roma para Constantinopla (330), a divisão do Império Romano (395), disputas eclesiásticas e teológicas colocaram em confronto a igreja romana e a igreja grega. Em 1054, a excomunhão recíproca (anulada em 1964) cominada pelo Legado Pontifício e pelo Patriarca de Constantinopla oficializou o cisma entre o Ocidente e o Oriente cristãos.

A Igreja Ortodoxa, uma das três expressões mais importantes do cristianismo, está consciente da sua integral continuidade com a Igreja do primeiro milénio, a dos mártires, dos Padres e dos sete concílios ecuménicos.

Estrutura-se por uma “eclesiologia de comunhão”: as igrejas locais (autocéfalas, isto é, autónomas) reúnem-se, por intermédio de seus respectivos bispos, para verificar e assumir a comunhão.

Ao longo de sua história, até à conquista de Constantinopla pelos Turcos (1453), predominou o cesaropapismo, isto é, a subordinação da Igreja ao imperador. A tensão profética para o fim último foi, então, preservada pelo monaquismo, exemplo de acolhimento e paternidade espiritual, e pela liturgia, tão rica em símbolos e majestade.

Igreja Católica

O termo “Católico” significa universal. Em sua acepção teológica, indica que a Igreja de Cristo é universal na sua vocação de abraçar toda a humanidade. No uso sociológico corrente indica apenas uma parte da Igreja de Cristo, a que reconhece a jurisdição universal do bispo de Roma, o Papa.

A Igreja Católica admite que, ao longo de suas etapas – também influenciadas por dados contingentes da história – apresentou contradições e o que disse e fez no decurso da história nem sempre foi conforme à palavra de seu fundador. Mas a certeza da assistência do Espírito Santo confere-lhe a convicção de permanecer, ao longo dos séculos, fiel ao essencial da mensagem do Evangelho, apesar dos erros de pensamento e de ação.

Ao longo 2000 anos de história, sofreu várias adaptações, sem trair as origens.

A “apostolicidade”, uma de suas características, tem origem no testemunho dos Apóstolos, sendo função dos bispos (epíscopo = vigilante) vigiar para manter a fidelidade às origens.

No decorrer dos séculos, a Igreja adquiriu o rosto do tempo e da cultura em que vivia: judaico-cristã na Palestina, romana no Império Romano, acolheu os povos bárbaros na Idade Média e, hoje, está presente em todo o mundo. Tornou-se “católica” (universal) porque, sem abdicar do cerne e do coração de sua mensagem, adaptou-se a diferentes culturas e tradições. Nas palavras do teólogo Andrea Grillo: “A Igreja não se reconhece como uma história fechada, como um museu de verdades a conservar, mas como um jardim a cultivar”.

Como a seiva que dá força e energia, tem uma “Tradição” a conservar e cuidar. Abraça uma ‘Antropologia confiante’ segundo a qual a obra do homem, ao criar uma sociedade fraterna, contribui para a edificação do Reino de Deus através do amor mútuo. Os que ligaram o seu destino ao de Cristo pela fé formam um Corpo místico, onde Cristo é a cabeça: corpo vivo do qual participam os fiéis na terra e os que estão com Deus, pela “Comunhão dos Santos”.

Pelo Batismo o crente torna-se membro do seu Corpo, pela Eucaristia partilha, em comunidade e na caridade, da “refeição do Senhor”.

Extra Ecclesiam, nulla salus, dizia-se, tempo atrás, em latim: “fora da Igreja não há salvação”. Agora, o Papa Francisco insta a Igreja a sair de si mesma, já que “os males que se dão nas instituições eclesiais têm raiz na autorreferencialidade, uma espécie de narcisismo teológico”, ao colocar, acima de tudo, a afirmação de si mesma.

“Reconstrói a minha Igreja”, foi o que o crucifixo pediu a Francisco de Assis: o mesmo pedido é dirigido não só ao Papa Francisco, mas a toda a Igreja. A reconstrução da Igreja nada mais é que um retorno às origens evangélicas. A saída, a “evangelização”, significa “ir às periferias, não só as geográficas, mas também as existenciais: as do pecado, as da dor, as da injustiça, as da ignorância e indiferença religiosa, as do pensamento, as de toda a miséria”.


Foto da capa: Virgem da Victoria à qual os sobreviventes da viagem foram rezar à chegada. Antes de partir, pelo menos Magalhães, também a visitou. Encontra-se na Igreja de Santa Ana, em Sevilha. A igreja onde se encontrava, no sec. XVI, já não existe. Foto de CarlosVdeHabsburgo |Wikimedia Commons.

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