A escravatura é um assunto do passado?

Aprendemos na escola que os portugueses deram novos mundos ao mundo, estudámos a viagem do Gama, decorámos versos épicos e vimos mapas com bandeirinhas ou padrões, que certificam os lugares distantes que nos pertenceram.

Contaram-nos e reproduzimos com orgulho a narrativa de euforia e coragem com que iniciámos a primeira globalização. Assumimos a responsabilidade poética pela cor mulata, sem ler nela mais do que a expressão do encontro de raças diferentes, até então distantes. E dizemos de peito aberto que o português é uma das línguas mais faladas no mundo.

Tudo isto faz sentido e é legítimo pensar-se, mas isto não é o tudo. Não é, sabemos hoje, a história toda, o discurso unívoco, o passado glorioso, o caminho de uma só via, a felicidade coletiva.

Na cor mulata de homens e mulheres de seiscentos a novecentos está amiúde inscrita a história de um encontro que não foi de paz; nos lugares distantes que “nos pertenceram” está registada uma imposição à força; da primeira globalização fazem parte a morte, a prisão, o saque, o apagamento de culturas, a escravatura.

O que sabe atualmente um estudante do secundário sobre a escravatura? O que sabe um jovem adulto? O que sabemos nós? Provavelmente o que vimos nos filmes ou em algum programa de televisão, o que estudámos na escola como um subcapítulo do grande tema dos Descobrimentos: muito pouco. Sabemos que Portugal iniciou o tráfico de escravos de África para o Brasil, “mas também foi o primeiro país a abolir a escravatura”. Que fraco consolo esse… Que fácil desculpa na balança da nossa moralidade histórica e da nossa tranquilidade presente.

Em 2017, houve um grupo de cidadãos, ligados às plataformas SOS Racismo e Descolonizando, que se insurgiu contra a inauguração de uma estátua ao Padre António Vieira (1608-1697), no Largo Trindade Coelho em Lisboa, acusando-o de ser um “esclavagista seletivo”. Em 2018, a proposta constante do programa eleitoral do presidente da câmara de Lisboa, Fernando Medina, para a construção de um “Museu das Descobertas” foi assunto de debate por causa da eventual localização, do conteúdo expositivo e sobretudo por causa do nome do futuro museu.

A polémica chegou “lá fora”, incluindo um artigo no jornal inglês The Guardian (17-9-2018, assinado pela jornalista Jenny Barchfield).

Para muitos, discutir se devemos continuar a usar a palavra “Descoberta” quando nos referimos ao período das navegações marítimas iniciadas no século XV pelos portugueses, ou recusar a homenagem ao Padre António Vieira, são exageros deslocados e tresloucados, é dar prioridade a detalhes linguísticos ineludíveis e desviar a nossa atenção de matérias mais urgentes.

Consigo identificar-me com estes pontos de vista. Todavia, é minha convicção que não podemos deixar de ouvir essas vozes que exigem continuar a pensar e debater sobre o passado colonial, que não podemos ignorar a necessidade de conversar sobre ele, de o estudar sem preconceitos, quiçá de reescrever (com mais matizes, com mais vozes, com mais factos, com maior visibilidade) a narrativa simplista do “bom colonizador”.

A escravatura moderna de que falamos brevemente a propósito deste especial sobre os 500 anos da viagem de circum-navegação não é a única forma de subjugação dos seres humanos conhecida e praticada ao longo da história (infelizmente, não é sequer apenas um assunto do passado e de geografias distantes).

Não arrumemos o lado disfórico do nosso passado nacional como um assunto fechado. Não é necessário vivê-lo como um combate visceral, mas é justo não esquecer as mulheres e homens a quem, noutros tempos, fundamentalmente por terem a pele de outra cor que não a do branco europeu, foi retirada a humanidade (e com ela a dignidade, a esperança, o lugar, o direito…).

É justo não esquecer hoje os que se sentem seus herdeiros e que querem falar, finalmente vêm para o espaço público e têm de ser ouvidos, porque têm algo a dizer, algo que jamais foi dito ou que nunca escutámos. A escravatura é um assunto do passado, mas falar sobre ela tem de ser do presente. Com tempo, sem medo.


Foto da capa: Cova da Moura – Foto de Marta Lança. http://www.redeangola.info.

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