O horizonte do bem comum

Podemos dizer que a Rede Cuidar da Casa Comum nasce, também ela, para dar corpo ao desafio que vem da Doutrina Social da Igreja ao lermos o conceito do Destino Universal dos Bens da Terra, que nos leva a uma opção preferencial pelos pobres e que nos reforça a vontade pelo sentido de corresponsabilidade que daqui advém.

Sentido de corresponsabilidade a que o Papa Francisco nos interpela diretamente com o seu apelo para que nos envolvamos ativamente no Cuidado pela Casa Comum:

Hoje, crentes e não crentes estão de acordo que a terra é, essencialmente, uma herança comum, cujos frutos devem beneficiar a todos.

(LS 93)

Não podemos ficar indiferentes! Temos que agir! E agir tendo como medida o bem comum.

Em 2003, os Bispos portugueses escreveram a nota pastoral “Responsabilidade solidária pelo bem comum”, que tocava a vida em aspetos muito concretos do bem comum: a saúde, a educação, a participação na vida pública, o trabalho, a exigência ética pedida ao mercado, o papel dos meios de comunicação, a defesa do ambiente e, inclusivamente, os comportamentos na estrada. Os Bispos colocavam-nos o bem comum como o horizonte de toda a vida social.

Laudato Si’ – cuidar do mundo ferido em prol do bem comum

Em 2015, o Papa Francisco oferece-nos a Laudato Si’, onde nos deixa um forte alerta para o mundo ferido pela nossa ação, mas não deixando de dar voz a uma esperança de que podemos dele Cuidar ao mudarmos os nossos comportamentos e atitudes, em prol do bem comum.

Para uma ética do cuidado

School strike 4 climate - Greve climática estudantil.
School strike 4 climate – Greve climática estudantil.

O que vemos à nossa volta entristece-nos chegando, por vezes, a roubar-nos a esperança e a alegria por vermos a facilidade com que a dignidade da vida de tantas pessoas é esquecida ao serem privadas da sua própria casa e cultura, privadas do acesso à educação, privadas de viver a sua espiritualidade em liberdade, … e tudo por mais um metro quadrado de terra, de petróleo, de poder.

É aqui que entra o princípio de que nos fala o Papa Francisco de que a ecologia integral é inseparável da noção de bem comum (LS 156).

E esta Ecologia Integral pede-nos uma forma diferente de olhar o Mundo, alargando o conceito de Ecologia e expandindo a sua intervenção ao ser humano e à sociedade.

Recentra o nosso olhar nas relações que criamos, mantemos ou cortamos e exige uma transformação da forma como nos relacionamos connosco próprios, com os outros seres humanos e com a restante natureza.

Uma transformação no centro da qual deve estar uma ética do cuidado que nutra as relações que estabelecemos dentro dos nossos ecossistemas (familiar, comunitário, global) e que faça germinar sementes de transformação social (Caderno de Viagem, FGS), ética essa que necessita de ser lida, conhecida, aprendida e praticada.

É-nos igualmente pedido que olhemos o estado de saúde das instituições, pois também este tem consequências no ambiente e na qualidade da vida humana: “toda a lesão da solidariedade e da amizade cívica provoca danos ambientais” (LS 142).

Torna-se assim urgente refletir estruturalmente sobre a forma como vivemos e nos relacionamos enquanto sociedade.

Movemo-nos pela esperança, mas conscientes da necessidade de questionar e criar formas alternativas de pensar e agir para crescermos e termos um mundo que seja expressão de Justiça Social, de Democracia e de Sustentabilidade, tendo como princípio o Bem Comum (Carta Aberta para a Transformação Social) e convivendo com a natureza não como uma mera moldura da nossa vida (LS 139), mas como parte de cada um de nós e de nós todos.


Foto da capa: Marcha Climática antes da Conferência sobre Alterações Climáticas, da ONU COP23, em Bona, Alemanha, 4 de novembro de 2017. EPA / OMER MESSINGER.

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