Encontro de religiões

Atravessado o Oceano Pacífico, três navios da expedição chegaram, finalmente, à terra que o capitão chamou de Ilha dos Ladrões. António Pigafetta, repórter da expedição, relatou dia após dia a viagem, a morte de Magalhães num combate com nativos, o comércio realizado e até a língua dos povos contatados.

Retrato de Pigafetta, repórter da expedição de Fernão Magalhães (1519-1522). Foi um dos 18 sobreviventes da viagem de circum-navegação.
Retrato de Pigafetta, repórter da expedição de Fernão Magalhães (1519-1522). Foi um dos 18 sobreviventes da viagem de circum-navegação.

Pigafetta foi um dos 18 que retornaram a Espanha, legando à posteridade o registo da “aventura”.

Os portugueses dominavam o comércio e o contacto com os reis locais. Magalhães ia ao serviço do rei da Espanha. Pigafetta conta que o rei de Tadore,

fez com que trouxessem o seu Alcorão e… afirmou, na presença de todos, que jurava, por Alá e pelo Alcorão que tinha nas mãos, querer ser sempre amigo fiel do rei da Espanha.

Pigafetta não opina nada a respeito de religião, chama os povos encontrados de Gentili (gentios ou pagãos).

Nas Filipinas, submetidas mais tarde a Espanha, tornou-se dominante o cristianismo; no entanto, a vizinha Indonésia é hoje o mais populoso país de maioria islamita no mundo. O rei que jura “per Allah e per lo Alcorano” declara-se seguidor do islamismo. Os “missionários” que difundiram a mensagem de Maomé nestas terras foram os comerciantes árabes vindos da Índia.

O Islamismo não tem um clero; a sua simplicidade e abrangência tornam-na um sistema de vida completo.
Geralmente a sua chegada significou para o povo… um sentimento de libertação social. Esta grande humanidade é, indubitavelmente, um dos principais fatores do sucesso da comunidade islâmica em absorver povos de diversos tipos, da Espanha à Indonésia e da Mongólia à África Equatorial.
(Trevor Ling)
Tornar-se muçulmano significa aceitar a fé fundamental ao declarar: “Atesto que não há outro deus senão Deus e atesto que Muhammad é o seu enviado”. O crente anuncia a sua fé em Deus, nos mensageiros de Deus (os profetas do Antigo Testamento e Jesus) e nas Escrituras. A Revelação concluiu-se no Alcorão que Alá revelou a Maomé, o último e definitivo profeta. Nas palavras de um islamita:
Os muçulmanos seguem uma religião de paz, misericórdia, perdão e a maioria nada tem a ver com os eventos extremamente graves que ficaram associados à sua fé.

Voltando à narrativa de Pigafetta, aprendemos que o rei da “Gran China” é o “maior de todos no mundo”. Nada mais acrescenta a respeito dos chineses, adeptos do confucionismo e do budismo.

O Budismo é uma resposta a questões existenciais como “Por que sofrem os homens?” ou “Como acabar com o sofrimento?”.
O objetivo de Sidarta Gautama (Buda), ‘professor viajante’, não visava estabelecer uma religião, mas ajudar as pessoas a superarem a infelicidade e o sofrimento. Antes de tudo é necessário reconhecer que a dor é universal e a causa disso reside no desejo de coisas que não podem satisfazer o espírito. O sofrimento extingue-se ao renunciar a esses desejos, cuja raiz é a ignorância. Uma vez “iluminado” (ao se tornar um “buda”), abre-se um caminho que leva a um ideal de vida em que a bondade flui da pessoa para os outros seres, sem limitação. “O ódio não termina com o ódio, mas com o amor”, dizia Buda. É o que expressa o ‘sutra da bondade’, atribuído ao próprio Buda:
Todos os seres vivos… nascidos ou por nascer, possam todos ser felizes…
Que ninguém deseje o mal para outra pessoa, por raiva ou por ódio.
Como a mãe vela o filho, disposta a arriscar a vida para proteger o único filho, da mesma forma, com um coração sem limites, devemos tratar com carinho todos os seres vivos, derramando no mundo inteiro uma bondade sem limites…
Desligada de especulações, pontos de vista e desejos dos sentidos, com a visão clara, uma pessoa assim jamais renascerá nos ciclos de sofrimento.

Confúcio, o sábio mestre, tinha preocupações práticas, não místicas. Ensinou um código social de comportamento rígido e completo, baseado nos costumes e na reciprocidade dos deveres. O princípio fundamental é a “regra de prata”: “Não faças aos outros o que não queres que te façam a ti”. Contemporâneo de Confúcio, o mítico Lao-Tsé, foi o inspirador do Taoismo, no início vivenciado como um modo de vida e escola de pensamento, evoluindo e organizando-se mais tarde como religião com rituais e sacerdotes.

Na viagem de volta, Pigafetta revela: “Rumamos a oeste sudoeste com medo dos portugueses…”. Nova rota, longe da Índia, mas Pigafetta, narrando “o que lhe disseram”, acena ao sistema de castas indiano: um brâmane – membro da casta sacerdotal, que Pigafetta chama de ‘Nairi’ – pediu que o matassem para não ficar com a desonra pelo fato de um membro de casta inferior – que chama de ‘Poleo’ – ter esbarrado nele. O sistema de castas (atualmente rejeitado pela Constituição Indiana) foi justificado pela sua origem divina: afinal, o dalit, o pária, o ‘intocável’ veio da poeira debaixo do pé de Brahma, o deus que representa a força criadora ativa no universo.

O Hinduísmo não tem um fundador nem um credo estabelecido; não possui estruturas eclesiásticas ou institucionais particulares. A ênfase está mais na maneira de viver do que na maneira de pensar.
O hinduísmo, parte integrante da história e cultura da Índia, “é mais uma cultura do que um credo”, afirma Radhakrisnan. Um paradoxo, para nós ocidentais, são os 33 milhões de deuses de que falam as escrituras do hinduísmo e o facto de todos os teólogos hindus insistirem na unicidade de Deus. A multiplicidade não é vista como politeísmo: os deuses são simples caminhos para um contacto com “aquele que é Único [Brahman], conhecido pelos sábios por muitos nomes” (Rg-Veda). Brahman é a “existência infinita e absoluta, o somatório total do que é, foi e será, realidade imutável idêntica à que se encontra na base da essência do homem”. A compreensão pelo indivíduo humano dessa identidade entre o seu próprio espírito ou eu (Atman – alma individual) e o espírito ou Eu do mundo (Brahman) é objetivo da reflexão dos sábios hindus.
O Hinduísmo, a terceira maior religião do mundo (cerca de 1 bilhão de fiéis), é provavelmente a mais complexa, ao englobar diferentes tradições religiosas. Alguns princípios que unem os hinduístas são a pertença ao sistema de castas, a veneração pela vaca (símbolo vivo da Mãe-Terra e das riquezas que esta concede à humanidade), a crença no carma (as consequências das ações dentro de uma existência) e na reencarnação, até chegar à libertação final (moksha) do ciclo do renascimento e da morte.


Foto da capa: Figurantes filipinos vestindo trajes tradicionais carregam uma imagem do Menino Jesus durante o Grande Festival ‘Sinulog’ marcando a festa do Menino Jesus na cidade de Cebu, Filipinas, 19 de janeiro de 2019. A imagem do Santo Nino foi o presente de Fernão de Magalhães para o primeiro católico filipino Rajah Humabon. EPA/ALECS ONGCAL.

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