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Celebração da fé e construção do projeto europeu

Estamos em pleno tempo pascal o que nos pode levar a pensar, e bem, que este é o tempo privilegiado para continuarmos concentrados nas coisas de Deus. Se tivemos a quaresma para prepararmos bem a celebração da Páscoa, então agora é o tempo para nos concentrarmos verdadeiramente nessa celebração.

A este propósito gosto de chamar a atenção para aquilo que, por vezes, identifico como sendo uma das patologias da nossa maneira de celebrar a Páscoa. É que muitas vezes gastamos tantas energias a prepará-la bem que já poucas sobram para verdadeiramente a celebrar. Explico-me um pouco melhor, para que esta afirmação acabe por não soar tão estranha como ao princípio parece.

Prepara a Páscoa para a viver e celebrar intensamente

Se olharmos com atenção para as atividades realizadas pelas nossas paróquias no tempo da quaresma e no tempo pascal, ficaremos a perceber, sem grande dificuldade, que a maioria delas se concentra no tempo quaresmal. Para isso quase que basta fazer um mero exercício de contagem. A partir daí, e tendo consciência de que aquilo que afirmo não se fundamenta em nenhum inquérito científico, atrevo-me a dizer que as propostas de atividades a realizar em tempo quaresmal andarão pelo dobro daquelas que são depois realizadas durante o tempo pascal, sendo exatamente a esse nível que eu identifico a tal patologia anteriormente referida. Na verdade, não me parece fazer muito sentido gastar a maioria das energias na preparação de algo para o qual, depois, já não resta tanta força nem disposição para celebrar. Preparar bem as celebrações sim, mas prepará-las para depois as celebrar e viver intensamente. É aí, no meu entender, que devemos concentrar as nossas energias.

Da contemplação à ressurreição na história e no ser humano

Dito isto, retomo a ideia inicial: este é o tempo para nos concentrarmos ainda mais nas coisas de Deus. Mas também aqui a afirmação precisa de ser balizada para não induzir ninguém em erro. Concentrarmo-nos nas coisas de Deus, não significa, para mim, concentrarmo-nos em Deus esquecendo tudo o resto, ou, pelo menos, pondo-o em segundo lugar. Pelo contrário, concentrar-nos nas coisas de Deus significa concentrar-nos nas coisas que importam a Deus, aquelas que ocupam para ele o primeiro lugar. E chegados aqui não podem restar muitas dúvidas, o mundo, a história, o ser humano são aquelas realidades que ocupam o foco da sua atenção. A melhor maneira de celebrar o tempo pascal passará, então, por contribuir para que a dinâmica da ressurreição possa marcar de uma maneira mais real aquelas realidades. Celebramos a Ressurreição, não simplesmente para ficarmos concentrados na sua contemplação agradecida, mas para a fazermos acontecer em tudo aquilo com que Deus se preocupa.

Chamados a votar o futuro da Europa

A esse nível o mês de maio traz consigo interpelações às quais não podemos, de modo nenhum, ser indiferentes. Vamos ser chamados a pronunciar-nos numas eleições europeias que se apresentam como sendo das mais importantes de toda a história da Europa. No momento em que muitos se questionam sobre o futuro do projeto europeu, lembrando, e bem, que ele não pode ficar nas mãos de uns quantos ‘técnicos burocratas’ e ‘profissionais da política’, estas eleições surgem como oportunidade privilegiada para que cada um possa assumir o seu protagonismo e as suas responsabilidades nesse mesmo projeto. Uma das maneiras de fazê-lo, e essa é um direito de todos, é através do exercício livre e consciente do voto. O momento em que a Europa se encontra está a exigir de todos os seus cidadãos uma intervenção mais preocupada e responsável, na linha de que um futuro que deve ser para todos todos, por todos deve ser construído. Não me parece ser mais possível, nem sustentável, que cada um (países e indivíduos) pense e aja só a partir dos seus interesses. Neste contexto, o património que a reflexão cristã foi sendo capaz de construir à volta de categorias como o bem comum, a fraternidade, a solidariedade e a subsidiariedade, para só referir algumas, parece-me poder ajudar a alargar os horizontes do debate e da construção europeia.

Não quero confundir os planos dando a entender que a celebração da fé se possa reduzir a uma intervenção cívica. De modo nenhum! A celebração da fé é também, não pode deixar de o ser, memória agradecida do dom recebido. Mas porque aquilo que celebramos é a “explosão da vida”, não podemos deixar de fazer que essa memória agradecida se traduza em ações que geram vida nova e diferente. A celebração deste tempo pascal está, pois, no meu entender, a interpelar todos os cristãos a uma participação mais ativa na construção do projeto europeu. A maneira como formos capazes de estar presentes nos diálogos e debates que vão acontecer, bem como o protagonismo que formos capazes de assumir nas decisões que são necessárias tomar, dirá muito do modo como entendemos e vivemos o dom precioso da nossa fé.

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