Reeducar o olhar

Em 2019, escrever um texto sobre a religião dos povos indígenas pode ser um exercício de síntese simplificadora de mais de 500 anos de história global ou, em alternativa, ser uma oportunidade para nos depararmos com os paradoxos dessa mesma história e procurarmos reaprender cinco séculos de relação desigual. Ou melhor, começar a reaprender.

Quando me pus a ler textos que me pudessem ajudar a escrever estas linhas (que seriam sobre a religião dos povos indígenas) tornou-se evidente que estava perante a segunda hipótese. Hoje, já não é possível contar de novo aquela narrativa de fascínio e paraíso, de encontro original do homem com o Outro em estado “puro”. Hoje, temos de reconstruir detalhes lutando contra o reducionismo, temos de usar a linguagem na sua plenitude. Não é preciso reinventar a língua, ela é plástica e fértil, ela sabe superar-se e pôr-se ao serviço. Mas é necessário não termos medo de substituir as palavras, de repensar os conceitos, reconhecer agentes da história que ficaram na sombra, dar-lhes a dignidade do seu nome, ao mesmo tempo que reconsideramos o presente.

De certa maneira, somos ainda descendentes próximos dos europeus de quatrocentos e de quinhentos, que procuraram nos povos agora conhecidos a “inocência” não estragada pela civilização, que viram nos “selvagens” gente fácil de cristianizar por “não terem qualquer crença”, evangelizando “precipitadamente”, que se sentiram atraídos pela promessa de paraíso terrestre, fascinados pela função que aqueles lugares e aquelas gentes podiam ter para a felicidade própria. Foi o início de um “processo de apropriação” do Outro, nas palavras de Lima da Silva (2003), “inventariando e inventando” o exótico, transformando o estranho em algo possível de ser “imaginado e decifrado” pela Europa.

Mas na verdade já não estamos nesses séculos distantes e, cidadãos educados do século XXI, homens e mulheres que procuramos ser partícipes de um mundo mais justo, que se faz a partir das histórias de todos e não a partir de um enredo monolítico, contado pelo poder (o poder do homem branco cristão ocidental), dizia eu, homens e mulheres que procurarmos um mundo melhor, estamos perante um desafio que ultrapassa estas páginas.

É uma tarefa de gerações, em que devem assumir responsabilidade ativa os sistemas de ensino, os meios de comunicação social, os discursos políticos, a literatura e as artes plásticas, as intervenções académicas, a nível nacional e internacional (sobretudo europeu). Um dos desafios maiores será, porventura, o de reeducar o olhar; não para sair do lugar desde o qual vemos o mundo, mas para nos obrigar a enxergar um espaço mais amplo, aberto, ao mesmo tempo fundo e claro.

Relendo as afirmações acima, noto a predominância dos verbos começados com o prefixo re-, com o seu sentido de repetição: reaprender, reler, reconstruir, reinventar, repensar, reconhecer, reeducar… Trata-se de um prefixo que tem também a noção de começar de novo. Recomeçar, porém, não é começar do zero. Temos 500 anos de passado; todavia, o clamor do presente é que todos, seres humanos, nos vejamos diferentes mas cúmplices, e que saibamos hoje olhar para aquém e além mar, onde quer que estejamos porque, na verdade, podemos estar em qualquer lugar.

%d blogueiros gostam disto: