Frei Agostinho da Cruz

Nasceu na vila minhota de Ponte da Barca, no ano já distante, de 1540. Foram seus pais João Rodrigues de Araújo e Catarina Bernardes Pimenta. É irmão de outro grande poeta lírico Diogo Bernardes. Passou algum tempo na casa do príncipe D. Duarte, neto do rei D. Manuel I. Faleceu na cidade de Setúbal (com 79 anos), no ano de 1619.

O apelo religioso leva-o a experimentar a vida de frade arrábido, faz o noviciado no Convento de Santa Cruz de Sintra e a sua primeira profissão, de votos simples, a 3 de maio de 1561. Naquele pequeno convento e na mata circundante, continua o êxtase pela poesia de inspiração profundamente religiosa, deixando-nos sonetos de grande beleza e de paixão pela cruz. Neste ambiente de pura meditação e profunda pobreza, viveu no encantamento da meditação durante quatro décadas.

Entretanto, pede aos superiores e é-lhe dada autorização, para experimentar a beleza, o encanto e o “encontro” com a natureza da Serra da Arrábida e a profunda sonolência do mar azul envolvente. Naquele ambiente tão natural e quase “celestial” a sua veia poética exprime-se em odes, elegias, sonetos e éclogas de grande beleza e harmonia. O mistério da cruz, o desejo de partir para o céu, a presença do Deus Criador naquela serra são expressões de uma alma orante que se purifica com o chilrear dos passarinhos naquele “canto” da hora de prima.

Não temos conhecimento das suas poesias profanas antes de entrar como noviço de Santa Cruz de Sintra. A hipótese levantada, com alguma veracidade, é que ele as tenha destruído.

Para podermos adquirir e estudar a poesia deste frade arrábido e conhecer a sua mensagem, o departamento de cultura da Câmara de Setúbal constituiu um núcleo de colóquios sobre a poesia deste frade, que identificou assim o local onde vivia: “Alta Serra deserta, donde vejo as águas do Oceano duma banda e doutra, já salgadas, as do Tejo”.

Assim escreveu Sebastião da Gama:

O mais difícil não é ir à Arrábida (…) Difícil, difícil, é entendê-la: porque boas praias, boas sombras e boas vistas há-as em toda a parte para os bons banhistas, os bons amigos do bom comer, os bons turistas; o que não há em toda a parte é a religiosidade que dá à Serra da Arrábida elevação e sentido. (…) Mas é fora de dúvida que o visitante, se não o apreendeu, saiu da Arrábida sem sequer ter entrado nela verdadeiramente! Vá sozinho, suba ao Convento, que é onde o espírito da Serra converge e como que ganha forma, leve, se quiser, os versos de Agostinho (…) e experimente como afinal é fácil estar a sós com Deus”, escreveu Sebastião da Gama.


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