Dar razões de viver e de esperar

Podemos legitimamente pensar que o destino futuro da humanidade está nas mãos daqueles que souberem dar às gerações vindoiras razões de viver e de esperar.

Gaudium et Spes, 31

Talvez esta pequena citação não seja reconhecida por muita gente. Provavelmente ela até pode ser considerada uma afirmação sem grande relevância e passar mesmo desapercebida aos leitores. E, no entanto, estas linhas são retiradas do nº 31 de um dos documentos mais relevantes para a comunidade cristã. Refiro-me à Constituição Pastoral Gaudium et Spes (sobre a Igreja no mundo atual) do Concílio Vaticano II. Este texto, juntamente com as outras três Constituições – Sancrosantum Concilium (sobre a sagrada liturgia), Lumen Gentium (sobre a Igreja), Dei Verbum (sobre a revelação divina) – constituem aquilo que podemos chamar os pontos cardeais a partir dos quais a Igreja pode hoje continuar a mapear a sua reflexão e ação no mundo, não só no momento presente, como também no futuro.

Que futuro estamos a construir?

É aliás ao pensar no futuro que esta citação me veio à memória. A verdade é que os acontecimentos que ultimamente têm chegado ao nosso conhecimento praticamente todos os dias não nos podem deixar indiferentes à pergunta pelo futuro. Que futuro estamos a construir? Em vários locais e de um modo gratuito e imprevisível alguém, em atos que nos deixam perplexos, decide começar a disparar ferindo e matando todos aqueles que se atravessem à sua frente. Os locais são diversos, as motivações aduzidas são igualmente díspares, o perfil dos que disparam também varia. E as cenas, despertadas também por um certo mimetismo, vão-se repetindo, ficando todos com aquela sensação de que isto pode não ser apenas passageiro, mas tenderá a repetir-se.

Certamente que estas situações são muito complexas e estão a exigir a convergência de muitas atenções e de muitas ações concretas para podermos lidar com elas. As soluções, sabemo-lo todos, não são fáceis nem rápidas. Mas também todos sabemos que não podemos continuar indiferentes, limitando-nos apenas a lamentar o que acontece e a preparar-nos para eventuais situações destas.

Cada um por si

Os crimes, e estes acontecimentos são crimes, devem ser denunciados e punidos enquanto tais. Contudo, isso não nos deve impedir de ver mais fundo, na tentativa de procurar captar as grandes razões que podem estar na sua base. Elas são certamente muitas e variadas, de modo que nenhuma delas, por si só, é capaz de dar uma explicação cabal ao que estamos a presenciar.

No entanto, parece-me a mim que algo de muito relacionado com o sentido da vida e da esperança está bem latente neste momento histórico que estamos a viver. Quando a esperança num futuro comum é posta em causa, então para muitos não vale a pena apostar nem pensar nos outros, já que cada um deve fazer o que puder por si e pelos seus, e quanto mais rápido melhor.

As comunidades cristãs não se podem demitir

Julgo que a dinâmica deve ser outra, tem mesmo de ser outra e marcada pelo desafio da esperança. Aqueles que souberem dar razões de viver e de esperar, esses terão uma palavra decisiva a dizer em relação ao futuro. E nisso as comunidades cristãs não se podem demitir. Se assim o fizerem pecarão por omissão, silenciando uma voz que não deveria deixar de ser ouvida. Mas para isso terão de estar muito atentas à vida das pessoas, ao que são as suas alegrias e esperanças, bem como as suas tristezas e desânimos concretos, para que a sua proposta possa ser verdadeiramente interpelante e significativa, para que possa ser sentido de futuro. E ao afirmar isto, sou de novo remetido para a Gaudium et Spes que, logo no seu início, nos diz algo que não podemos nunca esquecer:

As alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje, sobretudo dos pobres e de todos aqueles que sofrem, são também as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos discípulos de Cristo; e não há realidade alguma verdadeiramente humana que não encontre eco no seu coração.

Gaudium et Spes

Documentos do Concílio Vaticano II

Os documentos do Concílio II (1962-1965), dividem-se em Constituições, Declarações e Decretos. As Constituições podem ser dogmáticas ou pastorais e tratam de assuntos fundamentais da nossa fé.

São 4 as Constituições do Concílio Vaticano II, sendo as duas primeiras Dogmáticas e as outras duas Pastorais:
DV – Dei Verbum (Sobre a Revelação Divina);
LG – Lumen Gentium (Sobre a Igreja);
SC – Sacrosanctum Concilium (Sobre a Sagrada Liturgia da Igreja);
DS – Gaudium et Spes (Sobre a Igreja no Mundo atual).

As Declarações são 3:
GE – Gravissimum Educationis (Sobre a Educação Cristã);
NA – Nostra Aetate (Sobre a Igreja e as Religiões não-Cristãs);
DH – Dignitatis Humanae (Sobre a Liberdade Religiosa).

Os Decretos determinam o cumprimento de decisões a respeito de determinado assunto.
São 9 os Decretos do Concílio:
AG – Ad Gentes (Sobre a Atividade Missionária da Igreja);
PO – Presbyterorum Ordinis (Sobre o Ministério e a Vida dos Sacerdotes);
AA – Apostolicam Actuositatem (Sobre o Apostolado dos Leigos);
OT – Optatam Totius (Sobre a Formação Sacerdotal);
PC – Perfectae Caritatis (Sobre a Conveniente Renovação da Vida Religiosa);
CD – Christus Dominus (Sobre o Múnus Pastoral dos Bispos na Igreja);
UR – Unitatis Redintegratio (Sobre o Ecumenismo);
OE – Orientalium Ecclesiarum (Sobre as Igrejas Orientais Católicas)
IM – Inter Mirifica (Sobre os Meios de Comunicação Social).

Encontra todos estes documentos em:
http://www.vatican.va/archive/hist_councils/ii_vatican_council/index_po.htm

Valorizamos a opinião dos nossos leitores...

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.

Mensageiro de Santo António
%d bloggers like this: