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Conversas com Carlos Fiolhais – 3

Terminamos estas conversas com Carlos Fiolhais falando sobre o que a ciência pode e não pode dizer sobre a origem e o fim do universo, a origem do mal, o amor e o belo.

O que é que a ciência, hoje, sabe sobre a origem e o fim do universo?

A origem, nós hoje estamos convencidos, pelos dados que temos, de que houve uma origem. Não podemos dizer como foi, é um ponto a que chamamos de singularidade, terá começado por aquilo que podemos designar por Big Bang, uma grande explosão, embora não no sentido químico.

Um sistema que estava muito denso, com muita energia concentrada, fica menos denso e essa energia dispersa-se. Pelos dados que temos, e em ciência temos que nos basear nos dados recolhidos, o fim do mundo não será o contrário disso. Tudo indica que a expansão vai continuar, parece que até é acelerada e não se sabe bem qual é a causa disso. Então haveria início do mundo, mas não haveria fim do mundo, em sentido cósmico, o mundo seria semi eterno.

E que consequências tem isso para a vida humana? A humanidade também teve um início?

O mundo tem 14 000 milhões de anos, a vida terá 4 000 milhões de anos. Forma-se aqui esta estrela, o sol, a terra tem a mesma idade do sol, e não é muito posterior à formação da terra que aparece aqui a vida.

O homem é difícil definir quando é que começa, isso é um grande problema da ciência. Parece que o começo é gradual, há várias espécies que identificamos através de fósseis, há, inclusive, um sacerdote jesuíta, o padre Teillard de Chardin, que andou a desenterrar ossos humanos na China, era paleontólogo; Há, portanto, um esforço dos paleontólogos para saber a origem do homem e todos os anos aparecem novidades nessa área, mas, podemos dizer, em números redondos, que o homem terá cerca de 1 milhão de anos.

E qual é o nosso fim como espécie?

O que a ciência pode dizer sobre isso é que estamos dependentes da energia do Sol. O Sol teve um início há 4 000, 5 000 milhões de anos, está mais ou menos a meio do seu tempo de vida e, portanto, daqui por 4 ou 5 000 milhões de anos o Sol apagar-se-á e deixará de haver condições para haver vida na Terra. Ou seja, o universo está a expandir-se e a ficar mais frio, mas também nós, aqui, aquecidos por esta fogueira que é o Sol, vamos perder a fogueira e vai ficar frio e sem energia é impossível a vida na Terra. A não ser que até lá consigamos salvar a espécie criando um Sol artificial ou reanimando aquele Sol. Isto já é ficção científica da mais avançada, mas temos 5 000 milhões de anos para pensar no assunto.

Falando da espécie humana, acho que todos podemos concordar que o homem é capaz de cometer ações que podemos considerar eticamente reprováveis. Será que a ciência pode dizer algo acerca da origem do mal?

O comportamento humano tem manifestações que podemos considerar malévolas, quando temos comportamentos anti sociais, quando entramos em guerra com o outro, quando ferimos a dignidade do outro, ou mesmo matamos… e a história humana está cheia de conflitos. A questão é qual é a origem disso? Há quem estude a história evolutiva humana e tente perceber os mecanismos, quer individuais, quer coletivos, em termos psicológicos e sociológicos… porque convém ao individuo viver gregariamente em conjunto com outros e a certa altura formam-se comunidades que não são uniformes, são locais, ocupam um certo território, têm crenças comuns, são unidas (religião significa ligação), mas a certa altura há um outro grupo, num outro local, que tem um outro tipo de ligações, crenças diferentes, costumes diferentes, tradições diferentes, línguas diferentes… e a ciência pode tentar perceber, mas não é fácil, como estes antagonismos apareceram e evoluíram.

Mas eu penso que há dimensões nesta questão do dever, daquilo que se deve fazer, da questão da ética, que são dimensões que estão para além da ciência. Não significa que a ciência não procure explicar, não se aproxime, porque a ciência não deve ter tabus. De facto, sempre que pusemos entraves à ciência, a ciência sempre procurou ir além dessas barreiras. Não vale a pena pôr barreiras, porque a ciência é a nossa vontade de conhecer. Mas as respostas que encontramos são respostas precárias e há certos assuntos, por exemplo a ética, em que as respostas são muito fragmentadas e não respondem a essa questão fundamental donde vem o mal.

E o amor, que liga duas pessoas ou um grupo de pessoas, donde é que vem o amor?

Podemos tentar, na ciência, buscar mecanismos do amor, da paixão… com certeza que acontecem coisas biológicas, quando há ligação entre duas pessoas que se apaixonam, mas será que estamos a descrever o fenómeno em toda a sua complexidade? Na relação entre dois amantes, no amor entre pais e filhos, podemos descrever isso cientificamente? Eu estou convencido que não… parece-me que a ciência será incapaz de descrever certos fenómenos e ainda bem; porque é que a ciência há-de ser a única dimensão. A ciência convive com outras dimensões, a ética, a religiosa, a dimensão estética…

O que é que a ciência tem a dizer sobre o belo?

Pouco. Ou qual e a diferença entre o belo e o feio. A ciência pode tentar estudar, mas chegaremos à conclusão que está muito aquém do inexprimível do belo… Porque é que ficamos impressionados por uma obra de arte, uma peça musical, um romance, um poema, o que é que nos toca ali? Com certeza que há ali um fenómeno que poderá ter uma aproximação do tipo científico, mas que será sempre um pouco redutora e oxalá que seja, porque seria muito mau viver num mundo em que a ciência tivesse explicações abrangentes e até totalitárias e não houvesse mais enigmas…

Fale-nos do seu trabalho de divulgação da ciência e investigação da história da ciência.

Divulgação… sempre fiz, sempre gostei de comunicar ciência, levar a ciência a todos independentemente da idade. Ultimamente colaborarei em várias obras que são um esforço coletivo, das quais destacaria:

  • A Arte de Criar Paixão pela Ciência, que é um diálogo com o jornalista José Jorge Letria.
  • Entre Estrelas e Estrelinhas, inclui um CD com canções do poeta José Fanha e do músico Daniel Completo. Eu fiz o prefácio e algumas introduções. É um livro para crianças a partir do primeiro ciclo.
  • Na Colectânea Obras Pioneiras da Cultura Portuguesa, publicamos a obra Primeiro Tratado de Física, do padre oratoriano Teodoro de Almeida, do século XVIII, que é o primeiro livro de Física escrito em português.
  • Jesuítas Construtores da Globalização, edições CTT.
  • Portugal Católico, que foi oferecido ao Papa por ocasião da sua visita a Portugal.
  • Dicionário dos Antis, uma obra coletiva onde se fala de anticientismo, antiatomismo, antifascismo, é um retrato da cultura portuguesa, mas visto em negativo, todos os antis que possamos imaginar.

Carlos Fiolhais
Carlos Fiolhais

Carlos Fiolhais: Fundou e dirige o Centro de Ciência Viva Rómulo de Carvalho. É Professor Catedrático de Física da Universidade de Coimbra. Fundou e dirige o blogue De Rerum Natura. Tem uma atividade intensa de divulgação e educação científica na imprensa, rádio e televisão.

2 comentários em “Conversas com Carlos Fiolhais – 3”

  1. Parabéns por esta iniciativa,extremamente valiosa sob múltiplos pontos de vista.
    Isabel Jardim

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