Uma Pietá que cantava

Era uma vez uma Pietá que chorava a cantar.

Nunca a ouvi queixar-se.

Na sua terra, era parteira. Não das diplomadas, porque não teve instrução alguma. Não sabe ler nem escrever; mas reconhece as letras quando estão juntas e, por isso, distingue as embalagens dos medicamentos. Teve de lidar com muitas embalagens de medicamentos.

Foi parteira, das chamadas curiosas. Nunca lhe morreu bebé algum. E até teve alguns casos estranhos, como o de um menino, muito pequeno e muito magrinho, que nasceu sentado, todo enrolado sobre si mesmo. Esse foi o que lhe deu mais trabalho. Parecia que não queria nascer, que estava contrariado. Fazia uma força!!

Ajudou a nascer muitas crianças e a fazer de muitas mulheres mães.

Nem sempre tudo corre bem.

O seu último filho nasceu com problemas graves. Os médicos do hospital disseram-lhe: aqui não o podemos ajudar, não temos meios – tem de ir para a Portugal. Os pedidos foram feitos – de hospital a hospital. A criança tinha de vir para Lisboa.

Era uma vez uma Pietá que chorava a cantar.

Foi obrigada a deixar para trás a vida que tinha para poder tratar do seu benjamim. Os restantes filhos espalharam-se pelo mundo – só um ainda está na ilha.

Os anos foram passando. Os tratamentos e cirurgias sucederam-se.

A saúde não chegou. A pobreza não partiu.

Recebe três euros por hora.

Nunca a ouvi queixar-se.

Um dia (melhor dito, uma tarde), sucedeu o pior. E ele até estava bem! Ele andava bem! Só lhe apareceu um pouco de tosse, levei-o ao médico. Disseram que era uma gripe. Mas não; não era gripe, era a morte.

Entrou no quarto e percebeu que algo se passava. Com efeito, em pouco tempo, o filho ficou inconsciente; morreu-lhe nos braços, enquanto o marido saía para pedir ajuda.

O meu menino morreu, parecia que estava a dormir – até a vizinha disse! Parecia que estava a descansar. Metade do corpo estava gelada, a outra metade a ferver.

Era uma vez uma Pietá que cantava. O seu rosto não era claro nem jovem, como o rosto da Pietá de Miguel Ângelo, mas tisnado e curtido pela vida.

Com a família à volta, na sala, entoava: Onde está o meu menino? O menino não volta para a sua mãe. Afagava uma cabeça imaginária e as notas iam traduzindo os rasgões que lhe abriam o peito.

Eu sei que ele tinha este problema de nascença. Como Maria, esta Pietá preparou-se durante toda a vida do seu filho para o último suspiro deste. Mas Pietá alguma está suficientemente preparada para o instante derradeiro.

Todos estão graves. Família, vizinhos, amigos. O marido olha-a, impotente, e pergunta, com delicadeza, se ela já consegue largar a camisola do filho, enrolada à volta do pescoço. Ainda não, ainda é cedo. Depois. Depois. Há tempo.

E torna a cantar.

Pietá Rondanini (1564), escultura inacabada de Michelangelo, Museu de Arte Antiga, Milão, Itália, Foto de Sailko, commons.wikimedia.org.
Pietá Rondanini (1564), escultura inacabada de Michelangelo, Museu de Arte Antiga, Milão, Itália, Foto de Sailko, commons.wikimedia.org.

Era uma vez uma Pietá que chorava a cantar.

Tirei da mala um terço. Um terço de Fátima. Foi benzido? Sim, foi. É um terço de madrepérola e gostaria de lho oferecer. A dor parece aliviar. É a melhor coisa que me podia oferecer! Às vezes pensava em comprar um terço pequenino, daqueles que agora se veem muito.

O dinheiro não chega; três euros por hora – boa parte para a farmácia e para o dia-a-dia.

Vou rezando o terço quando vou e venho do trabalho, no autocarro. Conto pelos dedos. É a melhor coisa que me podia oferecer. Muito obrigada!

Ainda não consegui ir a Fátima. Um dia, juntei dinheiro e paguei uma excursão, mas faltou o tempo e decidiram ir para a Nazaré, para ver o mar. Que me interessava ver o mar? Cresci a olhar para ele!

Era uma vez uma Pietá de carne e osso, sangue, suor e lágrimas. Pela primeira vez, lágrimas.

Sempre grata pelo que tinha. Nunca a ouvi queixar-se.

Foi preciso ver a terra cobrir a sepultura para dizer com voz serena e magoada: A vida é triste.

A fé e a esperança não anulam o desgosto.

Ela sabe, porque me disse, ela sabe que carregou a cruz do seu filho, a sua doença. Ela sabe. Mas sabe também que agora lhe falta um pedaço.

Amparada de ambos os lados, já caminhando, de costas para a sepultura, suplica bem alto olhando o céu: Jesus e Maria, ajudem-me a carregar esta falta que tenho no coração!

Era uma vez uma Pietá que chorava a cantar. No céu, um anjo olha por ela.


Foto da capa: Pietá do Vietnam, na Ilha de Jeju, Coreia do Sul, no 42º aniversário do fim da Guerra do Vietnan. Criada por organizações cívicas e religiosas sul-coreanas para consolar as almas de mães e crianças vietnamitas vitimadas por soldados sul-coreanos durante a guerra.

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