Sombra Silêncio

Assim descreve Carlos Poças Falcão, numa breve nota final, os poemas reunidos em Sombra Silêncio:

Cançonetas de um Verão que logo passam, mas que para sempre ficam ligadas à memória mítica de um rosto, de um clima, de um lugar – assim estes poemas. Em caso algum me biografei. Mas em todos eles me vejo e me estranho.

O poeta vimaranense oferece-nos nestes poemas, numa linguagem sóbria e despojada, um caminho de entrega e confiança pessoal onde Deus surge como um tu, em ritmo e entoação sálmica. O desejo de oração e de escuta entrecruza-se com a nostalgia de um espaço de silêncio e de confiança, onde o corpo e os sentidos são uma abertura ainda por purificar na busca do Mistério. Nota-se um registo pessoal, de leitura do percurso já feito, meditado, em que a noite e o dia se entrelaçam numa sociedade em que o brilho das luzes e o ruído das comunicações pedem um outro tipo de olhar e de escutar, de palavras e de gestos.

O Mistério revela-se como Sombra e como Silêncio, apontando-nos páginas bíblicas como a do episódio de Elias na montanha (1Reis 19, 12), ou da Anunciação a Maria (Lucas 1, 35). Nos ritmos preenchidos e aparentemente caóticos do quotidiano, a poesia surge-nos como um convite à simplicidade da linguagem, à leitura demorada das letras e dos sinais, à vigilância diante do Mistério que visita o nosso real. Sombra Silêncio contém, sem dúvida, esse convite.

Foi numa dessas horas que descobri que Deus
não passa bem sem mim – o que não me indigna
e também não me alivia da grande liberdade. Afinal
ser homem para Deus é o sabor inicial.


Carlos Poças Falcão, Sombra Silêncio, Operaomnia

Sombra Silêncio
Autor: Carlos Poças Falcão
Edição: Operaomnia
Páginas: 64

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