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Se queres a paz, prepara a paz!

O ditado latino soa muito claro: “Se queres a paz, prepara a guerra”. Passados dois milénios, temos que admitir a falácia deste ditado e a necessidade de substituí-lo por outro: “Se queres a paz, prepara a paz”.

Foi o Papa Paulo VI que assumiu a paz como parte importante do anúncio da Boa Nova, quando propôs, a 1 de Janeiro de 1968, celebrar o primeiro dia do ano como o Dia da Paz:

Dirigimo-nos a todos os homens de boa vontade, para os exortar a celebrar o Dia da Paz, em todo o mundo, no primeiro dia do ano civil. Desejaríamos que cada ano, esta celebração se viesse a repetir, como augúrio e promessa de que a vida humana seja marcada pela Paz, com o seu justo e benéfico equilíbrio.

O Papa Francisco abordou, este ano, o desafio da política: “A boa política está ao serviço da paz”. Enveredar pelos caminhos da política para promover a paz é um caminho pedregoso e difícil, num tempo em que os conflitos são uma pesada nuvem sobre o mundo. Basta um simples olhar.

Um olhar sobre os conflitos atuais

A primeira coisa a dizer é que os conflitos não têm fim.

  • Síria: 5,6 milhões de refugiados e 6,5 milhões de deslocados, milhares de mortos e um mar de destruição.
  • Afeganistão: um enorme campo de batalha, uma guerra civil, sem fronteiras “porque a fronteira está no pensar e sentir de cada pessoa”.
  • Rohingya e Myanmar: a limpeza étnica de 1 milhão de refugiados no Bangladesh.
  • Sudão do Sul: 50 mil mortos, quatro milhões de refugiados, uma sangrenta guerra civil e o recrutamento de crianças soldados.
  • Conflito Curdo-Turco: 40 mil mortos neste longo martírio desde o início do conflito há 35 anos.
  • Somália: um conflito iniciado em 2011, desencadeado pelo al-Shabab, com mais de 150 ataques violentos também no Quénia.
  • Iémen: tensão entre sunitas e xiitas que causa o maior cenário de fome no mundo com 8 milhões sob risco de desnutrição e de doenças graves; para não falar dos 15 mil mortos entre a população civil.
  • Israel: A terra onde Jesus nasceu está perenemente em conflito e os muros que estão a ser construídos atestam como são difíceis os caminhos da tolerância e do perdão.
  • Nigéria: luta sem tréguas entre cristãos e muçulmanos com mais de 10 mil mortos e milhares de refugiados.
  • Iraque: cerca de 70 mil mortos atestam que a guerra não pode ser caminho para a paz.
  • Líbia: 430 mil refugiados e uma crise humanitária longe de solução.
  • Mali: instabilidade sem fim à vista.
  • Burundi: mais de 280 mil refugiados e mais de mil mortos.
  • E isto para não falar da Tailândia, do Tibete, das Honduras, da Nicarágua, da Venezuela e das ameaças entre as grandes potências.
Aviões militares sobrevoam a Cidade Velha de Jerusalém. Foto EPA/ATEF SAFADI.
Aviões militares sobrevoam a Cidade Velha de Jerusalém. Foto EPA/ATEF SAFADI.

Um olhar de esperança

Péguy escreveu:

A esperança é uma menina que arrasta tudo consigo. Porque a fé só vê aquilo que é, mas ela, ela vê aquilo que será. A caridade só ama aquilo que é. Mas ela, ela ama aquilo que será.

O Papa Francisco na sua Mensagem de Paz abre um olhar de esperança e de confiança no homem e nos políticos “bem-aventurados” capazes de fazer da difícil arte da política um compromisso real na transformação do viver coletivo.

Dá a mão a essa criança-esperança quando convida a eliminar os vícios da política que

colocam em perigo a paz social e são a vergonha da vida pública, a negação do direito, a falta de respeito pelas regras comunitárias, o enriquecimento ilegal, a justificação do poder pela força, a tendência a perpetuar-se no poder. A xenofobia, o racismo, a recusa a cuidar da terra, a exploração ilimitada dos recursos naturais… o desprezo pelos que foram forçados ao exílio.

Um compromisso pessoal

Mas não é só o poder que tem responsabilidade. “Cada um pode contribuir com a própria pedra para a construção da casa comum”. Neste tempo de tantos conflitos visíveis e latentes, que ameaçam explodir a qualquer momento, urge construir a paz. O Papa termina a sua mensagem confiando que o homem pode mudar os caminhos de violência em caminhos de paz através duma verdadeira conversão:

A paz é uma conversão do coração e da alma – diz o Papa Francisco – com três dimensões indissociáveis: a paz consigo mesmo, a paz com o outro e a paz com a criação.


Foto da capa: Encontro do Papa Francisco com Nadia Murad, ativista iraquiana yazidi, defensora dos direitos humanos e Prémio Nobel da Paz de 2018. Foto EPA/Vatican Media.

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