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Plácido Cortese, mártir do silêncio

Plácido Cortese (1907-1944) foi frade franciscano na Basílica de Santo António, em Pádua. Foi diretor da revista Mensageiro de Santo António e morreu mártir por ter salvo a vida a centenas de judeus e refugiados durante a Segunda Guerra Mundial.

Com uma estratégia artística, o padre Plácido, durante anos, utilizou as fotos dos ex-votos, que os fiéis deixavam no túmulo de Santo António, para confecionar documentos falsos e permitir assim a muitos passar a fronteira e pôr-se a salvo na Suíça.

Mas o preço a pagar foi atroz. Morreu sob tortura e o seu corpo foi disperso na Cidade de Trieste, Itália. Apesar das torturas, o padre Plácido nunca revelou os nomes das pessoas que protegera, autêntico mártir do silêncio.

Hoje, deste frade resta um lugar entre os heróis silenciosos que “salvando uma vida – como recita o Talmude – salvam o mundo inteiro. É de verdade fantástica esta vocação marcada pelo martírio, extremo sinal de uma vida totalmente entregue ao Senhor e aos irmãos como frade e como sacerdote.

A infância e a vocação

Frei Placido Cortese com a irmã e uma prima.
Frei Placido Cortese com a irmã e uma prima.

Nasce na belíssima ilha de Cherso, na Ístria, a 7 março 1907. Desde criança, conhece os Frades Conventuais, pois estes têm um convento na ilha. Aos 13 anos, decide entrar no seminário dos franciscanos, perto de Pádua. Aqui estuda, joga, reza, cresce e confirma-se no seu desejo de se tornar frade franciscano!

Depois do noviciado, em Pádua, aos 17 anos, consagra-se ao Senhor professando os votos de pobreza, castidade e obediência, na Ordem dos Frades Menores Conventuais. É grande a sua alegria, ao ponto de que, numa carta aos familiares, escreve que está pronto “a dar a vida” pela fé, “até mesmo a morrer no meio dos tormentos como os mártires”.

Prossegue os estudos filosóficos e teológicos e, a 6 de junho de 1930, em Roma, é ordenado sacerdote. O seu primeiro lugar de apostolado é numa paróquia em Milão. Passados sete anos, em 1937, regressa a Pádua como diretor do Mensageiro de Santo António. São anos de grande empenho, em que com grande habilidade (é um homem muito inteligente e preparado) faz com que o jornal atinja a incrível tiragem de 800.000 cópias.

A guerra

No dia 1 de setembro de 1939, Hitler invade a Polónia dando assim início à segunda guerra mundial. Também a Itália fascista de Mussolini, em 10 junho 1940, declara guerra aos aliados: é o conflito total, uma guerra que causará cerca de 50 milhões de mortos.

A Pádua chegam milhares de prisioneiros de guerra, prisioneiros políticos, soldados aliados capturados pelos nazis e pelos fascistas. Muitos são Eslovenos e Croatas, depois que Hitler e Mussolini invadiram aqueles territórios.

Na localidade de Chiesanuova, perto de Pádua, havia um enorme campo para estes prisioneiros, que chegaram a ultrapassar os três mil. Entre estes, bem depressa o padre Plácido se torna conhecido e procurado: visita-os frequentemente com a sua bicicleta, fala a língua deles (muitos vêm da sua terra, a Ístria); traz documentos, alimento, pão, cartas e embrulhos dos familiares, escondendo tudo debaixo da sua túnica.

Em 8 setembro 1943, a Itália retira-se do pacto com a Alemanha e assina o armistício com os anglos americanos. É uma Itália dividida em completo caos.

O Padre Cortese, mesmo sendo diretor do Mensageiro de Santo António nunca se aliou com os fortes. Não era um revolucionário, nem sequer neutral. Seguia simplesmente o Evangelho partilhando a sorte dos extraviados, procurados e perseguidos: não pode fazer de conta que não se está a passar nada!

O que faz o Padre Plácido?

De modo absolutamente secreto (mesmo muitos frades não sabiam da sua ação), dedica-se a salvar Judeus, cujo extermínio Hitler prosseguia; ajuda a fugir os soldados que deixam o exército para não serem capturados pelos nazis; socorre os civis prisioneiros de guerra e os militares aliados que fugiam dos campos de detenção, protege os refugiados eslovenos e croatas, que os alemães consideravam comunistas.

Entre os perseguidos pelos nazis em Pádua, rapidamente se espalha a notícia de que um caminho de salvação é possível, graças ao padre Plácido Cortese da Basílica do Santo. Apesar de saber que está a correr enormes riscos e de ser aconselhado para se afastar de Pádua, ele não abandona os irmãos em cativeiro; a sua consciência obriga-o a enfrentar também estes riscos: não pode escapar!

Assim, do convento, continua a sua obra, não obstante alguns entre os seus mais estreitos colaboradores terem sido presos e, outros, por medo o terem abandonado.

As suspeitas dos alemães, o cárcere e o martírio

Durante vários meses a rede de ajuda que o Padre Plácido tinha montado, juntamente com vários colaboradores, corre muito bem e várias centenas de prisioneiros são ajudados a fugir. Os alemães, porém, descobrem e prendem duas colaboradoras, que são enviadas para a Alemanha para um campo de concentração. Ao perceberem que o Padre Plácido Cortese é o cabecilha desta rede secreta, os alemães armam-lhe uma cilada e, no domingo 8 outubro, levam-no para a prisão, em Trieste. Entre 8 de outubro e 15 de novembro de 1944, consuma-se o drama do padre Plácido: interrogado e torturado, não revelou os nomes dos seus colaboradores, mesmo sabendo que isso lhe custaria a vida.

Escreveu um prisioneiro, companheiro de cela e testemunha da agonia do padre Cortese:

Padre Plácido era terrivelmente maltratado: tinham-lhe batido, agredido; a roupa rasgada e a cara cheia de sangue. Ainda tenho presentes as suas mãos deformadas e juntas em oração. Encorajava-me para que permanecesse fiel à fé, confiasse em Deus e a não traísse ninguém.

Janez Ivo Gregorc

O célebre pintor esloveno Anton Zoran Music, por um mês prisioneiro nas celas das torturas da Gestapo, em Trieste, depois deportado para o campo de concentração de Dachau, reevocando a figura de Pe. Plácido Cortese, confiou ao companheiro de campo Janez Ivo Gregorc:

Recordo-me que no bunker da praça Oberdan havia um sacerdote, um certo padre Cortese. Eram visíveis no seu corpo os sinais das torturas. Vi-o pela primeira vez quando nos levaram todos da sede da polícia para as fotografias de cadastro. No casaco havia uma grande mancha de sangue. Tinham-no espancado duramente. Era uma pessoa extraordinária. Tinha um comportamento manso e cheio de esperança. Rezava sempre, a meia voz. Tinham-lhe partido os dedos. Impressionava-me a sua vontade audaz de resistir. A firmeza e a fé daquele pequeno e frágil padre, que não se rendeu, nem traiu ninguém.

Padre Plácido Cortese tinha 37 anos e oito meses. Deu a sua vida por amor, em silêncio, para defender os seus colaboradores e os seus irmãos perseguidos.

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