Não a ti, Cristo, odeio ou menos prezo

Não é fácil inserir a escrita e a personalidade de Fernando Pessoa – uma das escritas mais fecundas que a Europa conheceu no século XX – no quadro de um sistema ou de uma definição. Do mesmo modo, também não é possível definir em termos fechados a sua experiência religiosa – não deixando de ser real e palpável.

Nesta coletânea de textos organizada pelo editor Manuel S. Fonseca encontramos um percurso onde a figura de Jesus Cristo tem um lugar próprio: um lugar irreverente, absolutamente pessoal e marcado por um diálogo por vezes íntimo, por vezes quase infantil, e por vezes angustiado. Cristo surge, na pluriforme escrita de Pessoa, ao lado da rica tradição grega (não é caso único: veja-se a poesia de Sophia Andersen) e em marcação cerrada com o que de menos válido a face institucional da Igreja transmitiu. Trata-se da experiência de um Cristo morto fora dos muros da cidade santa e do seu templo, de um Cristo que ensinava nas margens do lago ou que curava os leprosos nos caminhos da Galileia. No seu diálogo jesuânico, Pessoa releva as contradições do mundo – aparentemente cristão e embriagado de um progresso violento e injusto – e da sua própria alma. Contradições que também o leitor poderá sentir.

Transportamo-nos mais depressa dum ponto ao outro. Trocamos palavras mais rapidamente através da distância. Vestem-nos tecidos vindos de muito mais longe. Mas nem um grão mais de felicidade veio ter connosco. Nem uma gota mais de ciência refresca a nossa fronte. Se olharmos para o fundo do que sabemos, do que temos, do que somos, vemos que, perante o mundo e a vida, a nossa visão não é mais lúcida nem mais calma, que não somos mais felizes, que o mundo da morte pesa sobre nós como decreto.


Fernando Pessoa, Não a ti, Cristo, odeio ou menos prezo, Guerra e Paz.

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