Escavar todos os poços

No momento em que escrevo estas linhas ainda estamos todos a tentar perceber qual será o desfecho daquela tragédia com o pequeno Julen, caído no interior de um poço. Todos tememos o pior, mas desejamos e esperamos o melhor.

E não ficamos apenas de mão cruzadas a desejar. Cada um, na medida das suas possibilidades, está a fazer qualquer coisa. Os meios disponibilizados para tentar chegar até ele o mais depressa possível são muitos. Uma região em suspenso, um país preocupado e todos quantos sabem da notícia estão a acompanhar.

Quando este texto chegar à mão dos leitores já saberemos o desfecho, se é que não o sabemos já. Mas milagres são sempre possíveis, dizemos todos, porque queremos o melhor e porque não seremos capazes de lidar bem com a sensação de não termos feito tudo o possível, de não termos feito tudo o que estava ao nosso alcance, para o resgatar daquele poço. E ainda bem que assim é, ainda bem que apostamos na vida das pessoas e que fazemos tudo para a preservar, cuidar, tratar.

Enquanto escrevo estas linhas, de novo nos chegam também notícias de mais mortes no Mediterrâneo. Aquele mar, tantas vezes chamado “Mar Nosso” (Mare Nostrum) só o tem sido para alguns. Aquele mar que pode ser visto como possibilidade de união entre povos e culturas, tem servido como barreira, como obstáculo intransponível para muitos. E o número dos que nele morrem, tentando-o atravessar para salvar a vida, não para de aumentar.

E aqui parece não nos pesar a consciência de não termos feito todos os possíveis, de não termos feito tudo o que estava ao nosso alcance.

Tenho consciência de que o que acabo de afirmar pode ser considerado impróprio e pouco feliz, porque, segundo muitos, não podemos comparar coisas que são completamente diferentes e tem implicações completamente distintas. Claro que há diferenças entre as duas situações, mas em ambas estamos a falar da vida de pessoas e isso, sim, deveria fazer toda a diferença.

De tanto ouvir falar em mortes no Mediterrâneo, de tanto nos alertarem para a complexidade geopolítica da situação, fomo-nos tornando insensíveis e fomos esquecendo o essencial. Não tenhamos dúvida, a maneira como formos capazes de cuidar da vida das pessoas, sobretudo daquelas que estão em situação de maior fragilidade, marcará indelevelmente o rosto da nossa humanidade.

Foto intitulada "Operação Mare Nostrum", do fotógrafo Massimo Sestini, da Itália, que ganhou o 2º prémio na categoria General News Singles, do 58º Concurso Mundial de Fotografia.
Foto intitulada “Operação Mare Nostrum“, do fotógrafo Massimo Sestini, da Itália, que ganhou o 2º prémio na categoria General News Singles, do 58º Concurso Mundial de Fotografia.

Neste número do Mensageiro iniciamos um especial que nos falará da celebração dos 500 anos da viagem realizada por Fernão de Magalhães. Com esse feito, no qual se enfrentaram enormes dificuldades e se venceram enormes desafios, também ao nível geopolítico, foi possível ver como o mar abriu passagem para um mundo novo.

Essa aventura pode hoje ser contada como uma das maiores da nossa humanidade, marcando-a de uma maneira definitiva. Nessa aventura, tivemos a ousadia de ir para além dos nossos medos e das geografias conhecidas e, por isso, fomos capazes de reconhecer novos horizontes.

Esse continua a ser o desafio, hoje, tenha ele a dimensão que tiver – um poço com dezenas de metros de profundidade ou um grande mar.

Essa viagem então iniciada, ainda não terminou completamente. Já não temos novos mares para descobrir, mas temos de tornar os conhecidos em mares novos, mares capazes de unir e ligar, capazes de aproximar os povos, capazes de nos ajudar a olhar, de novo, para o mundo, descobrindo-o como um mundo novo, onde sejamos capazes de fazer tudo o que estiver ao nosso alcance para promover e dignificar a vida das pessoas, de todas as pessoas.

Temos de fazer tudo o que estiver ao nosso alcance para que aquele mar possa ser verdadeiramente mar nosso, tal como temos de continuar a fazer tudo o que estiver ao nosso alcance para escavar todos os poços.


Foto da capa: Trabalhos de escavação para resgatar o menino de dois anos Julen, preso dentro de um poço, desde 13 de janeiro, na aldeia de Totalan, Málaga, sul da Espanha. Esta foi uma operação de resgate sem precedentes na Espanha pela sua dificuldade e magnitude. Infelizmente para o pequeno Julen demorou demasiado tempo. EPA / Daniel Perez.

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