Conversas com Carlos Fiolhais – 1

Era suposto ser uma entrevista de 15 minutos, mas sendo Carlos Fiolhais um conversador apaixonado pela ciência e pela cultura, as perguntas ficaram viradas do avesso e a conversa prolongou-se das questões ecológicas à ciência e à tecnologia, da origem e fim do universo à questão de saber se a ciência consegue explicar a origem do mal ou do amor, passando pela questão clássica da relação entre a ciência e a religião.

A certa altura disse que os jesuítas são pessoas muito simpáticas e inteligentes e lá conseguimos fazer a primeira pergunta: E os franciscanos?

Os franciscanos é diferente, são inteligentes e simpáticos.

Os franciscanos estão muito ligados à natureza…

Os franciscanos têm esta ligação muito forte com a natureza, com os animais, as plantas… Hoje, a ciência sabe sobre a unidade do mundo vivo, todos os seres vivos, sejam animais, sejam vegetais, estão unidos pela existência do código genético, pelo DNA (tudo se escreve com 4 letras) e, portanto, num certo sentido científico, somos irmãos das plantas e dos animais. Muito antes da genética já Francisco de Assis tinha tido essa intuição mística e pressentia que o homem era parte do mundo, algo, que de certo modo é hoje comprovado pela ciência. O problema que se põe nos tempos de hoje é quando nós perturbamos essa natureza de que fazemos parte.

Somos predadores…

e isso é um problema muito grande, que se coloca à ciência e à sociedade como um todo. O Papa, que aliás tem formação em química, escreveu uma encíclica muito, muito fundada na ciência…

Não achaste isso um bocado estranho para um Papa?

Não é normal, de facto, designadamente a maneira inequívoca como ele defende a existência das alterações climáticas, o facto de o homem ser o ator dessas alterações, mas ao mesmo tempo a capacidade (usando um termo religioso) a capacidade de redenção, a esperança de que se pode prevenir o pior.

O Papa prestou um grande serviço à humanidade, porque coloca um problema que é de todos e que só pode ser resolvido em comum (fala-se da casa comum da humanidade). Ele é dos pouco líderes que temos, hoje, que é um líder global. Temos as Nações Unidas, está lá o António Guterres, mas nós sabemos a dificuldade que há em impor resoluções ou mesmo em chegar a um acordo, por isso acho que o contributo dessa encíclica foi muito positivo, muito em particular o facto de estar fundada em boa ciência.

O que sugere que não há uma antítese entre a ciência e a religião…

Há pessoas que dizem que há, não tenhamos dúvidas, ainda há pouco houve um químico que veio a Portugal e que de um modo muito claro disse que as duas eram incompatíveis. Eu não penso que sejam. O homem é um ser complexo com várias dimensões que podem coexistir e nós vamos ver isso ao longo da história da ciência, até vamos encontrar cientistas que foram ao mesmo tempo pessoas de fé e até sacerdotes.

Na cosmologia, o padre Lemaître, é um dos autores da teoria do Big Bang, da teoria da criação no sentido científico, da origem do universo, que é a teoria consensual que hoje temos. O Papa da altura, até disse uma frase que Georges Lemaître considerou infeliz “lá está a ciência a provar o que está na Bíblia” e o padre Lemaître reagiu, e bem, tentando emendar o Papa e explicando “não, a ciência não se destina a provar a Bíblia, se a ciência tivesse chegado a outra conclusão tinha de ser honesta e dizer a conclusão a que chegava independentemente daquilo que estivesse na Bíblia”.

Até porque a Bíblia trata de outras questões…

Quem percebeu isso muito bem foi o Galileu Galilei, que é um dos pais da física, no século XVII. De facto, foi julgado pela inquisição, mas apesar de ter sido julgado, é muito curioso que não perdeu a fé, manteve-se católico, porque na cabeça dele, aquilo estava muito bem organizado “se Deus deu inteligência ao homem, a inteligência permite-lhe compreender as coisas da natureza e, portanto, não lhe teria dado inteligência se ela não pudesse ser exercitada”.

Ele tem uma frase famosa e até muito curiosa, “O Espírito Santo diz-nos como se vai para o céu, mas não diz como é o céu”. O céu está usado em dois sentidos diferentes. Não diz como é o céu no sentido astronómico, cosmológico, isso tem de ser a ciência a descobrir. Como se vai para o céu, a palavra céu está num outro sentido, teológico, que é a existência para além da vida.

Galileu teve um problema com a Igreja e esse problema causou grande infelicidade a todos, porque demorou muito tempo a ser resolvido; lembro que o Papa João Paulo II, já no século passado, mas 400 anos depois, reabilitou Galileu, dizendo que tinha havido um equívoco, dito de uma maneira simples, tratar-se-ia de um erro judicial, uma má avaliação.

O cardeal Ravasi, que é presidente da Congregação da Cultura, diz uma coisa muito curiosa “Galileu não foi apenas um grande cientista, mas mais do que isso foi também um grande teólogo”. O que é que ele quer dizer com isso? Quer dizer que ele sabia mais de teologia que os teólogos que o julgavam. Por outras palavras, tinha uma visão muito mais avançada, do que aquela visão redutora que diz que o que está na bíblia está certo e temos que interpretar a bíblia literalmente. O erro foi esse, se a Bíblia é ou não um livro de ciência, hoje sabemos que não é.

Mas há outra questão, que não podemos ignorar. A Igreja, hoje, não tem o poder temporal que tinha. Na altura, era a única instância que podia interpretar a Bíblia e proclamar que essa era a única interpretação possível.


(Continuaremos esta conversa nos próximos números…)

Carlos Fiolhais
Carlos Fiolhais

Fundou e dirige o Centro de Ciência Viva Rómulo de Carvalho. É Professor Catedrático de Física na Universidade de Coimbra. Publicou mais de 60 livros e participou em muitos outros, codirige as Obras Pioneiras da Cultura Portuguesa, é cronista regular do Público. Fundou e dirige o blogue De Rerum Natura. Com uma cultura invulgar, tem uma atividade intensa de divulgação e educação científica nas escolas, na imprensa, na rádio, na televisão e na Internet.

Mensageiro de Santo António
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