Jovens… e o Sínodo: caminho (d)e receção

No próximo mês de fevereiro, cumprir-se-ão dois anos de reflexão neste espaço em torno da realização do último Sínodo sobre “Os jovens, a fé e o discernimento vocacional”. Foi em fevereiro de 2017 que se fez um primeiro eco da apresentação pública do “diapasão” (“Carta aos jovens” do papa Francisco) e da “bússola” (“Documento preparatório”) que serviriam de orientação neste caminho sinodal.

Chegados a janeiro de 2019 e terminados que estão os trabalhos (formais) do Sínodo (a 28 de outubro passado), talvez seja chegado o momento de dizer: “O Sínodo acabou! Começa o Sínodo!”.

De facto, e tal como o papa Francisco nunca se cansou de dizer e lembrar ao longo deste período, este Sínodo começara muito antes de os senhores Bispos chegarem a Roma: dos questionários online, ao “Encontro Pré-sinodal” com os jovens, muito foi feito no sentido de alargar o espectro do debate sinodal para além dos “muros” eclesiásticos; e, de facto, como primeiro “fruto” desta “catolicização” (no sentido − estrito! – de universalização) da reflexão e caminho sinodais, foi possível chegar-se a um “Instrumentum laboris”, onde se notou uma linguagem e perspetiva concretas, proponente de uma dinâmica de trabalho exigente e propulsor efetivo de uma “nova forma de fazer” caminho sinodal, que não deixou, como também oportunamente se registou, de provocar algumas “novidades” no decorrer dos trabalhos.

Dizia, portanto, que este Sínodo não começou a 3 de outubro passado… e do mesmo modo deverá prosseguir muito para além do que por Roma foi dito e escrito até ao dia 28 desse mesmo mês. Para tal hão-de concorrer todas aquelas iniciativas que, a seu modo e no seu lugar e contexto cultural, eclesial e pastoral específico, o tornarão “efetivo e eficaz”. Assim, o tempo (sinodal) que (ainda) vivemos (não obstante outras “efemérides” ou “temas” que nos possam ser apresentados) pode ser teológica e pastoralmente definido como o da ”receção” do Sínodo.

Não sendo este o espaço mais adequado para um aprofundamento noético-teológico deste conceito, talvez baste citar as palavras de J. Willebrands que o apresenta como

um processo pelo qual o Povo de Deus, na sua estrutura diferenciada e sob a condução do Espírito Santo, reconhece e aceita novas perspectivas, novos testemunhos da verdade e suas formas de expressão (…). Na sua forma plena, a recepção envolve a doutrina oficial, a sua proclamação, a liturgia, a vida espiritual e ética dos fiéis, bem como a teologia como reflexão sistemática sobre esta realidade complexa. A recepção inclui, portanto, o ‘kerigma’, a ‘didaché’ e a ‘praxis pietatis’.

Neste contexto, quando afirmo que é agora que o Sínodo, verdadeiramente, começa, estou a exortar à constância neste “movimento”, a todos os títulos envolvente e necessariamente abrangente, que deve ser continuado (ou desencadeado, nos locais e instâncias onde possa estar “mortiço” ou nem sequer tenha sido ativado) de modo a que o que foi pensado, discutido e escrito pelos padres sinodais, em conjunto com os demais conselheiros, peritos, “observadores” e convidados neste longo período, possa ser agora alvo da maior atenção de todo o Povo de Deus e, em particular, daqueles e daquelas que nele têm especiais responsabilidades “de serviço”.

Para tal, e na parte que me cumpre enquanto “escrevinhador” destas linhas − e já que estamos em janeiro e é tempo de “projectar o futuro” − proponho-me apresentar, nos próximos tempos, uma (proposta de) “leitura comentada” do “Documento final” deste Sínodo, dando continuidade, deste modo, a este “caminho de reflexão sinodal” iniciado há um ano e potenciando, na medida do possível, a referida “receção” deste “evento-dinamismo” eclesial pensado e realizado para, com e pelos jovens.

Como sempre, não se espere, nestas futuras análises/reflexões, qualquer espécie de “escalpelização” absoluta dos 167 parágrafos (a que correspondem sensivelmente 60 páginas) do texto do referido Documento: o “resultado final” dessas futuras linhas estará mais próximo de um “guia de leitura/compreensão” do dito Documento (compaginada com os “tempos e lugares” que nos são dados viver neste “jardim à beira-mar plantado”) do que propriamente de uma versão “mastigada” e “pronta-a-comer” dos seus conteúdos. Pelo contrário: tentando evidenciar alguns aspectos que poderão escapar nas suas “entrelinhas”, tentar-se-á trazer luz sobre algumas das suas afirmações (ou silêncios) mais “problemáticos”.

Em suma, tentar-se-á dar a conhecer, divulgar, apresentar algumas das “linhas-mestras” com que o papa Francisco, os nossos Pastores (e certamente o Espírito Santo, assim cremos) apresentam àqueles que, na multiplicidade das paisagens das suas “estradas de Emaús”, ainda se mostram sensíveis e dispostos a escutar esta Palavra, a deixar que o seu coração se abrase com a voz do Senhor e a regressar à sua “Jerusalém” com renovada alegria e esperança (cfr. Lc 24, 13-36). Passarão por aqui, portanto, alguns ecos de uma “primeira recepção” do Sínodo entre nós. Pelo menos, assim espero.

Mensageiro de Santo António
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