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Habitar 2019

No princípio era o Verbo, e o Verbo estava junto de Deus e o Verbo era Deus.
[…]
E o Verbo se fez carne e habitou entre nós

Jo, 1, 1.14a

Certamente que durante as celebrações do Natal pudemos escutar várias vezes estas palavras. E pode acontecer que, por tanto já as ter ouvido, nos tenhamos tornado um pouco insensíveis à espantosa afirmação que elas contêm.

O que se diz, no fundo, é que Deus habitou (habita) entre nós e esta afirmação, aparentemente tão banal, aponta para uma novidade radical. Habitar é muito mais do que ocupar ou estar. A simples afirmação de que Deus estaria entre nós, por si só já seria uma enorme novidade, mas dizer que habita é ir muito mais longe. Quem habita, faz seu o lugar que habita. Não está simplesmente, não ocupa só. O lugar habitado é assumido como lugar de existência, mais, como lugar querido de existência. É nesse lugar que se está por inteiro e se vive por inteiro.

Se nos detivermos um pouco a pensar o exercício de habitar, perceberemos que é a partir dele que ‘mapeamos’ a nossa existência.

É a partir do sítio que habitamos que traçamos as coordenadas que nos permitem situar no tempo e no espaço. O Norte, o Sul, e todas as outras direções são perspetivadas a partir do lugar habitado. É também a partir dele que organizamos a nossa existência e movimentação. De manhã saímos do lar que habitamos e à noite regressamos para ele. As férias pressupõem, muitas vezes, ir para outro lugar, mas no fim regressamos ao nosso lugar de habitação. Talvez este exercício nos possa ajudar a perceber, um pouco melhor, o desconforto que muitas vezes somos capazes de perceber e intuir em lugares que apenas são ocupados, mas não são verdadeiramente habitados.

Deus habita a nossa história

Dizer que Deus habitou (habita) entre nós é, pois, afirmar que ele assumiu a nossa existência e a nossa história como sendo também suas. O mundo e a história convertem-se em território de ‘mapeamento’ da sua ação, lugar a partir do qual organiza e realiza a sua ‘movimentação’. A sua presença não é fugaz, não é aparente, não é provisória, nem circunstancial, é estrutural. Habitar a nossa história é, também, a maneira como é Deus para nós e connosco.

A realidade é o lugar onde Deus se manifesta e sai ao nosso encontro

Jornada dos migrantes, 15 de janeiro de 2017, Agenzia Romano Siciliani.
Jornada dos migrantes, 15 de janeiro de 2017, Agenzia Romano Siciliani.

Deste modo, se quisermos ser para Ele e com Ele, não resta outra possibilidade se não encontrá-Lo no mundo e na história. O mundo, a vida, a história, são então, para os cristãos, verdadeiro lugar teológico.

A revelação tornar-se-ia mais ‘opaca’ e ‘turva’, muito menos inteligível, ao contrário do que muitos possam pensar, sem discernir os sinais de Deus, os sinais dos tempos, na vida e na história. Sem o diálogo com o mundo, a história e a vida, ficaríamos privados de alguns dos elementos estruturantes da nossa fé.

A dinâmica da encarnação descarta a possibilidade de que possamos viver a experiencia de encontro com Deus desde o alheamento do concreto da história. Isso supõe a disponibilidade para assumir uma existência que procura ver e escutar a realidade como lugar onde Deus se manifesta e sai ao nosso encontro.

Em 2019, seremos chamados a intervir, através do nosso voto

Estamos a começar o ano de 2019. Certamente que neste início todos temos projetos traçados e estamos com vontade de os concretizar. Também vamos tendo uma consciência mais clara da necessidade de tomarmos certas decisões enquanto comunidade.

A esse propósito é bom não nos esquecermos de que seremos chamados, em várias ocasiões, a intervir através do nosso voto.

Como comunidade cristã somos, igualmente, conscientes de que temos de ensaiar caminhos de abertura que nos permitam estar presentes naqueles lugares e instâncias onde estão a ser forjados os novos paradigmas que irão marcar a nossa existência.

Habitar o ano de 2019 torna-se, assim, uma urgência. Não basta passar por ele, temos mesmo de o habitar, fazê-lo nosso, para nele podemos continuar as rastrear todos aqueles sinais que nos falam da presença de Deus e o podermos abrir a outros horizontes.

A experiência cristã de Deus que somos chamados a fazer neste 2019, tem de ser uma profunda experiência humana e humanizadora que habite verdadeiramente a história real na qual vivemos.

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