Mulheres em plena humanidade eclesial

Segundo Génesis 1, 26, Deus criou o ser humano à sua imagem e semelhança, sendo este ser plural na sua dualidade de macho e fêmea (1, 27).

Deus cria a primeira assembleia, não o primeiro homem ou a primeira mulher, mas a primeira humanidade, na forma dual – que não é dualista, redução estúpida – de dois seres com igual dignidade humana, pois são ambos precisamente atos do mesmo Autor. Nenhum é mais digno do que o outro, porque Deus os fez com a mesma dignidade, que lhes advém da sua imagem de Deus, por Deus neles posta, e da possibilidade da sua semelhança com Deus, por Deus dada como supremo bem – bem possível e de consequente responsabilidade humana, eclesial, em assembleia.

Semelhança que homem e mulher possuem entre si imediatamente assim que são tirados de seu nada por Deus: não é mérito dos criados, é mérito do criador. O mérito humano começa depois deste dom de mérito, que é mérito divino como dom.

Pôr em causa o mérito de qualquer deles, homem ou mulher, é pôr em causa o mérito de Deus, que assim os criou; é, pois, blasfemo em termos cristãos, embora não só cristãos, mas de todos os que partilham este Livro como palavra primeira de Deus.

Deixe-se bem claro: a partir do absoluto início do texto sagrado cristão, é blasfemo pôr em causa a dignidade de ser, quer de homem, quer de mulher.

Como assembleia mínima de dois criou, pois, Deus, imediatamente, a humanidade. Esta não é homem ou do homem e também não é mulher ou da mulher, mas comunidade de homem e mulher, que se realiza em plenitude quando tal assembleia, então, cidade ou reino de Deus coincide com a indefectibilidade dos atos de amor: atos de homem e de mulher, de todos os homens e de todas as mulheres, isto é, de toda a humanidade, isso que Deus criou para a possibilidade de bem próprio do criado, não de Deus. Tal assembleia será comunidade; e apenas ela merecerá tal designação.

Toda a menorização de qualquer destes seres, homem ou mulher, é menorização do ato de Deus, substituindo ao ato de Deus,assim considerado imperfeito, a arrogante imposição de sentenciosa perfeição do juiz humano, que corrige Deus, que é, segundo o seu juízo, inapto ou mau.

Sempre que se menoriza o estatuto do ser do homem ou da mulher, dos homens concretos ou das mulheres concretas, passa-se a Deus um atestado de incompetência ou de maldade. Mas, efetivamente, é a si próprio que tal estulto juiz humano – qual mesquinho satã de Job – passa carta de insensatez e de inconfessada impotência.

Deus, que cria homem e mulher, não tem medo de homem ou de mulher. Jesus ama Maria ao ponto de a metamorfosear em algoritmo celeste.

Na assembleia primeira que pristinamente cria, Deus põe no mundo a carne dupla de que todas as assembleias perfeitas terão de ser feitas, sob pena de, de outro qualquer modo, serem sempre cortadas a meio, corte que é sempre obra literal do diabo, invejoso e impotente satã em nós e a quem nós alimentamos, como inexistente mãe que assim somos ao aborto que é o amor recusado; recusado, em última instância ao próprio Deus, que criou para que se possa amar e se ame.

Então, se Deus criou a humanidade imediatamente como assembleia, isto é, ecclesia, igreja, como não haver Igreja em que homem e mulher estejam precisamente na igualdade de dignidade segundo o ser que Deus, ao criar a igreja de todas as igrejas que é a humanidade primeira, quis que fosse?

Como não ter a mulher, terem as mulheres, a mesma dignidade segundo o ser na Igreja, plena, total, transcendentalmente?

É esta a tarefa que falta cumprir, deixando de, constantemente, pelo descrédito na grandeza da criação divina, blasfemar contra o Pai criador. Tal blasfémia será a morte da assembleia.

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