Contemplação: “deferência, meditação, olhar para si ou para outrem”

Sou mulher de pedra e estão quentes os meus pés; sobe o fogo e o fumo, quase me alcançam. Me alumia e me aquece, este fogo a meus pés. Na batalha entre o fogo e as flores, ganha a chama – tão frágil, tão diáfana nas suas múltiplas formas. O vento flamante é mais quente do que o cheiro a vento das flores.

Às vezes, as flores não cheiram bem. São flores de água estagnada, em que a humidade e a inércia se misturaram. A meus pés: velas e flores. Mas não só.

Sou a mulher de pedra – ou de pau, ou de pó, de terra ou de argila. Mulher ao alto, lá de baixo me aquecem as velas, me perfumam as flores, me contam os homens. Cá no alto, distante, sou eu que ouço. Minha mão que se abre, meu peito que se fecha, meu colo que acolhe: das Graças, das Dores, da Piedade. Sou esta pedra e esta mulher, mas sou mais do que isso. Sou quem foi e quem queres que seja: exemplo, guia, inquietação, prova de amor, caminhante e caminho.

Daqui do alto, sou a mulher de pedra. Fogo e flores a meus pés, deixados pelos homens que por aqui passam, pousam como aves cansadas, e partem. Não são só eles que me olham, me temem, me culpam e me alcançam em graças e pedidos. Daqui do alto, sou eu que contemplo quem a mim se acerca ou quem de mim tem medo. Daqui do alto, sou eu que vejo. Que te vejo, te percebo e te amparo.

Mulher de pedra a olhar para ti.
Nossa Senhora a olhar por ti.

Nota: a voz de “mulher de pedra” deste pequeno texto é devedora da primeira voz narrativa do romance de Ana Margarida de Carvalho Não se pode morar nos olhos de um gato.

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