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Os desafios da missão no mundo de hoje

O mês de outubro, tradicionalmente dedicado à evangelização, convida, de novo, a Igreja a refletir sobre os desafios que se põem num mundo, marcado por uma rápida mudança.

O recomeço da vida pastoral faz-nos refletir, mais uma vez, sobre a tarefa irrenunciável da Igreja, isto é, a evangelização do mundo, “onde” e “como” anunciar hoje, pois esta é “a graça e a vocação própria da Igreja, a sua identidade mais profunda” (EN 14).

O inesquecível mestre da teologia e da pastoral contemporânea, Karl Rahner, disse, uma vez, que a agenda da Igreja é ditada pelo mundo: uma afirmação tão óbvia que, muitas vezes, corre o risco de ser obscurecida pela preocupação pela vida interna da Igreja e pelos seus problemas. Apesar de as indicações do Papa Francisco serem muito claras e os documentos “A alegria do Evangelho”, “A alegria do amor”, “Louvado sejas” e “Alegrai-vos e rejubilai” traçarem o caminho da missão da Igreja, persiste, todavia, a tendência de preocupar-se, antes de mais, com as comunidades e as suas exigências internas. Por isso, é importante e necessário interrogar-se sobre o que é que o mundo espera, quais são os desafios que o mundo coloca à igreja.

1. O pouco impacto da Igreja

O primeiro destes desafios consiste no pouco impacto que a Igreja tem no mundo de hoje. Muitos pensam que já não precisam dela, outros declaram que é ultrapassada e inútil, outros ainda não podem com ela e não a toleram. Isto faz nascer no coração de alguns cristãos a sensação de que ela seja insignificante.

Como conseguirá a Igreja recuperar a sua credibilidade e encontrar as palavras e o caminho para oferecer a mensagem evangélica e alcançar os extremos confins da terra, as “periferias existenciais” de hoje? Como conseguirá cativar os jovens de hoje para a sua mensagem e para a sua missão? Esta sensação de insuficiência e de “impotência”, que poderia lançar-nos no desânimo, oferece, pelo contrário, à Igreja o pontapé de saída para se dirigir ao mundo de hoje sem complexos e sem a preocupação de “ter que vencer” a concorrência.

Para anunciar o mistério da Páscoa, a “palavra da cruz” que é escândalo e loucura para aqueles que não acreditam, mas é “poder e sabedoria de Deus” (1 Cor 1, 23-24), a Igreja terá que renovar a própria linguagem (EG 41) e reelaborar certas fórmulas litúrgicas e do catecismo, poluídas por uma teologia que deixou de ser compreensível. Mas, sobretudo, terá que se tornar uma Igreja testemunha, marcada pela santidade do quotidiano (GE 33), que atraia pelo fascínio da beleza da sua forma de viver, da caridade e do desinteresse, e não pela força das suas obras (v. proselitismo, EG 14) e, menos ainda, pelo seu poder mundano.

2. O desafio da globalização

Um segundo desafio à missão evangelizadora é, hoje, colocado pela globalização, fenómeno que, certamente, pode ter aspetos positivos, mas que é fonte de pobreza, de precariedade, de descarte e desespero, como explica amplamente o Papa Francisco em EG, 52ss.

A Igreja não pode fugir a este desafio, mas tem que enfrentar o problema da pobreza e a crescente desigualdade entre ricos e pobres, que a modernidade tende a ignorar, esconder ou justificar com argumentos mistificadores.

Migrantes resgatados entre Malta e a Líbia
Migrantes resgatados entre Malta e a Líbia. EPA / YARA NARDI / CRUZ VERMELHA ITALIANA

Desde o Concílio, cresceu na Igreja a consciência da importância da libertação dos pobres. Hoje, o Papa Francisco libertou a expressão “opção pelos pobres” atribuindo-lhe um estatuto teológico (EG 198) e reconduziu dentro da esfera da Igreja os temas conectados com ela. Portanto, a missão está ligada com o compromisso pela promoção da justiça e da paz e com salvaguarda da casa comum. E faz isso anunciando o reino de Deus e denunciando as forças que a ele se opõem; e, sobretudo, pedindo a todos os cristãos e às comunidades um novo estilo de vida.

A encíclica “Louvado sejas”, juntamente com a “Caridade na Verdade”, constitui um marco histórico da pastoral que renovou e atualizou a doutrina social da Igreja, comprometendo a missão evangelizadora no seu âmbito secular e social, e subtraindo-a à tentação de um espontâneo e estéril espiritualismo.

3. Os migrantes e os refugiados

Outro desafio, hoje inelutável, e, também, ligado ao fenómeno da globalização e à “Igreja pobre para os pobres”, é o das migrações e dos refugiados, que precisam de acolhimento, acompanhamento e integração. Este desafio tem que ser colocado dentro do momento atual de transição da humanidade para o pluralismo cultural e religioso. Num mundo caracterizado pela intensificação das comunicações, pela interconexão global e pela presença de um conjunto de perigosas formas de integralismo e fundamentalismo, o fenómeno das migrações ajuda a tomar consciência de um mundo plural, ao mesmo tempo que alimenta um clima de insegurança e de medo. Utilizados como instrumento de propaganda eleitoral, esta mistura de insegurança e de medo está a produzir um fechamento egoísta dos vários países numa forma de soberania que se traduz na recusa do outro como tal.

A Igreja, sacramento universal de salvação, de reconciliação e de esperança, deve reagir de forma positiva e, a partir da sua própria vocação universal, deve anunciar a paternidade de Deus e o valor da fraternidade humana, não se deixando contagiar pelo medo e pela recusa do outro e fugindo das atitudes sugeridas pelo comodismo e pelo pessimismo.

4. O diálogo intercultural e inter-religioso

Neste evidente contexto multi-cultural, a missão evangelizadora procurará, incansavelmente, o diálogo entre as culturas e entre as religiões. O tema não é novo, mas é relançado depois de alguns anos em que este diálogo travou temendo comprometer a unidade e, talvez, a uniformidade da vida da Igreja, para além da dificuldade objetiva da inculturação.

Hoje, o Papa Francisco convida a avançar com decisão (EG 69, 115-118) pelo caminho da inculturação, pois daqui depende a autenticidade da evangelização e o nascimento de comunidades genuinamente cristãs.

Papa Francisco com membros da Igreja Luterana na Igreja Charles (Estoniano: Kaarli kirik), em Tallinn, Estônia, 25 de setembro de 2018. EPA / MÍDIA VATICANA
Papa Francisco com membros da Igreja Luterana na Igreja Charles (Estoniano: Kaarli kirik), em Tallinn, Estônia, 25 de setembro de 2018. EPA / MÍDIA VATICANA

Assim, também no diálogo inter-religioso e intercultural, depois de um tempo de indecisão, sente-se a necessidade de dar um passo em frente. Depois de um período de medos e de proibições, o Papa está mostrando à Igreja que, embora reconhecendo as diferenças de ordem teológica, histórica e cultural, é possível procurar e promover aquilo que é comum entre os fiéis das diversas confissões cristãs e das religiões não cristãs. O diálogo será a ocasião para fazer crescer o sentido da catolicidade da Igreja e para verificar a credibilidade da sua missão universal, sem por isso cair em formas de pacifismo ou de confusão. Isto representa uma grande contribuição, não só para a evangelização do mundo, mas também para a causa da paz.

5. A reforma da Igreja

Outro desafio é a reforma da Igreja, para reconduzi-la ao modo como Jesus a quis, que o Concílio redescobriu e que o Papa está decididamente implementando (EG 27-33), no seguimento da decisão tomada por Bento XVI de fazer limpeza dentro da Igreja para lhe restituir credibilidade aos olhos do mundo.

Este é um objetivo corajoso, certamente contra-corrente. Não se trata, apenas, de um problema inerente à Cúria romana ou à hierarquia, mas de um problema que diz respeito à própria missão da Igreja.

Há que encontrar um novo estilo de ser Igreja, a todos os níveis: uma Igreja mais simples, livre e pobre (uma “Igreja pobre para os pobres”, EG 198), uma Igreja acolhedora e aberta a todos, a quem a tenha abandonado e aos não cristãos, hoje espalhados por todo o lado (“uma Igreja missionária”, EG 27); uma Igreja atenta às famílias, mesmo àquelas que falharam (AL), à juventude, uma Igreja misericordiosa e compreensiva… como uma mãe; uma Igreja sinodal em que todos, leigos, padres e consagrados, se sentem envolvidos e responsáveis, cada qual conforme o seu próprio carisma; uma Igreja pobre, que confia, não nos próprios meios, mas na Palavra e na presença do Espírito do Ressuscitado, que se interessa pelos pobres e pelos marginalizados e se sente compelida a ir ter com eles.

O sonho do Papa Francisco é uma Igreja “missionária, capaz de transformar todas as coisas, a fim de que as tradições, os estilos, os horários, a linguagem e toda a estrutura eclesial se tornem um meio adequado para a evangelização do mundo atual, mais do que para se preservar a si própria” (EG 27). Tendo em vista esta reforma, o Papa Francisco avança uma proposta: a “ecologia integral” (LS, 138-141), que une o cuidado da casa comum com aquele dos seus habitantes: “A análise dos problemas ambientais é inseparável da análise dos contextos humanos, familiares, urbanos. Há uma interação entre os ecossistemas e os diferentes mundos de referência social” (LS 141). O futuro do mundo estará assegurado na medida em o polo da humanidade, da justiça e da paz estiver ligado ao polo do bem estar dos pobres: “Enquanto não forem radicalmente solucionados os problemas dos pobres… não se resolverão os problemas do mundo e, em definitivo, problema algum” (EG 202).

6. O mundo das comunicações

Nunca como hoje se sentiu tanto a necessidade de uma Igreja corajosa, que diga palavras claras, que mostre amar este mundo, que, em geral, está perdendo ou esquecendo o caminho da humanidade, e, deste modo, ofereça esperança ao homem e à mulher de hoje. Na verdade, embora sem protagonismos, a Igreja é, hoje, uma – talvez, a única – realidade que sente verdadeiramente o problema do futuro do mundo, das pessoas e da sua dignidade. A Igreja deve fazer ouvir a sua voz sabendo escutar o mundo de hoje, o mundo da comunicação, transformada numa “Babel comunicacional”, onde a comunicação é apanhada por outros e onde a presença da Igreja se perde no caos da informação.

Portanto, é urgente reencontrar uma linguagem que se faça entender, sem cair nas reduções relativistas, nem nas formas fideístas e integralistas. A Igreja deve entrar corajosamente e explorar o campo dos meios da comunicação social, procurando espaços que lhe sejam condizentes e meios adequados para habitá-los.

Sabendo mexer-se, na fidelidade aos princípios evangélicos do respeito pelas pessoas e pela verdade, deverá ser contraponto ao fenómeno atual das fake news para levar ao mundo de hoje, em boa parte distante e indiferente, o primeiro anúncio da salvação.

Estamos, seguramente, perante um mundo novo no qual é urgente que os cristãos estejam presentes com competência e espiritualidade.

7. Uma Igreja, testemunha de um Deus amigo

Enfim, face a estes desafios ou objetivos que o mundo propõe à Igreja para ser fiel à reforma que o Concílio perspetivou, há já 50 anos, é preciso, antes de mais, que a Igreja saiba oferecer ao mundo o testemunho de um Deus amigo, cativante, rico de misericórdia, um Deus diferente do Deus omnipresente e omnipotente que muitas vezes imaginamos… conforme os nossos critérios. Para se revelar ao mundo, Deus tornou-se pequeno e humilde para que nós o possamos acolher, para não meter medo a ninguém e para não humilhar a nossa razão; um Deus que, em Jesus, pode afirmar: “Aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração” (Mt 11, 29).

Para evangelizar este Deus, são necessárias pessoas vivendo em comunidades cristãs que sejam espelho e manifestação de uma Igreja pobre para os pobres e missionária, como, aliás, continua a repetir o Papa Francisco.

Gabriele Ferrari, missionário xaveriano
(Tradução da Revista: Testimoni, setembro 2018, Bolonha – Itália)

  • AL – Amoris Laetitia – “A Alegria do Amor”, Exortação Apostólica pós-sinodal sobre o amor na família, Papa Francisco, 2016;
  • EG – Evangelii Gaudium, “A Alegria do Evangelho”, Exortação Apostólica sobre o anúncio do Evangelho no mundo atual, Papa Francisco, 2013;
  • EN – Evangelii Nuntiandi, “Anunciando o Evangelho”, Exortação Apostólica sobre a evangelização no mundo contemporâneo, Papa Paulo VI, 1975;
  • GE – Gaudium et Spes, “A Alegria e Esperança”, Constituição Pastoral sobre a Igreja no mundo de hoje, Concílio Vaticano II, 1965
  • LS – Laudato Si’, Louvado Sejas, Encíclica sobre o cuidado da casa comum, Papa Francisco, 2015.

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