Jovens… em Sínodo (finalmente)

À data em que estas linhas são escritas, o Sínodo dos Bispos 2018 está na sua “segunda fase” de trabalhos. Há, portanto,um hiato temporal entre este “momento original” e o “momento da leitura” que poderá implicar a “revisão” de algo que aqui possa ser dito. Assumindo, ainda assim, esse “risco”, e deixando um possível “balanço final” dos “ecos” que nos foram chegando para uma ocasião mais propícia, atrevo-me a registar algumas linhas essenciais do que está a (e promete) ser este magno encontro da Igreja “sobre”e “com” os jovens.

Todos sabemos, também pela “tonalidade” que lhes tem sido dada pelo atual Papa, que um Sínodo, independentemente do motivo/tema que preside à sua realização, é (deve ser) sempre um espaço e uma oportunidade de encontro, de diálogo e de (tentativa de) resposta da Igreja aos “sinais dos tempos” que lhe cumpre saber intuir, reconhecer e deixar-se sensibilizar e “inspirar”, na medida em que tais sinais sejam interpelações daquele único Espírito que sopra “onde quer e nós ouvimos a sua voz, mas não sabemos de onde vem nem para onde vai” (cfr. Jo 3, 8).

O discernimento enraizado na fé é o tema e o método

Sob este prisma, poderemos concluir que o presente Sínodo coloca a fasquia bem alta, a julgar pelos fins/objetivos assumidos para esta reunião, assim formulados pelo cardeal Lorenzo Baldisseri, seu Secretário-geral: “Este [sínodo] tem como primeiro objetivo tornar conhecida a toda a Igreja da sua importante e por nada facultativa missão de acompanhar cada jovem, nenhum excluído, na direção da alegria do amor”. E, como se tal propósito já não fosse bastante, acrescentou ainda, concretizando: ”A pastoral juvenil não é uma opção entre outras tantas…”. Ao conjugar os temas da “juventude” e da “vocação”, assume-se igualmente como objetivo “ampliar o conceito tradicional de vocação e, como consequência, numa ligação mais evidente e consequentemente mais sistemática entre pastoral juvenil e pastoral vocacional”. Este novo enquadramento (teológico-pastoral) da “vocação”, aliada a uma dinâmica de permanente “discernimento”, tornarão possível o “improrrogável renovamento eclesial” a que o Papa Francisco tem repetidamente aludido (sobretudo na Evangelii Gaudium) e que passará, necessariamente, pelo “rejuvenescimento” da própria Igreja.

A tónica das palavras do cardeal Baldisseri haveriam de ser confirmadas pelo próprio papa Francisco, no seu discurso de abertura, em que fez questão de sublinhar que o “discernimento” a que o “título/tema” deste Sínodo alude deverá ser não só um “tema” mas o “método” a utilizar pelos seus participantes e o “objetivo” a que todos se devem orientar, pois ele é fundamentalmente “um procedimento interior que se enraíza num ato de fé”.

Transformar as estruturas que hoje
nos paralisam, separam e afastam dos jovens

Assim, à totalidade dos 266 Padres Sinodais, 23 especialistas, 49 auditores, 34 jovens e oito delegados representantes de outras Igrejas e comunidades eclesiais ali reunidos por estes dias, o Papa exorta a que falem com “coragem, liberdade e verdade”, pois um Sínodo (e este muito em particular, pelos temas e realidades que quer enfrentar) deve ser “um exercício de diálogo, antes de mais nada entre aqueles que nele participam”. Só assim este Sínodo poderá ser um “novo encontro eclesial capaz de ampliar horizontes, dilatar o coração e transformar as estruturas que hoje nos paralisam, separam e afastam dos jovens”.

Estava, assim, lançado o mote e apontado o método: diálogo e escuta (para a qual recomendou três minutos de silêncio a cada 5 intervenções, “para que cada um preste atenção às ressonâncias que as coisas ouvidas suscitam no seu coração”), encontro e partilha, verdade e liberdade, interioridade e discernimento; estes deveriam ser os pilares fundamentais sobre os quais os trabalhos haveriam de assentar.

Acerca destes, e do que deles nos é possível saber através a imprensa e do “mundo digital” (um  tema também ali presente e a que a “delegação de língua portuguesa” deu entretanto especial destaque), já se sabe que estão a seguir, com elevada proximidade temática e esquemática, o “Instrumentum laboris”. Assim, o “esquema” dos trabalhos do Sínodo tem correspondido com o adotado naquele texto: numa primeira fase, os padres conciliares colocaram-se à “escuta” da realidade dos jovens, dos seus múltiplos contextos (sociais e geográficos, culturais e económicos…). O (re)conhecimento de tal contexto, que se revela ser deveras problemático, pois não raras vezes impede os jovens de vislumbrarem um “futuro” para os seus sonhos e aspirações, levou a que se (re)formulasse também um dos objetivos transversais de toda a reflexão sinodal (e respetivas orientações futuras): “Dar-lhes esperança” surgiu, assim, como uma espécie de “primeiro repto” assumido pela Igreja como resposta à particular situação juvenil hodierna.

Igualmente digna de registo foi a ideia – surgida igualmente neste primeiro momento da reflexão – relativa à criação de um “Pontifício Conselho para os Jovens” (à semelhança do já existente para a Família), sinal evidente da disponibilidade para a referida “transformação das estruturas”, também a partir de dentro do “aparelho institucional” eclesial. E, de acordo com Paolo Ruffini, Prefeito do Dicastério para a Comunicação do Vaticano, até se ouviu ali um “aviso” para os agentes de Pastoral Juvenil: esta “não deve ser uma tentativa de domesticar” os jovens!

Os jovens: universo central e irrecusável do presente e do futuro da Igreja

Posto e sabendo isto, é deveras positivo e esperançoso o caminho que está a ser trilhado em Roma por estes dias. Do que falta percorrer, sabe-se que, após esta primeira fase de “escuta da realidade”, se seguirão as da “interpretação”, e, finalmente, a das “escolhas”, quer dizer, da tomada de decisões/opções que reflitam e operacionalizem este “exercício de discernimento eclesial”. No fundo, e parafraseando o “retrato” e os “desafios” sintetizados por D. Joaquim Mendes (Presidente da Comissão Episcopal do Laicado e Família) ainda antes do início dos trabalhos sinodais, o que todos esperamos (do Sínodo… e  da Igreja no seu todo) é a coerência, transparência, credibilidade, referencialidade, familiaridade, proximidade e sentido/expressão de comunidade (comum-unidade) neste que é um universo central e irrecusável do presente e futuro da Igreja.

Do caminho que se está a fazer (nos dias restantes do Sínodo) e do que se fará (no pós-Sínodo) falaremos numa etapa posterior deste nosso “caminho sinodal”.

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