Deus, o grande transgressor

 Do latim trans-gradior (ir além, transpor) temos o verbo transgredir e o substantivo anexo, transgressão. Em saborosa linguagem popular, “passar as marcas”. Manuais de direito e códigos de lei entendem que o transgressor é desordeiro, subversivo e merece punição, pois infringe a lei, paradigma da ordem. É fácil, por outro lado, enaltecer o transgressor como o eterno Prometeu que desafia as regras dos deuses tacanhos e leva o fogo/progresso/conhecimento à humanidade. Também o mito bíblico do “pecado original” e a punição cominada à humanidade são muitas vezes interpretados como a consequência da atitude prometeica dos primeiros homens. Quem fica aquém do limite e da fronteira nunca conquistará terras novas e não poderá admirar deslumbrantes horizontes novos.

Até aqui, considerações abstratas. Já houve Alguém, no entanto, que chegou a transgredir-se até a si mesmo, até sua própria natureza. Alguém que chegou a “passar” um mar inteiro e não somente umas ‘marcas’. Foi quando Moisés e os hebreus tinham à sua frente o mar Vermelho e atrás, em seu encalço, avançava a cavalaria egípcia para reconduzi-los à escravidão (Cf. Êxodo, 14, 11). Javé, comovido – ou aborrecido? – pelas lamúrias, fez com que os hebreus “transgredissem” o mar: “as águas fizeram como muro à sua direita e à sua esquerda”. “Muros de água”, um oxímoro; mas parece que Javé gosta de transgredir até as leis da natureza. Pelo leito seco do mar, os hebreus alcançaram a margem oposta, enquanto os egípcios se afogaram nas águas que, respeitando a lei da gravitação universal, voltaram ao seu lugar,

Afinal, quem é esse Javé, Deus de uma parcialidade escandalosa com seus protegidos? Pela lógica, os hebreus deviam ser massacrados ou voltar a amassar barro e fabricar tijolos, porque a “ordem das coisas” impõe que pobre sofra e trabalhe para o poderoso, sem abrir a boca. O nosso Deus, será Ele também tão cumpridor das leis que sustentam a “ordem”?

O SILÊNCIO DE DEUS

O Tao Te Ching, antigo livro de sabedoria chinesa, afirma: “Tome a argila e dê-lhe a forma de um vaso: é o vazio interior que o torna usável”. Uma sinfonia é devedora do instante de suspense e de silêncio absoluto do qual vai brotando. Isso vale também para o encontro com Deus?

Aconteceu um furacão que de tão violento rachava as montanhas e quebrava as rochas diante de Javé. No entanto, Javé não estava no furacão. Depois do furacão, houve um terremoto; Javé não estava no terremoto. Depois do terremoto, apareceu fogo, e Javé não estava no fogo. Depois do fogo, ouviu-se uma suave voz de silêncio.

1 Rs. 19, 11-12

Foi quando o profeta Elias “cobriu o rosto com o manto” e ouviu a voz de Deus.

Onde pára o deus que parte o mar em dois e se anuncia nos relâmpagos e trovões? Onde está o deus “normal” que se esconde atrás dos estrondos e clarões?

“Tu és o Deus escondido” (Is. 45, 15). Onde? No condenado que, na véspera da Páscoa, morre na cruz; no pobre com fome que estende a mão, no doente e no prisioneiro que pedem que não os abandonemos; na comunidade que celebra o amor de Deus e a sua presença que sustenta a fé e a esperança.

Nisso se vê o quanto Deus gosta de ser transgressor; o quanto não cabe em nossos moldes mentais, no senso comum, no óbvio de nossas categorias. Repare na ilogicidade de Deus: parece, e é, muito mais apaixonado e poeta do que filósofo ou engenheiro. A lógica é necessária para entender um silogismo, enfrentar problemas e cálculos, mas o fôlego da vida que Deus soprou (“e o homem foi feito alma vivente” – Gn 2, 7) exige algo mais.

Está aqui a questão básica a respeito da transgressão, para que o “pó da terra” seja recetáculo de “alma vivente”. E se os deuses não indicarem isso, para que servem? O problema é que Deus anda sempre na contramão, disfarçado, e está sempre uma esquina à nossa frente. Mas o dia que aprendermos a pensar como Ele pensa, subversiva e desordeiramente, poderemos alcançá-lo e caminhar juntos. Suas palavras, sublime poesia, transgridem a lógica da razão, semeiam esperança e a mais profunda humanidade em um mundo desumano:

Felizes de vós, os pobres, porque é vosso o Reino de Deus.
Felizes de vós os que agora têm fome, porque serão saciados.
Felizes de vós que agora choram, porque serão consolados.

Lc. 6, 20-21

E estas outras palavras transgridem e subvertem claramente as regras sociais da atualidade:

Mas ai de vós, os ricos, porque já tendes a sua consolação!
Ai de vós, que agora tendes fartura, porque passareis fome!
Ai de vós, que agora ris, porque ficareis aflitos e chorareis.

Lc. 6, 24-25

Enfim, devemos reconhecer que uma fé firme e a esperança baseada na confiança na vida são uma transgressão. Poderíamos defini-la de outra maneira, diante de tantos motivos que temos para desesperançar? E os que trabalham para “humanizar” o mundo, apesar de tanta gente trabalhar para enxovalhá-lo, não são os transgressores que se inspiram e seguem o grande Transgressor?

Tocar para crer, está dentro da lógica; crer sem ter tocado, enxergar o invisível, alcançar o inatingível… somente transgredindo. Só assim é possível criar um mundo verdadeiramente humano – e, portanto, divino – construído não somente por meio da justiça, mas pelo amor, o inexplicável onde tudo se explica.

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