No Coração da Escuridão

O poeta e cronista Pedro Mexia escreveu assim sobre este filme: “Podemos dizer que este First Reformed é um Taxi Driver para teólogos ou para gente que leva a sério as questões que a teologia propõe”.

Expresso, 4 de Agosto 2018

Mas já antes me tinha interpelado o título da entrevista do realizador, Paul Schrader, no suplemento Ípsilon, do Público (13 de Julho 2018): “Os cristãos e os islamitas passam-se da cabeça nisso de confundir o auto-sacrifício com o sacrifício do cordeiro”. Nessa entrevista fiquei também a saber da educação calvinista em que este foi formado, onde não havia corpo e só havia palavras, da fé que não pode existir sem dúvidas, da questão da redenção, do pecado e da angústia, do desalento e da culpa, da expiação…

Fui, portanto, ver o filme. Um filme tremendo e devastador, espantoso e escuríssimo, impiedoso, austero e agónico, violento. Maravilhoso também, porque só a leveza da graça pode salvar-nos e salvar o mundo.

É um filme cheio de pontas que abrem para infinitas leituras: a luta de Jacob e do Anjo; o Getsémani; o sacerdote austero, alcoólico e angustiado do Diário de um Pároco de Aldeia; o pastor protestante a perder a fé de Luz de Inverno; a transcendência tarkovskiana.

Mas vamos ao argumento: Toller – ex-capelão do Exército em agonia espiritual e física –, que carrega a culpa pela morte do filho, no Iraque, e um casamento desfeito, é o responsável pela decadente igreja de First Reformed e vai arrastando a vida, isolado e depressivo, com o seu próprio corpo minado por uma doença. Vive no Getsémani todos os dias.

E tudo se vai agravar na primeira conversa com Michael, um ambientalista radical, que não quer que a sua mulher, Mary, tenha a criança que traz no ventre e que lhe pergunta: ‘Pode Deus perdoar-nos por aquilo que estamos a fazer a este mundo?’ Toller não consegue dizer mais do que ‘Quem pode conhecer o pensamento de Deus?’, mas a questão fica a pesar-lhe profundamente.

Por isso, depois do suicídio de Michael, e quando Mary lhe mostra o colete-bomba que ele guardava na garagem, começa a crescer em Toller uma obsessão: “E, como toda a gente que acha que Deus não nos perdoa, que não teremos nem merecemos perdão, congemina uma purificação através da violência. Quer tirar os pecados do mundo tirando do mundo os pecadores, a começar por si mesmo”. (Mexia)

Ainda aparece uma pequenina luz de esperança em Mary, que irá dar à luz o filho, mas Toller já não consegue voltar a amar. No entanto, por causa de Mary, no dia da festa, ele apenas se matará a si mesmo, acreditando que o ‘sangue limpa’.

First Reformed (No Coração da Escuridão, em português), disse alguém, é uma parábola acerca da esperança, a esperança contida na pergunta de Jesus pregado na cruz: Meu Deus, meu Deus, porque Me abandonaste?
Poucos filmes modernos levam a espiritualidade tão a sério como este faz, na procura de expressar o indizível, de mostrar uma luz onde a escuridão parece não ter fim.

“Ernst Toller, o pastor de First Reformed, é de outro tempo. De um tempo em que a fé não se confundia com a autoajuda e a autoindulgência” (Mexia).

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